quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Astrologia

Foi com espanto que ao folhear as páginas do jornal i do último dia do ano dei com o artigo «Fazer – Isto só lá vai com um mapa astral» da jornalista Ana Dias Ferreira, acompanhado por uma coluna de publicidade (acho que a informação dos nomes, telefones, preços e descrição da actividade não pode ser classificada de outro modo, mesmo que tenha sido gratuita) dos mais importantes astrólogos e tarólogos do país. Já há muito me conformei com encontrar páginas de horóscopos em revistas aparentemente sérias, mas que cedem às apetências dos seus leitores mais supersticiosos (ou crentes, para ser mais brando na classificação) para manter as vendas a níveis confortáveis. Mas ainda não me parece admissível ler num jornal de referência uma página completa com um artigo que toma a sério a astrologia e outras crendices, como o tarot, e não hesita em inserir no texto afirmações como: «Um trânsito de planetas e de astros [Os planetas também são astros, não são?], que em cruzamento com os signos e com os ascendentes pode explicar porque é que somos mais ou menos irascíveis, mais ou menos sortudos, mais ou menos capazes de dizer não» e «… é … um trânsito … determinante sobretudo na hora do nosso nascimento. Nascer com a Lua em determinado sítio ou com Plutão noutro pode contribuir para personalidades muito diferentes.» Pode? A jornalista acredita mesmo nisso? E quer fazer-nos acreditar?

Mais adiante a jornalista concede em avisar: «Segundo a astrologia – que uns defendem como ciência e outros como mera superstição –…». Se esta ressalva estivesse no início do artigo, antes das afirmações citadas, ainda vá, embora seja de duvidar que pessoas sérias defendam a astrologia como ciência. Ou estão de má fé ou não sabem o que é ciência e desconhecem o método científico como meio de explicação dos fenómenos naturais.

Um jornal sério não deveria incluir estes disparates e este apelo ao recurso à astrologia e crendices semelhantes nas suas páginas. Isto não vai lá com um mapa astral, isto só lá vai com bom senso e seriedade, o que manifestamente falta quando se promovem estas superstições e se incita descaradamente à consulta dos seus promotores.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

O governo responde perante o parlamento ou é o inverso?

Até que enfim!! Muitas vezes, ao assistir a debates na Assembleia da República entre o governo e os deputados tenho ficado admirado quando o Primeiro-Ministro interpela os deputados da oposição fazendo-lhes perguntas em vez de responder às questões que estes lhe põem, sem que os interpelados lhe lembrem que o governo responde perante o parlamento e não o inverso.

Até que enfim, que um deputado, desta vez uma deputada, a líder do PSD, Manuela Ferreira Leite, lembra o PM que é ele que deve responder às perguntas dos eleitos pelo povo. Pois Sua Excelência não gostou e com ar revoltado disse à deputada que estava na AR para um debate e não para um interrogatório. Pois era, mas não devia esquecer que ao parlamento cabe o dever de fiscalizar os actos do governo e que deve portanto pôr questões, não devendo o PM escusar-se a responder. Já ser o PM a interrogar os deputados, é pelo menos aberrante.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Tempestade: uma imagem impressionante

A fotografia publicada no jornal i de 16 de Dezembro sobre a tempestade nos Açores é impressionante. Parece quase um quadro clássico. O contraste das águas lamacentas revoltas em primeiro plano com a casa velha e escura com as molduras das janelas muito brancas envolta em verdura parece um cenário. Não sei quem é o autor da fotografia, mas não resisti a reproduzi-la.

Quanto custam as energias alternativas?

Várias vezes tenho posto esta questão. Já procurei na net sem grandes resultados. Recentemente um artigo muito entusiasmado com as energias alternativas publicado no Scientific American de Novembro («A Plan for a Sustainable Future - How to get all energy from wind, water and solar power by 2030») apresenta algumas pistas para o que poderão vir a custar no futuro, mas não esclarece quanto custam agora. No entanto a questão é para nós especialmente importante, já que os governos de Sócrates apostaram no desenvolvimento destas fontes de energia e estamos a pagá-las, nós, os contribuintes e consumidores, à custa de subsídios e benefícios fiscais.

Li anteontem, no jornal i, que «cada um dos 5,3 milhões de clientes paga: * 36,3 euros por ano para a amortização do défice tarifário que inclui juros, * Cerca de 130 euros por ano para financiar o regime de produção especial que inclui eólicas, solar, mas também cogeração industrial».

Isto representa um total de cerca de 689 milhões de euros pagos pelos consumidores. Resta saber qual a fatia dos contribuintes. E não tenho escolha, não posso recusar-me a pagar, se quero continuar a ter electricidade em casa!

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

TGV

Concordo absolutamente. Assim, vamos a maior velocidade para a desgraça.

O empurrão para o abismo

TGV sai do papel como "resposta à crise", afirmou o Ministro das Obras Públicas, António Mendonça.
Pior do que responder ao fogo, deitando-lhe gasolina. E mais uma prova de que o abismo chama o abismo.
posted by Pinho Cardão @ 23:26

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Mitos sobre Salazar

Cada vez que leio qualquer coisa sobre Salazar e o período do Estado Novo, dou com exageros e mitos sobre o que se passava nesse anos. É o caso do ensaio sobre a tacanhez de Salazar, escrito por Marta Rebelo na separata «nós» do jornal i, intitulada «O homem que sabia muito bem o que queria e para onde ia não foi a muito lado». A referida crónica tem muitas coisas certas, outras discutíveis ou que reflectem a opinião da autora, mas que retratam relativamente bem a época. Há porém dois aspectos que me sinto obrigado a referir por não corresponderem à realidade, que conheço bem porque a vivi e observei como parte interessada.

O primeiro aspecto corresponde à repetição de mitos sobre a influência tentacular da ideologia do Estado Novo sobre os indivíduos e sobre as famílias:
Diz Marta Rebelo: «Nós por cá tínhamos a caneta azul da censura sempre pronta a cortar palavras excessivas ou críticas do regime.» Ora, como filho de um crítico que muito escreveu em jornais e tendo eu próprio colaborado num jornal de estudantes, conheci infelizmente de muito perto a acção da censura e posso rectificar que não se tratava de uma «caneta azul», mas sim de um lápis azul.
Neste caso a rectificação é mínima e quase ridícula. mas já não o é nas seguintes afirmações: «Tínhamos a Mocidade Portuguesa, meninos para um lado, meninas para outro, para crescermos dentro da ordem e conscientes dos valores vigentes: ‘Deus, Pátria e Família’» Ora marchei no pátio do liceu com a Mocidade Portuguesa, evidentemente separado das meninas, que até o liceu era só para rapazes, detestei a Mocidade Portuguesa, mas nunca ninguém me falou em Deus, na Pátria e em Família. Talvez os ímpetos iniciais da Mocidade Portuguesa como organização de doutrinação dos «valores vigentes» já se tivesse então perdido, mas na minha época as actividades limitavam-se a marchar e fazer algum desporto; nem a farda era obrigatória e muito poucos a usavam.
Outra frase: «E em cada casa, por cima do rádio ou depois da televisão adornada com o naperon, uma fotografia do Presidente do Concelho…» Nunca vi fotografias de Salazar em nenhuma casa particular; acho esta afirmação perfeitamente fantasiosa. É certo que não frequentava muito casas de adeptos do regime, mas em casas de famílias normais era coisa que não existia. Bem bastavam as fotos nas escolas e repartições públicas, que aí sim, a par do Presidente da República, a fotografia de Salazar era obrigatória.
Finalmente, afirmar que «tínhamos a polícia secreta, a PIDE, que afastava ajuntamentos de mais de três…» é um manifesto exagero. Não tinha a PIDE mais que fazer!

O segundo aspecto corresponde a uma falsidade científica: «António de Oliveira Salazar … conseguiu … codificar a nossa genética como povo.» «Nos dias de hoje … inauguraram uma praça com o seu nome… Não há maior prova de contaminação do nosso ADN pela tacanhez do presidente do Conselho.» Ora no tempo de Salazar não eram conhecidas técnicas de manipulação genética e os caracteres adquiridos (admitindo que Salazar transmitiu a sua tacanhez às gerações que viveram o Estado Novo) não se impregnam no ADN nem codificam a genética dos indivíduos.

sábado, 12 de dezembro de 2009

Não resisto a transcrever; em poucas palavras está (no 31 da Armada) o retrato do país, um retrato que não é bonito de se ver.

«
Sexta-feira, 11 de Dezembro de 2009

A realidade do País em 2009 é de que há mais de 560 mil desempregados, 20% de Portugueses pobres, um défice público superior a 8% do PIB, uma dívida externa que cresce mais de 30 milhões de euros/dia, uma crise económica e social generalizada, falta de competitividade das empresas, corrupção instalada, desprestígio nas instituições políticas, uma queda acentuada da natalidade (que se prevê já abaixo dos 100 mil nascimentos em 2009), e por aí fora.

Perante isto, as grandes prioridades políticas do PS são a regionalização e o casamento gay.
Porreiro, pá.
Estamos no bom caminho.
É preciso é fingir que não se passa nada, adiar os sacrifícios e esperar que isto não rebente nas mãos da rapaziada que se governa com o País.
O último que feche a porta.»

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Kafka não inventaria melhor

Fiquei verdadeiramente espantado com o relato feito por Mário Crespo da descrição do interrogatório a que foi sujeito António José Saraiva. Além do inusitado da convocatória para um Centro de Reinserção Social, chocaram-me e preocuparam-me as questões postas ao inquirido sobre o que pensava do segredo de justiça e de outros aspectos, além de outros pormenores cada qual mais inesperado e chocante. Já se fazem em Portugal interrogatórios sobre opiniões!

Só me veio à memória Kafka e um romance inédito escrito pelo meu filho aos 18 anos que começa com um interrogatório a um honesto consultor fiscal em circunstâncias estranhas. Mas esta realidade ultrapassa a ficção. Espero reacções.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

É fazer a conta

Ficou célebre a atrapalhação de Guterres ao querer calcular de cabeça o défice em percentagem do PIB, não só por não saber bem o valor deste como por não ter sido capaz de fazer a conta.

Mas muito mais grave é a afirmação de Sócrates, sem qualquer atrapalhação, confrontado com o valor da taxa de desemprego em Outubro revelada pelo Eurostat de 10,2%: "O desemprego subiu uma décima."
Uma décima?! Uma décima de quê, uma vez que em Setembro o valor divulgado foi de 9,2%? Se pretendia dizer que subiu uma décima do valor anterior, isto é, uma décima de 9,2, até estaria certo, mas não é assim que se exprimem variações de taxas. A subida foi de 1 ponto percentual. De qualquer modo, a subida é muito grave e qualquer tentativa de disfarçar a gravidade chamando-lhe uma décima ou uma centésima é deitar poeira para os olhos. Os novos trabalhadores despedidos deveriam dar-lhe a resposta. E a crise deixou de servir de desculpa, visto que desta vez ultrapassámos a média da zona euro e da UE.

domingo, 29 de novembro de 2009

Caiu a máscara

Como eu dizia, há qualquer coisa que não bate certo nas reacções do governo e do partido que o apoia às últimas votações na AR. Veja-se o comentário do Blasfémias, por sua vez retirado do Direito de Opinião.

Governo reconhece tentativa de aumento encapotado de impostos

Publicado por JoaoMiranda em 28 Novembro, 2009

Caiu a máscara da mentira

Por António de Almeida no Direito de Opinião:

-Durante a campanha eleitoral o Partido Socialista prometeu até à exaustão não aumentar impostos. O executivo tem sempre desmentido as denúncias da oposição que o Código Contributivo representa um encapotado aumento de impostos. Agora que a A.R. aprovou o fim do disparate, o governo alerta para o perigo de desequilíbrio das contas públicas. A conclusão a retirar é óbvia, estava a ser contada uma mentira aos portugueses.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Sócrates tenta manobra de culpar oposição

Sou dos muitos que ficaram contentes com a suspensão do Código Contributivo. Apesar de não o conhecer em pormenor (não consegui ainda o texto integral), o que foi divulgado pela comunicação social deixava-me seriamente apreensivo. Até me parece que, em vez de suspenso, deveria ter sido pura e simplesmente anulado. De qualquer modo a suspensão foi uma boa notícia para aqueles que são pagos a recibos verdes porque exercem profissões livres ou porque não conseguem trabalho de outro modo, e que veriam os seus encargos com a SS fortemente agravados assim como os dos seus clientes.

Claro que a votação de há pouco na AR representa uma pesada derrota para o PS, para o governo e para Sócrates em particular. Além disso abre um precedente de coligação negativa que assusta a área socialista. Mas diabolizar a oposição como fez Lacão ao comentar a derrota sofrida ou de acordo com o comentário de Sócrates não parece correcto. A posição dos partidos da oposição era conhecida. O Código estava conforme o acordo conseguido em sede de concertação social? É possível. Mas não deixava de ser altamente penalizador para um largo sector das PMEs e para muitos profissionais. A referência de Sócrates a "aumento da despesa" não se aplica a este caso, haverá sim um não aumento da receita, mas como o governo afirmava e repetia que não haveria aumento de impostos, não se pode queixar agora de a oposição se opor a este aumento! Claro que as contribuições para a SS não se chamam impostos, mas não nos são impostas?

Além disso, como nota O Insurgente, a crítica de que a AR está ou quer usurpar funções do governo não tem qualquer sentido, visto ser a AR o órgão legislador por excelência.

Claro que ainda há quem se lembre que Salazar, para salvar as abaladas finanças do país herdadas da Ditadura que se seguiu ao 28 de Maio, proibiu a Assembleia de votar diplomas que implicassem aumento de despesa. Será que Sócrates quer repetir esta norma?

terça-feira, 24 de novembro de 2009

O Mau e o Bom em versão portuguesa

Em tempos, quando trabalhava num país estrangeiro, assisti a uma conversa entre dois empresários, sócios num novo empreendimento, que combinavam a estratégia para conversações com um fornecedor de tecnologia exigente em termos financeiros. O fundamental da estratégia combinada foi um fazer de mau, fingindo ser intransigente, e o outro fazer de bom, sugerindo facilidades.

Esta táctica é muito usada e agora tornou-se evidente a sua adopção pelo par Gov. BdP - PM.
Constâncio faz de mau deixando entrever habilidosamente a necessidade de aumento de impostos, sem o dizer claramente. Logo Sócrates faz de bom, negando que o governo tenha essa intenção. Assim o povo cantará loas ao querido líder que o livra dos impostos. O que não disseram é que o novo código contributivo, quando entrar em vigor, vai causar um grande aumento de contribuições, que são impostos com outro nome, e que a promessa de não aumento é só para 2010, depois se verá. Não passa tudo de uma mistificação e quase apostava que o Mau e o Bom combinaram a estratégia.

Coma

Impressionou-me a notícia sobre o homem que passou 23 anos em coma mas consciente. De salientar a coragem da mãe que esperou 23 anos pelo milagre.

Mas o que mais impressiona, como salientou o 31 da armada, foi pensar que noutros casos de estado supostamente vegetativo parece razoável evitar a continuação do suporte de vida por alegadamente inútil. Na discussão sobre a eutanásia devem ser tidos em conta casos como este.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Plano Inclinado

Foi reconfortante assistir ao programa Plano Inclinado de Mário Crespo, com a presença de Medina Carreira, João Duque e Nuno Crato. Reconfortante, por ver que ainda há quem tenha ideias claras, exponha os problemas com que o país se confronta de modo explícito e não tenha medo de dizer o que pensa, mas ao mesmo tempo assustador por pensar nas consequências das actuais políticas erradas que nos arrastam para o abismo. Também foi reconfortante ler a mensagem de Susana Toscano no blog Quarta República e os comentários. Se formos passando a palavra, talvez se possa atenuar o desastre.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Crise, corrupção e mensagem de Sócrates

Os números das previsões económicas da UE sobre Portugal hoje revelados são muito inquietantes, por muito que alguns, entre os quais o principal responsável, o Ministro das Finanças, salientem que são melhores do que as previsões anteriores (o que só é válido para alguns parâmetros e não é grande consolo). A divergência com a Europa continua a aumentar. O arrastar dos défices excessivos pelo menos até 2011, o aumento do desemprego e a escalada do endividamento são de molde a fazer prever grandes sofrimentos para os portugueses.

O caso "face oculta" veio revelar indícios terríveis sobre a corrupção em Portugal atingindo altos responsáveis. E o pior é que se adivinha que muitas outras faces continuam ocultas.

No meio destas notícias nada agradáveis, o Primeiro Ministro convoca uma conferência de imprensa para dizer o quê? Que prepara novas medidas para ultrapassar a crise? Que o combate à corrupção será uma prioridade do novo governo? Não! Que está muito feliz e contente por finalmente terem sido ultrapassadas as dificuldades para a entrada em vigor do tratado de Lisboa. E manifesta o seu orgulho por o tratado ter o nome da nossa querida capital. Só Sócrates encontra motivos de contentamento, de felicidade e de orgulho no meio das desgraças presentes e das que se prevêem para o futuro. Não terá a noção do ridículo?

Programa do Governo e maioria

O Programa do Governo foi criticado pela oposição em peso, da esquerda e da direita, por ser uma cópia do programa eleitoral do PS. O PS considerou as críticas sem razão por ter ganho as eleições com os votos da maioria dos portugueses. Ora mesmo que possamos considerar as críticas pouco justas por o PS ter ganho as eleições, a justificação não é correcta. O PS não teve o voto da maioria dos portugueses, nem sequer da maioria dos votantes. A maioria dos votantes votou na oposição, cerca de 2/3. Só cerca de 1/3 dos votantes votou no PS e em consequência apoiou o seu programa. Claro que, em democracia, o partido mais votado tem legitimidade para formar governo e pode elaborar e propor à Assembleia dos deputados o programa que entender, cabendo a estes recusá-lo se assim quiserem. Mas não é correcto dizer que tem a maioria do povo com ele. A verdade é que a maioria do povo está contra eles e demonstrou-o no voto. Se esta maioria não pode governar por estar dividida e até de modo muito profundo, não deixa por isso de ser a maioria

domingo, 1 de novembro de 2009

Desperdícios

Há dias li um comentário sobre a necessidade de reduzir o consumo excessivo de sacos de plástico, em que se acrescentava que este consumo estava longe de constituir o maior desperdício do nosso tipo de sociedade. Isto ocorreu-me hoje novamente ao receber, com o meu jornal diário habitual, como oferta, um luxuoso livro com o programa para 2010 da Casa da Música. Já no ano passado tinha recebido um idêntico. Apesar de bem elaborado e apresentado, apesar de o programa em si poder ser de grande interesse, não posso deixar de lamentar o desperdício que constitui distribuir a eito milhares deste programa que, pelo tipo de papel, pelo cuidado da impressão e pelas numerosas imagens não pode ter ficado barato. Bem sei que os mecenas devidamente identificados (BPI, SONAE, fundação EDP, AXA, fundação GALP Energia, UNICER, Amorim e C. M. Porto) devem ter contribuído generosamente, mas esse facto não anula que, sob o ponto de vista da economia da sociedade no seu conjunto, a distribuição indiscriminada, por melómanos e porventura por muitos que não apreciam música, para mais não restrita ao Porto, representa um desperdício. Haverá outros mais graves e eu até gosto de música, mas, morando em Lisboa, não me irei deslocar à Casa da Música no Porto, e como eu certamente muitos outros leitores do Público. Tem havido outras publicações distribuídas com os jornais que igualmente me chocam, para não falar dos inúmeros folhetos distribuídos por outros meios, nomeadamente nas caixas do correio, mas esta, em forma de livro, é certamente das mais dispendiosas.
Já agora, uma nota de outra ordem, referente ainda ao programa da Casa da Música: algumas ilustrações reproduzem obras de arte. É pena que não estejam devidamente identificadas: Por exemplo na página 68 um quadro de um cena fluvial é identificado apenas como "Fine Art Photographic Library - CORBIS". Título? Autor? Época?

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Esquerda, esquerdas

Há muito que penso que a noção clássica de esquerda e direita em política é cada vez mais equívoca. Ultimamente têm vindo de vários sectores da chamada esquerda apelos à convergência da mesma esquerda. Estes apelos têm-me parecido despropositados, dadas as enormes diferenças ideológicas e programáticas das diferentes forças que se reclamam de esquerda. As diferenças não são de agora, vêm do tempo do próprio Marx, que fez questão de rotular de utópico o socialismo anterior e considerou que só o "seu" socialismo era científico. Em diversas alturas e em diferentes países houve tentativas de colaboração entre socialistas e comunistas, como nas frentes populares, mas modernamente tem-se assistido mais a rivalidades e a lutas políticas do que a colaborações, para não falar em convergência. Na realidade portuguesa actual não se vê como seria possível conciliar o programa do PS com o do PCP ou do BE a nível governamental, e muito menos, tendo em conta os resultados das últimas eleições legislativas, formar uma maioria de esquerda que teria de reunir estes 3 partidos. Até há cerca de meio século, a principal divergência entre partidos socialistas e partidos comunistas consistia na estratégia para atingir uma sociedade socialista com apropriação colectiva dos meios de produção. Enquanto que os comunistas defendiam uma apropriação rápida e violenta cujo resultado teria inevitavelmente de ser defendido através de uma ditadura do proletariado, os socialistas previam que tal resultado podia ser obtido por meios mais pacíficos, com nacionalizações dos sectores económicos mais importantes sem necessidade de convulsões violentas e mantendo o regime democrático. Hoje os comunistas mantêm o seu programa, embora evitem proclamá-lo claramente e nunca o mencionem na propaganda eleitoral. Os socialistas, por seu lado, aceitam hoje uma economia de mercado e apenas defendem um "estado social" que promova a redistribuição da riqueza de modo a tentar - como se tem visto nem sempre com êxito - proteger as classes mais pobres. Os comunistas querem destruir o estado burguês baseado no capitalismo, enquanto que os socialistas se resignam a suportar o capitalismo e mesmo a defendê-lo se necessário, apenas impondo limitações e regras para tentar domá-lo.

Estas considerações são certamente muito primárias e podem até conter algumas inexactidões. Com grande satisfação li hoje (segunda-feira, 19) o artigo de Saarsfield Cabral no Público em que muito melhor do que eu explica a impossibilidade da tal convergência de esquerda. Vale a pena ler.

sábado, 17 de outubro de 2009

Reformas

Os defensores do governo actual de Sócrates - ainda actual, mas nas últimas - costumam falar, como argumento acerca da bondade do dito governo, do ímpeto reformista ou simplesmente das reformas levadas a efeito ou iniciadas. Confesso que nunca percebi quais são essas reformas e que vantagem trouxeram para o nosso país. Tirando a reforma da Segurança Social, que veio evitar a ruptura a curto prazo do sistema por asfixia financeira, mas se limitou a aumentar as receitas à custa do contribuinte - à nossa custa - e reduzir as despesas baixando as pensões futuras, o que era indispensável do ponto de vista contabilístico mas está longe de ser muito meritório, dizia eu: tirando esta reforma, as restantes reformas apregoadas ou não foram sequer iniciadas ou tiveram resultados desastrosos. Veja-se o caso da reforma penal! A célebre reforma da Administração Pública ficou-se por pôr no quadro de excedentários (ou em situação semelhante com outro nome) alguns, poucos, funcionários públicos do Ministério da Agricultura e pouco mais. A despesa com funcionários públicos não sofreu redução, nem em termos nominais nem em termos reais nem sequer em percentagem do PIB.

Ainda hoje a Ministra da Educação falou com elogios da importância da reforma da educação que levou a cabo. Não sei bem em que constou tal reforma, mas pelos resultados não foi famosa. Que outros sectores foram reformados? Qual o sentido dessas reformas, em que consistiram, que objectivos tinham e que estado alcançaram? Nem o governo nem as oposições têm esclarecido essas questões. Que irá fazer o futuro governo agora em formação sobre essas reformas? Espero que o programa do governo elucide alguma coisa sobre este assunto.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Coincidências: Qimonda e ciclo eleitoral

Pelos vistos, não fui só eu que notei a notável coincidência de a Admnistração da Qimonda anunciar o despedimento de 590 trabalhadores logo a seguir ao fim do ciclo eleitoral que agora terminou. Este facto também é salientado aqui, aqui e aqui. Além do mais por virem afirmar que tal já estava previsto, não se percebendo então a surpresa revelada pela comissão de trabalhadores. Ou a dita comissão está muito mal informada (por culpa de quem a devia informar) ou o projecto de despedimento colectivo desta dimensão foi cuidadosamente escondido, não fosse dispor mal o povo votante.

Mas afinal, o Fernando Martins que se acalme, porque logo se veio a saber que afinal não são 590 mas apenas 490. Podemos todos ficar mais descansados...

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Obama prémio Nobel!

Já se sabia que os prémios Nobel da literatura e da paz são concedidos segundo critérios políticos (Felizmente os prémios Nobel das áreas científicas não parecem sofrer desta pecha!). Mas agora fica-se a saber, ou melhor, a confirmar, a área política a que obedece o prémio da paz: a da esquerda. Obama prémio Nobel? Que fez ele de notável nesse campo para além de promessas ainda não concretizadas? Que paz conseguiu, em que país? Que acordos alcançou? Que tratados promoveu ou assinou? O anúncio oficial do prémio era aliás indicativo de que se tratava de premiar esforços, promessas, tentativas. O que parece evidente é que se trata de exercer uma forte pressão para que Obama retire rapidamente do Iraque, não mande mais tropas para o Afeganistão e chegue com urgência a acordos com o Irão. A concessão do Nobel não vem, neste caso, premiar o que se fez, mas sim indicar o que tem de ser feito, sob pena de perda de dignidade e de aceitação internacional, pelo menos junto dos sectores que aplaudiram a eleição de Obama pelas esperanças, ainda não concretizadas, de inflecção total da política internacional dos Estados Unidos.

Depois de escrever este postal, encontrei este outro, com o qual estou 100% de acordo.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Cristaloterapia

Gosto de cristais e até tenho uma pequena colecção de cristais e outros minerais. Incentivo mesmo os meus netos a fazerem as suas colecções. Aprecio a beleza dos cristais e gosto de os observar e estudar. No entanto acho que a atribuição de propriedades curativas ou energéticas aos cristais não passa de pura superstição ou mesmo charlatanice.

Há dias, com o meu jornal vinha um número "oferta" da revista Executive Health & Wellness, Excelência em Saúde (ano 2, n.º 14). Tirando o facto de o título da revista ser demasiado comprido e a bacoquice de estar em parte em inglês (porquê, se é, segundo parece, uma revista portuguesa, totalmente escrita em português, feita por portugueses?), pareceu-me uma revista bem feita e com artigos interessantes, mesmo para mim que não sou executivo nem profissional de saúde.

Porém fiquei espantado ao encontrar no final da revista um artigo que fugia totalmente ao estilo sério e científico do resto da revista: "Reequilibre-se com a cristaloterapia". A leitura do artigo confirmou os meus receios. Afirmações como "A [crislalo]terapia intervém no tratamento de todos os corpos energéticos (mental, psíquico, energético, espiritual), afirma a terapeuta de cristaloterapia Maria Santa"; "os seres humanos têm centros energéticos conhecidos em medicina ayurvédica por chakras e em medicina chinesa por meridianos, pontos essenciais na circulação e equilíbrio da energia, que podem determinar a saúde ou doença do organismo."; "O cristal envia a energia que possui para os nossos corpos, sendo por sua vez, um aspirador da nossa má energia" deixam muitas dúvidas sobre a base científica da cristaloterapia. No final do artigo há uma série de "Sugestões de pedras para...". Cito apenas a última, como exemplo: "-Combater as insónias - pirites de ferro, estaurolite, turmalina, ametista, crisópraso, quartzo defumado".

Cada um tem liberdade de acreditar no que quiser. Há quem acredite em rezas, quem consulte astrólogos ou magos, quem se trate com ervas, com pedras, com aromas ou com mezinhas. O que estranho é que este artigo tenha aparecido numa revista de carácter científico sem qualquer comentário que o distinga dos artigos mais conformes com a medicina convencional como ramo científico.

domingo, 4 de outubro de 2009

Ignorância ou distracção?

São só dois exemplos recentes, mas se eu quando leio o jornal ou ouço televisão tivesse sempre um caderno e um lápis à mão poderia coleccionar muitos mais: São os disparates que lemos e ouvimos quase diariamente nos meios de comunicação.

Anteontem, a jornalista Clara de Sousa, que considero uma das jornalistas mais competentes das nossas televisões, estaria distraída ou mal informada: A propósito de um tremor de terra na Sicília, que atingiu particularmente a cidade de Messina, referiu a destruição na "cidade da Sicília". Ora a Sicília não é uma cidade, é uma ilha que constitui uma região autónoma da Itália, sendo Messina a cidade sua capital.

Hoje, o jornal Público publica a seguinte notícia curta (página 21): «A Presidente da Argentina, Cristina Kirchner, reivindicou ontem "direitos legítimos" de soberania do seu país sobre as ilhas Maldivas, num discurso perante familiares de soldados mortos na guerra de 1982 contra o Reino Unido.» Ora como seria possível que a Argentina reivindicasse direitos sobre uma república independente constituída por um arquipélago situado a sul da Índia? Claro que a presidente da Argentina se referia às Malvinas e não às Maldivas.

Em ambos os casos, qualquer olhadela a um mapa-mundi ou uma pesquisa no Google revelaria o erro. É necessária mais atenção.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Teoria de Darwin posta em dúvida na TV


A divulgação dos resultados de estudos sobre a "nossa mais antiga antepassada", uma fêmea de Ardipithecus ramidus, tem preenchido justificadamente espaço jornalístico e televisivo (não sei se também radiofónico, mas imagino que é possível). Mas fiquei deveras curioso com a afirmação ouvida num canal de TV, que infelizmente não posso identificar por não ter reparado qual era, de que estes estudos "vinham pôr em causa a teoria de Darwin". O restante da notícia, de tão resumido e confuso, não me permitiu saber como e porquê a teoria da selecção natural vinha a ficar prejudicada pela descoberta. Só a leitura posterior do artigo sobre o mesmo assunto inserto no Público veio a revelar que a falência da teoria de Darwin não passava de confusão do jornalista. O que afirma no Público é: «E hoje, uma equipa multidisciplinar de 47 cientistas, oriundos de dez países, publica na revista Science nada menos do que 11 artigos descrevendo os resultados - alguns dos quais põem em causa ideias estabelecidas da história evolutiva dos grandes símios e dos homens.» Mesmo que alguma destas "ideias estabelecidas" tenha sido estabelecida por Darwin, o que é duvidoso dado o extraordinário desenvolvimento que a teoria da evolução teve desde as suas origens, dizer que é a teoria de Darwin que está em causa não é só um exagero, é um tremendo disparate.

Esquerda e idiotas úteis

Vale a pena ler a opinião de O Lidador no blog Fiel Inimigo sobre posições aparentemente incoerentes da esquerda. Veio esclarecer dúvidas minhas antigas.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Especular é preciso (do blog Corta-fitas)

Falta-me o tempo e a paciência para escrever aqui. Não faltaria matéria para comentar.
Limito-me a transcrever, com a devida vénia, a seguinte mensagem do Corta-fitas:

«Para que não se julgue que eu não sou capaz de fazer também especulações políticas de fino recorte, aqui vai. Cavaco recebe Sócrates amanhã, faz depois a ronda pelos partidos e diz então ao secretário-geral do PS: “Já percebi que não consegue formar coligações, nem sequer garantir apoio maioritário para o seu Governo no Parlamento. Tratou tão mal os outros partidos quando tinha maioria absoluta que agora eles não o querem ver nem pintado e não adianta pedir batatinhas. Além disso, não confio em si a nível institucional. Por isso, o seu partido que arranje outro para eu nomear primeiro-ministro. Podem ser o Teixeira dos Santos ou o Vieira da Silva, que talvez não se vistam tão bem como o senhor, que podem até não ter penteados tão bonitos, mas pelo menos percebem minimamente como se governa. Ah, não querem? Então presidencializo já isto e nomeio o Professor Luís Campos e Cunha, personalidade independente de reconhecidos méritos, para formar Governo.”


publicado por Duarte Calvão»

O seguinte comentário, de Pedro Correia, dá mais sabor ao postal:

«Duarte, tens que te esforçar um pouco mais nesta tua nova faceta de criador de factos políticos. Porquê Luís Campos e Cunha, um homem que entrou em depressão ao fim de três meses no Governo, e não Henrique Medina Carreira, 'lui même'?
Convenhamos que seria tudo bem mais divertido.»

A consideração que me merece Henrique Medina Carreira, cujo espírito lúcido já aqui louvei, leva-me a acrescentar que, se fosse possível, só não resultaria porque Medina Carreira não conseguiria arranjar ministros para o seu governo (ia a escrever "ministros à altura", mas retirei o "à altura porque ninguém mesmo teria o espírito de sacrifício de integrar tal governo).

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Ainda o Magalhães

A maior graçola que Sócrates debitou na entrevista que concedeu a Ricardo Araújo Pereira no programa de esmiuçamento do Gato Fedorento foi afirmar que todos os alunos do ensino básico já têm computador. Se fosse verdade não teria sentido a dúvida que se põe se vai continuar a distribuição de Magalhães nas escolas do 1.º ciclo (a não ser para os novos alunos agora entrados no ciclo, evidentemente). Mas a verdade (se é que se pode falar em verdade sem sermos acusados de salazarismo!) é que há escolas em que nem no ano passado foi distribuído um único Magalhães nem no ano lectivo que agora começou se falou sequer no assunto. Tenho netos de diferentes idades a frequentar escolas públicas e só vejo computadores desligados e arrumados sem qualquer uso e não mais do que um por sala.

Manuela Ferreira Leite e Salazar

Nunca pensei que houvesse quem se lembrasse de tentar associar Manuela Ferreira Leite a Salazar. Muito menos que essa associação tivesse como base o elogio que ambos fizeram, com 81 anos de intervalo, do uso da verdade em política. Sim, MFL está a ser acusada de salazarismo por ter feito da verdade um dos apelos da sua campanha.

Por outro lado, não terá passado pela cabeça do acusador de serviço que entre os inúmeros escritos de Salazar alguns haverá certamente que não defendem ideias condenáveis? Defender o uso da verdade em política será exclusivo da extrema direita? Será por pensar assim que se generalizou o uso de mentiras nas campanhas de certos sectores?

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Espionagem, escutas, PR e assessor

Como é possível haver tantas pessoas a escrever e a dizer coisas, por vezes contraditórias, sobre o estranho caso da espionagem ou das escutas em Belém e sobre o assessor que disse ou encomendou, com ou sem indicação ou autorização ou ordem do PR, que se desse publicidade às desconfianças da dita espionagem ou das ditas escutas, a um jornalista que pediu a um colega que investigasse por um e-mail, o qual terá sido espiado ou foi propositadamente enviado ou talvez desviado ou soprado e que veio publicado num outro jornal que não o dos jornalistas citados, o que levou o PR a demitir o dito assessor para mostrar que a ordem, sugestão ou indicação para dizer ou encomendar a referida desconfiança de haver escutas ou espionagem não tinha sido dada por ele, demissão que poderá favorecer ou não o PS nas próximas eleições, o que talvez tenha sido ou não propositado da parte de algum dos intervenientes? Bem, pela longa frase parece que realmente há muito que dizer ou escrever sobre o assunto, mesmo sem se saber praticamente nada de certo sobre o dito assunto.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Manuela: sentido de humor surpreendente


Pode haver dúvidas sobre que ganhou outro dia o debate entre Sócrates e Manuela Ferreira Leite. Tanto que pode haver que as houve: uns opinaram que ganhou S, outros que ganhou MFL, e ainda alguns, para não se comprometerem, afirmaram que houve um empate.

Mas hoje, graças a um conhecido grupo de humoristas que tenta desde ontem esmiuçar o sufrágio dos portugueses, poucas dúvidas restarão que em entrevistas ao Gato Fedorento Manuela ganhou em toda a linha. Mostrou calma, segurança, sentido de humor e fair play. Principalmente mostrou à-vontade e foi natural. Foi ela própria, porém surpreendentemente bem disposta e até um pouco brincalhona, sem deixar de ser sincera, ao contrário do entrevistado da véspera, que deu sinais evidentes de estar nervoso e pouco à vontade, respondendo o politicamente correcto e sem graça, embora se tivesse rido muito.

Dito isto, devo confessar que não penso que seja inevitável que o facto de se portar melhor num programa humorístico, embora com perguntas muito sérias, indique alguém para o cargo de primeiro-ministro. Assim como o facto de alguém fazer gafes ou de não gostar de comícios não é sinal de que não pode ser bom primeiro-ministro. As qualidades que penso que um bom primeiro ministro deve ter são outras (excepto a sinceridade, de que se tem sentido a falta ultimamente). Mas foi refrescante assitir a uma boa entrevista, com humor, mas no fundo muito séria.

domingo, 13 de setembro de 2009

Energia alternativa em Évora: refrigeração a leque


A avaliar pelas imagens que acabo de ver na TV (Jornal da RTP2) do aspecto da sala durante o discurso de Carlos Zorrinho, responsável pelo chamado Plano Tecnológico, a anteceder a intervenção de José Sócrates, ficou claro que a energia alternativa mais apropriada para arrefecer os rostos afogueados dos militantes socialistas presentes, principalmente das militantes, era a refrigeração a leque. Se o uso do leque for imposto durante o Verão em todos os edifícios públicos como uma norma do Plano Tecnológico, a poupança de energia com base em combustíveis fósseis será enorme e evitar-se-á a emissão de muitas toneladas de CO2 para a atmosfera, retardando assim o aquecimento global. Vamos pois todos abanarmo-nos com leques.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Capela de Santo Amaro

Vi no Lisboa S.O.S. com desgosto imagens do estado de degradação a que chegou a Capela de Santo Amaro.


Quando frequentei o Liceu de D. João de Castro, de que consta querem desactivá-lo como estabelecimento de ensino, apesar das condições ímpares que apresenta para esse fim, morei durante anos na Rua dos Lusíadas e visitei várias vezes a Capela de Santo Amaro, então já abandonada, mas ainda não vandalizada nem grafitada. Fazia-o com deleite e custa-me muito ver o estado a que chegou. Felizmente parece possível a recuperação, assim haja vontade e meios.
Perante casos como este, infelizmente não raros, custa-me pensar que há quem defenda os graffiti como uma forma de arte sem condenar o seu emprego sobre artes mais antigas e que deveriam ser preservadas. Pode ser que sejam uma forma de arte – popular e contemporânea – quando não se limitam a rabiscos ou a iniciais mais ou menos elaboradas que se destinam prioritariamente a delimitar territórios, mas mesmo quando incluem desenhos que podemos considerar artísticos deveriam seleccionar como base muros ou paredes que não pertencessem a monumentos e que não fossem desfeados com a cobertura de graffiti. Até um grande artista deveria ser alvo de crítica se resolvesse pintar sobre um monumento antigo.

domingo, 6 de setembro de 2009

A saúde nos programas eleitorais

A acusação tem sido repetida nestes últimos dias: Sócrates diz que o programa eleitoral do PSD não refere uma única vez o Serviço Nacional de Saúde (SNS), o que acha particularmente grave e sinal de que aquele partido está contra o sistema de saúde público. Sócrates insere esta ideia na estratégia geral que, segundo ele, o PSD persegue de privatização geral, entregando à iniciativa provada até a saúde, a Segurança Social e a educação.
Resolvi verificar o fundamento da acusação principal -- a ausência de referências ao SNS no programa do PSD -- e das conclusões que Sócrates tira daí.
Se bem que seja verdade que não encontrei a expressão "Serviço Nacional de Saúde" uma única vez no programa do PSD, verifiquei que a palavra "saúde" aparece no texto 35 vezes, enquanto que o programa do PS cita a palavra 121 vezes. Mas daí não se pode concluir que o PS se preocupe mais com a saúde dos portugueses, já que o seu programa é muito mais extenso e pormenorizado, tendo 130 páginas, enquanto o do PSD tem apenas 39. Portanto a palavra "saúde" aparece uma média de 0,90 vezes por página no documento do PSD e 0,93 no do PS. A diferença não é pois significativa.
Vi ainda que a expressão "Serviço Nacional de Saúde" ou a sigla "SNS" só são citadas pelo PS 22 vezes, pelo que se vê que se pode dizer muito sobre política de saúde mas referindo o respectivo serviço público pelo nome apenas 18% das vezes (0% pelo PSD).

Mas o programa do PSD inclui designadamente expressões como:

«serviços públicos básicos – como a saúde

Plano Nacional de Saúde

serviços públicos de saúde

política de saúde»,

defende:

«maior acessibilidade aos serviços de saúde»

e afirma:

«Desenvolveremos políticas específicas de saúde infantil

comprometemo-nos com a universalidade no acesso aos cuidados de saúde

Alargaremos progressivamente a liberdade de escolha pelo utente dos prestadores de serviços de saúde: o beneficiário passará a poder escolher cada vez mais, dentro ou fora do sistema público, o hospital ou o centro de saúde da sua eleição

Defenderemos uma gestão integrada da Rede de Cuidados de Saúde»

Parece-me inevitável concluir que, embora se possa discordar da política de saúde do PSD -- e não espanta que Sócrates discorde --, o que não é legítimo é acusar o PSD de estar contra o Serviço Nacional de Saúde, só por não o referir expressamente pelo nome. Se eu disser "o actual primeiro-ministro", toda a gente sabe a quem me estou a referir, mesmo não lhe dizendo o nome.

sábado, 5 de setembro de 2009

Liberdade de imprensa - liberdade de expressão

O recente episódio do afastamento da jornalista da TVI Manuela Moura Guedes do Jornal Nacional de Sexta-feira já foi tão escalpelizado (ver aqui, aqui e aqui) que será difícil dizer mais. Mas não vi ainda ninguém defender a tese que me parece evidente de que os ataques verbais continuados do primeiro-ministro e do secretário-geral do PS, que por acaso são uma e a mesma pessoa, ao dito Jornal Nacional e à sua apresentadora foram objectivamente modos de pressão sobre o conteúdo jornalístico daquele programa. Não sei, ninguém sabe (a não ser os intervenientes anónimos), de quem partiu a ordem do afastamento, pode ter sido dalguém do PS, mas também pode não ter sido. Provavelmente nunca viremos a saber bem como e porquê as coisas aconteceram assim. Mas as pressões anteriores têm um rosto, lembramo-nos delas e foram recordadas, estão gravadas, é um facto objectivo.
Agora, defender, como fez Mário Soares, que se trata de um simples problema de uma empresa e que o governo não tem nada a ver com o assunto ou é ingenuidade ou má-fé. Por outro lado, considerar que se trata de um assunto legal ou apenas discutir se o Jornal Nacional das sextas apresentado por Manuela Moura Guedes tinha ou não qualidade, se era ou não populista, se gostávamos ou não de o ver, são visões redutoras da questão. Mesmo admitindo que o Jornal Nacional da Manuela Moura Guedes era deplorável e populista, o que não me parece pelos poucos minutos a que assisti, a censura evidente exercida por alguém sobre o programa é um atentado à liberdade de expressão.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Debates e comentários

Têm-se ouvido já de há muito numerosas vozes críticas sobre a falta de discussão de ideias nas campanhas eleitorais e designadamente nos debates. Estas críticas são muitas vezes inteiramente justas. Mas quando se ouvem comentadores a expressar a sua opinião sobre os debates só se referem à táctica e à estratégia das discussões e raramente ao conteúdo. Mais parecem comentadores de futebol a falarem do modo como decorreram os jogos, do mérito e demérito dos jogadores e das tácticas dos treinadores. Se a política se parece cada vez mais com o futebol, estes comentadores também contribuem para isso.

sábado, 29 de agosto de 2009

Linha vermelha e campanha eleitoral


O prolongamento da linha vermelha do Metro hoje inaugurado é sem dúvida uma boa notícia para a cidade de Lisboa e para os seus moradores, especialmente para os do bairro dos Olivais, como eu. Gosto de andar de Metro e a ligação ao Saldanha e a São Sebastião vai-me poupar muito tempo. No entanto, fiquei muito desagradavelmente surpreendido ao verificar, pelas reportagens da inauguração nas televisões de hoje, que o ministro Mário Lino aproveitou a ocasião para fazer propaganda política partidária, atacando o PSD e o seu programa. Mário Lino tem todo o direito de dizer publicamente as suas opiniões políticas e até de participar activamente na campanha eleitoral. Pode defender a política do PS, partido que apoia o seu governo, e mesmo de atacar o PSD e dizer mal do seu programa, se não concorda com ele. Mas fazê-lo enquanto ministro e numa inauguração de uma infraestrutura não me parece correcto. Vá aos comícios do PS ou dê entrevistas, mas em pleno Metropolitano num acto público em que representa o seu governo não devia ter falado como falou.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Habemus programa do PSD

Na data anunciada e sem as fanfarras de propaganda a que o PS nos habituou, foi apresentado o programa do PS.

No blog Quarta República pode ler-se:

«Acho mal, acho muito mal...

... que a Dr.a Manuela Ferreira Leite não tenha tido uma palavrinha de agradecimento para o PS e para o Engº Sócrates pela publicidade que durante semanas fizeram ao programa eleitoral do PSD hoje apresentado, e pela expectativa, verdadeiramente invulgar em 34 anos de eleições gerais, que à volta dele se gerou.»
posted by JM Ferreira de Almeida @ 21:14

Pois eu não cheguei a compreender onde queria o PS chegar com as críticas constantes ao "atraso" da apresentação do programa do PSD, sabendo-se que era certo que mais tarde ou mais cedo ele seria apresentado e evidentemente antes das eleições, desvanecendo-se então qualquer influência que essas críticas pudessem ter no sentido da votação. De facto só serviu para criar uma enorme expectativa.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Manuel António Pina disse tudo

Nada há a acrescentar ao que Manuel António Pina disse no JN, mas vale a pena transcrever:

«Fazer batota

2009-08-18

Não sei para que servem os chamados "mandatários", mas alguma serventia hão-de ter ou os partidos não se dariam ao trabalho de os arranjar. Tratando-se de eleições e estando votos em causa, é provável que um "mandatário" seja alguém que supostamente renda votos.

Assim, se o partido A ou o partido B cobiçarem, por exemplo, os votos dos gagos, arranjarão um "mandatário para os gagos", alguém que seja um modelo para os gagos, de tal maneira que, votando ele num determinado partido, todos os outros gagos façam o mesmo, assim a modos que um flautista de Hamelin dos gagos. É por isso que não vejo a lógica da escolha da tal de Carolina Patrocínio (quem?) para "mandatária para a juventude" do PS. Será aquele o modelo (em plástico que, como diz O'Neill, sai mais barato) de juventude que o PS tem para oferecer aos jovens, uma juventude com empregadas para tirar os caroços das cerejas e as grainhas das uvas e que "prefere fazer batota a perder"? Ou o PS também prefere fazer batota a perder? Disse Sócrates em Amarante que a crise ainda não acabou. A financeira não sei, mas a outra vai de vento em popa.»

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Assassino recebido como herói

Leio no Público on-line:

«O ministro britânico dos Negócios Estrangeiros, David Miliband, declarou hoje à BBC Radio 4 que "as imagens de um assassino de massas a ser recebido em Tripoli como um herói são profundamente perturbadoras, acima de tudo pelas 270 famílias que choram todos os dias a perda dos seus entes queridos, há 21 anos, mas também por qualquer pessoa que tenha uma réstea de humanidade"

"Perturbador" é, quanto a mim, o mínimo que se pode dizer. Não sou da família das vítimas, não vivo em Lockerbie, nem nunca lá estive. Nem sequer sou escocês, mas fiquei profundamente chocado e triste com a notícia da recepção dada ao assassino Megrahi em Tripoli. Não que seja caso único, mas este é particularmente chocante e mostra que qualquer "aliança de civilizações" é ainda um mito (talvez seja um mito, mesmo sem o "ainda"). Há um fosso de mentalidades e a ilusão que alguns defendem de que os terroristas são uma minoria desenraizada é desmentida por estes comportamentos de massas.

domingo, 16 de agosto de 2009

Garotices

Visito com certa frequência o blog 31 da Armada e muitas vezes encontro opiniões interessantes. Agrada-me o seu ar desempoeirado e por vezes irónico. Apesar de republicano convicto, nunca me incomodou a sua costela monárquica, ou mesmo mais do que uma costela.
Fiquei deveras surpreendido por este blog ou pelo menos alguns dos seus colaboradores terem levado a cabo uma acção que só se pode considerar uma garotice: trepar à varanda principal da Câmara Municipal de Lisboa para substituírem a bandeira da cidade pela bandeira monárquica azul e branca. Por acaso até gosto das cores e só a coroa real, apesar de bonita, me incomodaria se correspondesse à nossa forma de organização política. Até acho que poderia ter sido mais acertado que os revolucionários republicanos de 1910 tivessem mantido as cores e apenas retirado a coroa. Mas não foi isso que aconteceu e, mal ou bem, a nossa bandeira é verde-rubra e não está sequer em causa, porque a que foi retirada (e agora justamente devolvida lavada e passada a ferro) foi a bandeira da cidade de Lisboa e não a bandeira nacional. Mas o acto em si não tem significado e não merecia o relevo que a comunicação social decidiu conceder-lhe, certamente por falta de assuntos mais importantes e por constituir uma reportagem barata.

sábado, 18 de julho de 2009

Sócrates ou Robim dos Bosques?

No Insurgente, Miguel Botelho Moniz escreve em "Guilhotinando o futuro":

"José Sócrates está contente com as estatísticas da desigualdade e risco de pobreza em Portugal. Segundo ele, isso será mérito da acção governativa; é o atingir do objectivo do estado. Como bom “humanitário”, Sócrates perpetua o erro que sempre esteve por trás do socialismo: A promoção da igualdade à custa da produção, descuidando que sem a última não há “transferências” que sejam possíveis.

O lado escondido do estudo do INE é que a redução de desigualdades e de risco de pobreza incide apenas nos sectores sociais directamente dependentes do estado para a sua subsistência e que por definição não são sectores produtivos: Reformados, idosos carenciados e indivíduos socialmente excluídos. Já noutros sectores sociais essas desigualdades e risco de pobreza aumentaram. Entre população activa desempregada e crianças (que por sua vez estão dependentes de pessoas na população activa), os números pioraram, ultrapassando já as estatísticas dos idosos. Isto é: Foi dado apoio social à custa do empobrecimento dos sectores produtivos, pondo em causa estes últimos e a própria capacidade futura de conceder apoios sociais.

O mais preocupante é que os dados do INE são relativos a 2007. Não incluem, portanto, os resultados do agravamento da crise, nomeadamente o vertiginoso aumento do desemprego. Mas enfim. Deixê-mo-lo ficar satisfeito consigo próprio."

Tem razão. Os grandes "triunfos" do governo Sócrates, a sua grande obra a favor do "estado social" basearam-se na redistribuição da riqueza, tirar a uns para dar aos outros. Como Robin Hood, o princípio seria tirar aos ricos para dar aos pobres. No entanto, como hoje no i Martim Avilez Figueiredo notou muito bem, os ricos já nem eram assim tão ricos, eram mais classe média, e com esta redistribuição acabaram ficando mais pobres. A redução das desigualdades sem criação acrescida de riqueza tem inevitavelmente este resultado.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Patentes e traduções

Acabei de saber, pela notícia inclusa no blog 31 da Armada, que o governo português se prepara para aderir ao artigo 65 do Protocolo de Londres sobre patentes, pelo qual deixa de ser obrigatório apresentar tradução em português do texto completo de patentes para as tornar válidas no nosso país, fazendo fé no nosso país o texto numa das línguas oficiais da Patente Europeia, inglês, francês ou alemão. Tenho seguido este assunto com atenção e até agora congratulava-me com a renitência do nosso país em aderir a este artigo, no que estava bem acompanhado por Espanha, Itália, Grécia, Polónia e outros. Pois bem, ao que parece quem manda cá mudou de opinião e acha agora que não há problemas em tornar oficialmente válidos e legais documentos escritos numa língua estrangeira. Contudo os inventores portugueses, infelizmente poucos, mas que por isso mesmo mereciam ser acarinhados, continuam a ter de mandar fazer traduções, e de as pagar, para uma das línguas oficiais da Patente Europeia, além, evidentemente, para as línguas dos países que não aderirem ao artigo 65, se quiserem proteger as suas invenções nesses países. Não há qualquer vantegem para Portugal nessa nossa projectada adesão, a não ser um eventual aumento de patentes europeias registadas no nosso país, o que também não nos traz qualquer vantagem, além de uma maior cobrança de taxas pelo INPI. Em contrapartida, quem fica a ganhar são as empresas e os inventores franceses, ingleses e alemãoes, que. esses sim, poupam nas traduções. Não posso concordar com essa situação. Por isso assinei a petição.

Declaração de interesse: Além de utilizador durante toda a minha carreira profissional de literatura de patentes como fonte de conheciemento, fui durante muitos anos tradutor técnico e traduzi textos de numerosíssimas patentes a partir de originais alemães, ingleses e franceses. Hoje já me reformei e deixei essa actividade, embora tenha tradutores técnicos na família. Creio que esse facto não me tira a independência de critério.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Será obrigatório gostar de futebol?

Não creio que gostar de futebol já seja obrigatório. Também não me parece que mesmo quem goste de futebol, o que não é raro, tenha obrigação de apreciar as numerosas transmissões de discussões, comentários, debates, discursos, reportagens e transmissões de eventos futebolísticos. É natural, portanto, que quem goste de estar informado e dê prioridade às informações que podem ter maior influência no seu modo de vida não tenha ficado particularmente contente com a cobertura em directo e demorada simultânea em todos os canais de TV generalistas e de notícias (excepto se considerarmos a RTP2 generalista) da apresentação de Cristiano Ronaldo no Real Madrid. Não que a notícia não tenha importância e não mereça algum relevo, mas ter 6 canais ocupados com o assunto ao mesmo tempo e em detrimento das restantes notícias parece exagero. Os que pensam assim podem ser uma minoria, mas não merecem o ataque que André Macedo (AM) faz em "As fintas de Cristiano e as fintas dos moralistas" no i de hoje.
Não, não me considero um dos "moralistas do costume", mas é bem certo que fui dos que "criticaram as televisões portuguesas pela cobertura em directo da apresentação" e dos que "Não gostaram do tempo ocupado nos telejornais, talvez por considerarem o assunto menor e o protagonista demasiado rasteiro", como declarei neste blog. Neste talvez é que não me revejo, mas será que todos os assuntos que não são menores e cujos protagonistas não são rasteiros merecem tal relevo informativo?
Também talvez me enquadre no que AM designa como "estas luminárias" e "grupinho desconfiado que gosta de se misturar com os intelectuais – apesar de inteligência e sabedoria mostrarem quase nenhuma", embora não tenha propriamente "asco" a "tudo o que agrade e mobilize a maioria das pessoas". Mas confesso que muitas coisas (não tudo) o que mobiliza a maioria das pessoas me deixam indiferente ou mesmo me desagradem, como em concreto o futebol.
Agora AM exagera quando opina que os membros deste "grupinho", em que penso estar incluído, "tentam, em vão, fazer de Portugal um país ainda mais apertado". Tem porém razão quando afirma que os "estes valores não matam ou esmagam os outros. Podem coabitar. Devem coabitar. Futebol e cultura, educação e diversão – tudo tem o seu espaço e o seu tempo, sem sobranceria nem repugnância." Só que neste caso não houve propriamente coabitação, houve uma preponderância quase exclusiva da notícia futebolística em detrimento das restantes.
É completamente diferente o registo de Paulo Tunhas que se refere a assunto afim (no fundo ao mesmo assunto, só que em vez da apresentação de Ronaldo fala das eleições no Benfica), logo na página seguinte do i. Não poderia estar mais de acordo com o que escreve, especialmente quando conclui que "A atenção desproporcionada ao futebol menoriza, porque nos afasta ainda mais do já precário hábito de deliberar". É isso mesmo.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Filomena dixit

O retrato sintético de Sócrates feito por Filomena Mónica hoje no i é absolutamente lapidar:
"um rapaz da província que subiu na vida à custa de esperteza e de pouco trabalho".

Há notícias?

Um cidadão liga a televisão à hora dos telejornais para saber o que vai pelo mundo e que acontece? Num dia só ouve falar das eleições no Benfica, como se destas dependesse a salvação nacional ou a saída da crise mundial, no dia seguinte só ouve falar da apresentação do Ronaldo no Bernabeu. Irra, que já é demais. Mesmo para quem gosta de futebol, o que não é o meu caso, não será exagero? Em simultâneo 6 canais (pelo menos: RTP1, RTPN, SIS, SIC-Notícias, TVI, TVI24) a darem o mesmo! Mas não se passa nada mais de importante no mundo? Ah, já me esquecia, também se falou das cerimónias fúnebres do Michael Jackson. Ainda assim, antes o Ronaldo.
Espero que nos próximos dias não haja eleições em nenhum clube, nem apresentações de jogadores milionários, nem mortes de cantores pop, para podermos ouvir algumas notícias.

domingo, 5 de julho de 2009

Fait-divers


Imagem tirada da net

O gesto insultuoso do ministro Pinho (agora ex-ministro) em plena sessão da Assembleia da República tem feito correr muita tinta, o que já foi criticado por alguém, considerando o facto um fait-divers. Claro que é um fait-divers e o país tem, infelizmente, questões muito mais importantes e graves a discutir. Contudo silenciar o caso seria desculpabilizá-lo e o gesto merecia ser criticado como foi e ter as consequências que teve. Por uma vez até concordei com a rápida decisão de Sócrates. Dizem que Pinho até foi um bom ministro e teve acções meritórias, mas apenas tinha má imagem e uma grande tendência para as gafes. A ideia que eu faço de um bom ministro da economia não é a de um bombeiro que se cansa a andar de empresa em empresa para tentar resolver pontualmente os problemas (muitas vezes sem êxito, como se viu). Posso estar enganado, até porque o meu julgamento é feito a partir das suas políticas e das suas palavras tal como relatadas nos meios de comunicação, mas desde muito cedo que me pareceu completamente desajustado ao lugar e, tirando a aposta nas energias renováveis, cujos resultados só a prazo poderão compensar os custos, não dei pelas suas ideias de política económica.

sábado, 4 de julho de 2009

Escândalo

Não, não me vou referir ao escândalo do gesto malcriado do ministro Pinho (agora ex-ministro) com total desrespeito da Assembleia da República. Alegou que tinha sido provocado, mas não cheguei a perceber em que constava exactamente a provocação, por Bernardino Soares ter falado em aparte num cheque da EDP que o ministro entregara ao clube de Aljustrel. O cheque existiu? Não se podia falar dele? Mas não é desse escândalo que quero falar, nem de o próprio ministro ter revelado, depois do incidente, total irresponsabilidade ao responder que o seu lugar não estaria em causa "enquanto houver postos de trabalho para safar". Claro que ninguém acredita, depois desta confissão, que tenha sido ele a pedir a demissão por sua iniciativa. É evidente que foi Sócrates a exigir que se demitisse. Mas não é disso que vou falar.
O escândalo de que me quero queixar é de o programa "Expresso da meia-noite", que eu pensava ser um programa sério, ter sido interrompido logo de início e depois mais tarde para ligar à sede do Benfica a dar notícias sobre as respectivas polémicas eleições. Por favor, há jornais e programas desportivos para essas coisas. O "Expresso da meia-noite" tem coisas mais importantes para debater, sem perder tempo com futebóis.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Ainda sobre os contra-manifestos

Vale a pena acrescentar à referência que fiz no Domingo ao comentário de Helena Matos sobre o manifesto dos 51 esta outra referência a outra mensagem no mesmo blog, desta vez de João Miranda. Os argumentos de João Miranda desmistificam o contra-manifesto intitulado Manifesto pelo Emprego, mas que não explica quem vai pagar o emprego que eventualmente seria criado (quando, para quem?) pelas obras públicas dos mega-investimentos.

domingo, 28 de junho de 2009

Manifestos e contra-manifestos

Já dei uma opinião sucinta sobre o manifesto dos 28. Sobre o contra-manifesto dos 51, de início pareceu-me que não tocava nos pontos essenciais: A prioridade é combater o desemprego. Tudo bem. Mas como se criam postos de trabalho para esse fim? Será com as grandes obras públicas que demoram anos a concretizar-se e cuja rentabilidade não está assegurada? Até talvez seja, mas só talvez. Portanto faz todo o sentido propor a sua reavaliação. Mas quando assim cogitava, dei com o postal de Helena Matos e não precisei perder mais tempo a expor a minha opinião.

sábado, 27 de junho de 2009

Medina Carreira

É importante ver a entrevista de há pouco de Medina Carreira por Mário Crespo na SIC-Notícias. Ver e meditar. Como dizia o outro: "É a economia, estúpido!" Que será de Portugal dentro de 10 anos?

domingo, 21 de junho de 2009

Investimento em infra-estruturas

No editorial de ontem, sábado, do i, Martim Avilez Figueiredo, sobre a controvércia dos grandes investimentos públicos, afirma que "Todos percebem de aeroportos, dominam frequência de passageiros no TGV e conhecem os racionais da construção de auto-estradas. É mentira." Com esta acusação, quer dizer que as críticas sobre os grandes investimentos públicos, cujas grandes vantagens o governo não se cansa de enaltecer, partem muitas vezes de quem não tem conhecimentos sobre os assuntos suficientes para dar opinião. Parece-me a acusação injusta. Principalmente quando se torna conhecido o documento dos 28 "Apelo à reavaliação dos grandes investimentos públicos". Os seus autores podem não perceber muito de aeroportos, não dominar a frequência de passageiros no TGV e desconhecer os "racionais da construção de auto-estradas" (estranha designação), mas são ilustres economistas e percebem muito de avaliação de oportunidade de investimentos. Eu também nada percebo de aeroportos, TGV e auto-estradas e dos seus "racionais", nem sequer tenho grandes conhecimentos de economia, para além de uma cadeira tirada no meu curso de engenharia e de alguns cursos profissionais sobre projectos e investimentos, mas, depois de ler o documento dos 28, não tenho dúvidas de que só por teimosia (que é coisa que abunda em certas paragens) se pode duvidar das vantagens de reavaliar estes projectos. Confesso até que me inclino, mesmo antes da referida reavaliação, para pensar que, destes investimentos, uns deverão esperar por melhor situação económica, caso do aeroporto, outros são dispensáveis, caso do TGV, e finalmente outros devem pura e simplesmente ser riscados, como uma nova auto-estrada Lisboa-Porto. Mas reconheço que isto são palpites, e o que é necessário é estudar de forma integrada e tendo em conta a situação económica a oportunidade dos investimentos e o balanço custo/benefício nas suas vertentes económica, social, de desenvolvimento e de emprego.

A polémica dos chamados grandes investimentos

Espantam-me algumas reacções ao documento "Apelo à reavaliação dos grandes investimentos públicos" subscrito pelos 28 economistas que decidiram tomar posição. Não seria de esperar aplausos de quadrantes políticos como o BE ou o PCP para quem os subscritores do documento não suscitam simpatias políticas. Mesmo do PS, apesar de muitos dos autores serem ou provirem dessa área, o texto é demasiado crítico e põe em xeque a teimosia de Lino e Sócrates na defesa para além da lógica da sua posição. Mas no que se refere a observadores descomprometidos, eu esperava, na minha ingenuidade, que um documento baseado em dados insofismáveis de fontes oficiais, bem elaborado e solidamente justificado, aliás modesto na sua reivindicação de apenas pedir uma reavaliação, tivesse uma ampla aceitação. Fico portanto admirado com comentários como o de Henrique Jorge no seu blog ou de Manuel Cintra no Sítio com vista sobre a cidade, principalmente com este último. Se o argumento do perigo da localização do aeroporto da Portela merece ser tido em conta (e deve sê-lo numa eventual reavaliação), já me parece injusta a acusação feita por Henrique Jorge de "desmesurada soberba" e de "estes senhores" nos virem "ensinar coisas que toda a gente já viu que não sabem". Sobre a opinião de Manuel Cintra, basta dizer que os 28 não estão a "hipotecar o direito das gerações futuras de ficarem ligadas a uma rede que ligará TODA a Europa, dentro de anos" porque apenas pedem uma reavaliação. E sobre a rede que ligará TODA a Europa, aconselho a estudar o mapa dos comboios de alta velocidade (por exemplo em http://www.worldchanging.com/archives/009028.html) para verificar que por enquanto a ligação a Madrid não nos trará hordas de turistas europeus, talvez mais alguns madrilenos, pois as ligações de TGV a França e, através da França, ao resto da Europa, ainda não estão completas. Talvez "dentro de anos", como diz Manuel Cintra. Então veremos.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Humildade?

Pareceu-me completamente bizarro e despropositada a sugestão (ou terá sido pedido ou, pelo contrário, imposição?) da Comissão Política do PS ao seu Secretário-Geral para que apresentasse maior humildade na comunicação com os cidadãos como Primeiro Ministro. De um PM não se suporta arrogância, mas também não se espera humildade.
Pensei que o resultado desta tentativa de mudança de estilo fosse nulo, mas, pior do que isso, foi deploravelmente postiço. Bastou-me ver uns segundos da entrevista de José Sócrates a Ana Lourenço para achar insuportável a sua voz molenga e arrastada, como a pedir licença para falar, quase a imitar o Ricardo de Araújo Pereira a imitá-lo, tentando fazer um ar humilde, mas a dizer a mesma cassette do costume. Não consegui continuar a ver.
Afinal, pelo que vi e li de decalrações do PM, pode ter tentado mudar o estilo de comunicação, mas o espírito, as políticas, as ideias continuam exactamente as mesmas e isso é que o povo português, que não é parvo, não suporta.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Sinais

Apesar da pesada derrota nas eleições europeias e da inevitável assumpção da respectiva responsabilidade, detecto pequenos sinais de que Sócrates não se considera pessoalmente responsável pelo desaire. Ao dizer que é responsável "enquanto secretário-geral do PS" quer dar a entender, de forma subtil, que aceita o fardo da responsabilidade pelo cargo que ocupa no topo do partido derrotado, mas que na realidade a culpa não é dele, terá sido de circunstâncias fora das suas possibilidades de acção. Ao dizer que aceita a "responsabilidade política", destaca ainda mais que é pela posição política que ocupa que se considera responsável. Estes pequenos sinais na linguagem do discurso de derrota do secretário-geral do PS quase fazem pensar que, para Sócrates, foi uma injustiça o descalabro eleitoral, escolheu o melhor cabeça de lista, que por azar teve alguns lapsos de linguagem e por vezes se afastou da linha que ele definiu para o partido, fez um esforço enorme ao participar constantemente na campanha, defendeu corajosamente a política que o governo tem seguido e portanto merecia ganhar. A sorte não o ajudou e os malandros do PSD ultrapassaram-no. Portanto aceita, como secretário-geral, a responsabilidade política, mas no fundo não reconhece que tenha contribuído, nem por acções nem por omissão, para o desastre.
Nem outra coisa seria de esperar de Sócrates.

sábado, 6 de junho de 2009

Europeias: como combater a abstenção

Tive uma ideia para combater a abstenção nas eleições europeias. Talvez seja uma ideia parva, talvez seja uma ideia teoricamente boa mas inexequível, talvez seja exequível mas muito complicada, talvez seja prática mas sem resultados práticos. Talvez, talvez... mas também pode ser uma boa ideia. Duvido é que a sugestão que aqui fica seja lida por alguém que a possa pôr em prática.
Cá vai. O número de deputados europeus a eleger continuaria a ser fixo no seu total, possivelmente até no número actual. Mas a distribuição por países, em vez de ser previamente fixada, passaria a ser proporcional ao número de votos expressos em cada país. Assim, os países com menos abstenção ficariam favorecidos na sua representação, o que seria inteiramente justo. Por outro lado, os países mais abstencionistas teriam menos deputados e ficariam prejudicados, o que também não deixaria de ser justo. Claro que a justiça não seria completa, porque os eleitores votantes de cada país não têm culpa de os seus compatriotas decidirem não comparecer nas assembleias de voto. Talvez se decidissem a insistir com os seus concidadãos para que fossem votar e o resultado seria uma menos abstenção geral.
Que me dizem à ideia? Com um bom programa de computador, a distribuição dos deputados por país seria decidida em minutos.

sábado, 30 de maio de 2009

A EFE enganou-se, a LUSA errou ou há mais qualquer coisa?

A notícia caiu ontem à noite como uma bomba: Lopes da Mota fora substituído na presidência da Eurojust por um espanhol, Cândido Conde-Pumpido. Afinal tratava-se de uma notícia falsa, de um engano, a substituição era noutra instituição, a Conferência dos Procuradores-Gerais e Fiscais da União Europeia, e nao tinha sido Lopes da Mota o substituído, mas sim a anterior presidente, a checa Renata Vesecka. Resta saber se o engano foi da EFE, em cuja informação se baseou a LUSA que difundiu a notícia pelos órgãos portugueses, se foi da própria LUSA por má interpretação da notícia da EFE, ou se se tratou de um balão de ensaio para verificar as reacções ou para fragilizar (ainda mais) a posição de Lopes da Mota no Eurojust.

Novo agrupamento antifederalista no Parlamento Europeu

Os nossos meio de comunicação social têm prioridades muito peculiares e uma grande tendência para silenciar notícias que, embora importantes, lhes parecem politicamente incorrectas. Foi preciso ouvir o canal Euronews para saber que houve uma reunião em que participaram, entre outros, David Cameron e os presidentes polaco e checo e que decidiram criar no Parlamento Europeu um novo agrupamento que se separará do PPE, os antifederalistas. Como ser antifederalista parece ser um pecado capital em Portugal (e não só), as nossas televisões calaram, pelo menos atá agora o facto, dando mais importância à venda de acções da Sociedade Lusa de Negócios em 2003 pelo actual Presidente da República, como se tal transacção tivesse algum interesse hoje ou acrescentasse alguma coisa ao nosso conhecimento da política nacional. Um novo agrupamento antifederalista pode, esse sim, vir a ter influência determinante no nosso futuro enquanto nação ainda independente. Se amanhã alguém der a notícia terei de reconhecer que as minhas críticas não foram totalmente fundadas. A ver vamos.
Cameron defende ainda a realização de um referenco ao Trtado de Lisboa. É sintomático qeu na campanha eleitoral em curso só o PNR e o MPT se pronunciem contra este tratado.

Imigração: declarações corajosas

As declarações de Roberto Carneiro, Coordenador do Oservatório da Imigração, ao i (2009-05-29) são no mínimo corajosas e vão contra a corrente laxista politicamente correcta. Roberto Carneiro recorda que "Nenhum país tem total abertura de entradas. É uma utopia. Todos os países procuram regular as entradas, em função dos ciclos económicos. E também por razões de segurança tem de haver algum controlo de fronteiras. Alguém abre a porta da casa a qualquer um que quiser entrar...? Temos de ter respeito pelos imigrantes e ter a honestidade de dizer que hoje não temos capacidade de emprego, nem para nós nem para eles."

TGV: uma boa notícia

Sou daqueles que acham que é um erro insistir na construção do TGV nesta altura de crise, e talvez mesmo quando a crise passar, se passar, desde que os estudos custo/benefício não venham a demonstrar inequivocamente as suas vantagens. Mas neste momento, mesmo que esses estudos estivessem feitos, coisa que ainda não vi confirmada, o financiamento representará um aumento de dívida incomportável e o arranque do projecto deverá ser congelado até que as circunstâncias sejam favoráveis.
Por isso considero uma boa notícia saber que dificuldades de financiamento levaram ao adiamento da entrega de propostas para o troço Caia-Poceirão. Pena que o adiamento seja breve, mas as dificuldades de financiamento já são uma confirmação dos problemas financeiros que o projecto levanta.

Maiorias absolutas

Leio no i, na legenda de uma fotografia de Jorge Miranda no artigo sobre “Substituição do provedor de Justiça está em risco: "Jorge Miranda é o candidato da maioria, mas ela não é absoluta. Sem o apoio do PSD, o constitucionalista arrisca-se a esperar".
A maioria do PS no parlamento não é absoluta? Estão quando se fala da possibilidade (forte) de o PS não alcançar a maioria absoluta nas próximas legislativas está-se a falar de quê?
A maioria estabelecida no regulamento (ou lei ou estatuto?) de 2/3 para a nomeação do Provedor de Justiça (suponho que "Provedor" se deva neste caso escrever com maiúscula, já que designa um cargo oficial, tal como "Presidente da República") deve ser designada como "maioria qualificada". A maioria chama-se absoluta desde que seja superior a 50%, por contraponto com a "maioria simples", que significa o grupo com maior número de elementos do que todos os outros. Estes elementos tanto podem ser de votos como de deputados, no caso de um parlamento.

Devem os presos trabalhar? Sobre uma opinião do Dr. Marinho

Leio no i que o Dr. Marinho Pinto "veio dizer publicamente que a obrigação de os presos participarem na actividade de limpeza das prisões é próximo do trabalho forçado do tempo do Estado Novo." O leitor do i que divulga na secção iCorreio esta afirmação pergunta: "Quem limpa a sua casa?" e lembra que "a limpeza diária ocupa algum tempo a centenas de milhares de portugueses, todos os dias" e que "A prisão é a casa dos presos. Não é justo que eles a limpem?" Não posso estar mais de acordo. Faço parte dos milhares de portugueses, talvez milhões, que se dão ao trabalho de participar na tarefas de limpeza da própria casa e nunca me passou pela cabeça comparar esse trabalho com trabalho forçado, a não ser no sentido de que sou forçado a fazê-lo para que a casa não fique suja.
Esta questão fez-me lembrar o que tenho pensado sobre alguns aspectos do regime prisional, principalmente desde que tive ocasião de espreitar os pátios da Penitenciária de Lisboa nos intervalos de um longo julgamento em que participei como técnico assessor de um advogado. Vi sobretudo muita ociosidade, que certamente nem para os presos é agradável, excepto para os ociosos por vontade própria, e vi muito desporto. Pensei que o trabalho dos presos, mesmo para além do referido no comentário do leitor do i de limpeza, deveria ser a norma e, se não for imposto, deveria pelo menos ser a contrapartida obrigatória de determinadas vantagens, como o acesso a televisão, a campos e equipamentos de jogos, por exemplo. Assim, o trabalho, por exemplo em oficinas, não seria forçado, mas haveria um forte incentivo.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Não há impostos grátis

Vital Moreira, ao expor a ideia de aumentar os fundos financeiros da União Europeia por meio de um novo imposto europeu, quis fazer crer que esse aumento em nada agravaria as finanças dos contribuintes europeus. Mas, se não há almoços grátis, também não há impostos grátis. Os dois modos de obter esse dinheiro referidos pelo candidato cabeça de lista do PS de modo displicente e à guisa de exemplo não convencem.
Se se criar um novo imposto sobre as transacções financeiras da Europa, dando a impressão que os contribuintes individuais nada sofrem com esse novo imposto, é claro que essas transacções ficarão mais caras. Não se cria dinheiro do nada. Vital Moreira não explicou que transacções seriam essas sobre as quais recairia o novo imposto, mas sejam transferências de particulares, pagamentos a empresas ou mesmo apenas operações bancárias, é inevitável que o custo recaia no final sobre o cidadão europeu. Pensará ele que se pode aplicar a máxima "Os ricos que paguem a crise"? Só os ricos fazem transacções taxáveis?
Se a solução for a outra, substituição de um imposto ou parte de um imposto nacional pelo imposto europeu, de modo a que o contribuinte não pague mais, então o aumento dos recursos financeiros europeus será feito à custa de uma diminuição dos recursos nacionais. Em primeiro lugar, a hipótese de aumento das contribuições nacionais já foi longamente discutida (como lembrou Edite Estrela, sem daí tirar consequências) e não foi possível chegar a acordo. Em segundo lugar, essa hipótese contraria a afirmação recente de Sócrates de que não será possível diminuir os impostos.
Uma falácia, portanto.
Desconfio que Sócrates não gostou de ouvir a sugestão do seu candidato.

domingo, 24 de maio de 2009

Comícios e política

Quem não sabe distinguir a diferença entre não gostar de comícios e não ter jeito para a política é porque não percebe nada de política a não ser de política comicieira. Quem tem vocação para vender banha da cobra só entende a política da propaganda da banha da cobra. Infelizmente, como é possível verificar nas nossas feiras da província, a banha da cobra vende-se bem, principalmente quando o vendedor a sabe apregoar.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

O caminho

Segundo Sócrates "A qualificação é o caminho para tirar Portugal da crise." Até estou de acordo. Claro que não é o único caminho, isto é: será uma condição necessária, mas não suficiente. Mas lá que é necessária, isso é. Seria importante sobretudo a qualificação dos nossos governantes, a começar por Sócrates, que tem mostrado ter escassa qualificação para o cargo de primeiro-ministro. O que me chocou foi ter feito essa afirmação na cerimónia de entrega de diplomas das Novas Oportunidades. Não foi divulgado de que grau são os diplomas e muito menos quais foram os critérios para a sua concessão. Mas pelo que se tem sabido da metodologia das Novas Oportunidades, esses diplomas não são mais do que um atalho para com algumas poucas aulas e uma valorização generosa da experiência dar equivalência ao que os estudantes que seguem a escolaridade normal só conseguem após anos de estudo. Se estou errado, agradeço que me corrijam. Portanto esta "qualificação" permitirá aumentar rapidamente o número de indivíduos que completam o 9.º ou o 12.º anos, suponho eu, mas significam pouco em termos de qualificação real.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

A discussão sobre o sexo dos anjos terá de ficar para mais tarde

Afinal a minha questão sobre se os anjos têm sexo é extemporânea. Não há ainda condições para investigar tão magna questão. Acabo de saber que antes disso torna-se necessário, para não dizer premente, estudar a questão mais terra-a-terra sobre o sexo de homens e mulheres. Quem me elucidou foi o blog Quarta República, cuja notícia transcrevo:

O sexo dos anjos

Enquanto a cidade era tomada pelo inimigo, os sábios de Bizâncio discutiam acaloradamente o sexo dos anjos. Porque sobre o sexo das mulheres e dos homens já não tinham qualquer dúvida.
Pois os deputados portugueses, a avaliar pela grossa discussão sexual de hoje na Assembleia da República, ainda têm dúvidas sobre o sexo dos homens e das mulheres. "O sexo não é suficiente para definir se alguém é homem ou mulher", afirmava convictamente um Deputado, logo apoiado e contraditado por outros. O apimentado debate que se seguiu não permitiu fazer luz total sobre tão candente matéria. Passando à votação, forma democrática de saber se o sexo era suficiente ou não, os Deputados continuaram divididos quanto ao ponto.
De facto, muito séculos depois, estamos ainda longe de Bizâncio. A discussão dos sexo dos anjos é uma miragem. Ainda estamos na fase embrionária e primeva de discutir o sexo dos homens e das mulheres.
posted by Pinho Cardão

A questão que terá de se pôr é, portanto, se o homem e a mulher têm sexo e tendo-o se isso basta para os definir como homem ou mulher. Isto faz-me lembrar o que rimos em família quando há muitos anos eu e a minha mulher, se é que assim nos podemos definir, com os nossos filhos fomos praticar desporto a um pequeno estádio, suponho que do INATEL, quando reparámos que havia três portas para balneários ou instalações sanitárias com as designações "HOMENS", "SENHORAS" e "ÁRBITROS". Aí está, será que o sexo basta para definir se alguém é homem, mulher, perdão, senhora ou árbitro? Talvez uma nova votação na Assembleia da República lance alguma luz sobre o assunto.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Almada Dixit, o livro


Tive o prazer de participar há dois dias na apresentação do livro Almada Dixit, antologia de citações de Almada Negreiros organizada pelo meu velho e querido amigo João Furtado Coelho. Foi uma sessão memorável, não só por ter reencontrado velhos amigos e colegas, alguns dos quais não via há muitos anos, como pela qualidade dos oradores, o organizador do livro apresentado e o prefaciador José-Augusto França. A sessão decorreu num belo salão do Grémio Literário, num antigo edifício na Rua Ivens, daquelas construções que ainda conservam a nobreza de séculos passados, com uma larga escadaria que é um prazer subir. Enfim, um serão bem passado, e agora resta ler o livro, que, como o meu amigo organizador avisa na apresentação, não se destina a ser lido respeitosamente por ordem começando na primeira página e terminando na última, mas sim ir lendo aqui e além conforme for apetecendo. Ler Almada é sempre um prazer.

domingo, 10 de maio de 2009

Racismo e xenofobia

Acabei de ler no blog Combustões um texto ("Racismo e xenofobia: dois fenómenos raramente associados") brilhante em que define e explica estes dois conceitos tão frequentemente confundidos, quando não só são diferentes como são quase incompatíveis. Vale a pena ler o texto completo.

terça-feira, 5 de maio de 2009

Disparates da TV

Não é só na designação da gripe mexicana ou A H1N1, no número de mortos, de doentes confirmados e de suspeitos causados pelo surto desta que há grande confusão. Alguns jornalistas contribuem para a confusão ao traduzirem erradamente declarações de responsáveis. Hoje li em roda-pé no Jornal Nacional da TVI: "OMS disponibilizou 2,4 milhões de vacinas a 70 países." Vacinas? Fiquei incrédulo, coisa que não deveria acontecer quando se ouvem notícias. Então não tem dito que o desenvolvimento de vacinas demoraria alguns meses e estas só deveriam estar disponíveis no Outono. Pouco depois surge a notícia: Uma porta-voz da OMS falou distintamente em inglês em 2,4 milhões de doses de "anti-virus", mas a tradução, na legenda que acompanhava as imagens, insistia em "vacinas". Mais tarde, no noticiário da TVI24, repetiu-se o disparate. É inadmissível tanta ignorância e tão grande descuido.

domingo, 3 de maio de 2009

Não aceito ser cabeça de lista

Não! Não aceitaria ser cabeça de lista de nenhum partido, nem sequer candidato, mas cabeça de lista muito menos. Além de correr o risco de ser agredido na via pública (até já o fui e não quereria repetir), poderia ainda ser convidado para descer um rápido num bote, o que, mesmo com capacete e colete salva-vidas, não é coisa que me agrade. Aliás não me agrada qualquer desporto radical. E não é da idade, já em novo não alinhava muito nessas coisas. Felizmente que também ninguém se lembraria de me convidar para militante de um partido (já houve tempo), muito menos para figurar em listas e ainda muitíssimo menos para encabeçar as ditas. Olha do que eu me livrei!

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Fantasmas nos cartazes

A nova série de cartazes eleitorais do PS parece-me muito feia e muito infeliz. Feia, por pôr as personagens do partido que foram responsáveis ou participaram em diversos instantes importantes da integração europeia em fotografias esfumadas em fundo, como se fossem fantasmas. Parecem os fantasmas de Mário Soares, de Guterres e de Sócrates velando pelas datas mais importantes da nossa entrada na Europa. Infeliz, por querer fazer crer que todos os passos importantes da nossa integração ou participação na Europa foram da responsabilidade dos dirigentes do PS. Mas o mais ridículo é saber agora que os cartazes que têm a sombra de Mário Soares ao lado de uma data referida como a da nossa adesão à união europeia, afinal tinham a data errada e estão a ser retirados.

Escolaridade obrigatória até ao 12.º ano ou 18 de idade

Sou o mais possível a favor da educação. Os nossos baixos níveis de escolaridade são, certamente, causa do nosso atraso. Mas desde que foi fixado como objectivo, penso que ainda no governo de Durão Barroso, levar a escolaridade obrigatória do 9.º ano actual para o 12.º ano que tenho sérias dúvidas sobre a bondade dessa medida, retomada por Sócrates no programa do governo e agora reafirmada e a ser concretizada a breve prazo.

No entanto o coro de elogios e a unanimidade em torno dessa medida quase me fizeram duvidar da razão das minhas dúvidas. Felizmente hoje o espírito esclarecido de Santana Castilho veio esclarecer-me de modo exemplar no seu artigo no Público "Uma espécie de Jihad educacional". Vale a pena ler o artigo na íntegra. Na impossibilidade de o reproduzir aqui, cito a frase que me parece fulcral: "Por ser obrigatória, a escolaridade não é sinónimo de mais e melhor educação."

Com o grau de abandono escolar que temos, a desmotivação de muitos professores e o facilitismo tornado norma, haveria medidas mais urgentes e eficazes para melhorar a educação sem obrigatoriedades forçadas.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Lido no Correio da Manhã digital:


«24 Abril 2009 - 00h30
A Voz da Razão
Salazar ao largo
Coisa fatal: a Câmara de Santa Comba Dão resolve atribuir o nome de Salazar a um largo do município e logo se levantam vozes iradas contra ‘a longa noite fascista’. Ponto de ordem: é--me indiferente que Salazar tenha direito a rua, viela ou beco.

Se o homem é filho da terra, a terra que se entenda com ele. Mas estranho que os profissionais da indignação moral não levantem dúvidas sobre outras ruas, vielas ou becos que ostentam pacificamente os nomes de reis tirânicos (que os houve), déspotas iluminados (idem) ou jacobinos revolucionários (ibidem).

Sem falar da Margem Sul, onde os psicopatas do marxismo têm direito a celebração toponímica. Quando se confunde a história de um país com uma fotografia estalinista, não há nenhum motivo para dar descanso ao apagador. Vamos começar?
João Pereira Coutinho, Colunista»

Concordo só em parte. Curiosamente nas reportagens sobre este caso na TV só vi indignação da parte do dirigente da UMAR. Os habitantes de Santa Comba Dão mostraram aprovação ou indiferença. Portanto que deixem o nome do largo ficar como estava. Nunca tive qualquer apreço por Salazar e não aprovava a sua política. Considero que foi um ditador e que a maior parte da sua acção prejudicou o desenvolvimento de Portugal, para não falar da liberdade. Mas se a sua terra natal quer ter um largo com o seu nome, que o tenha, em nome da liberdade que não existia no seu longo consulado. Agora que se ponha o apagador a trabalhar sem descanso para destruir a "celebração toponímica" marxista na margem Sul, aí deixo de concordar com João Pereira Coutinho, em nome da mesma liberdade.

Não vi a entrevista de Sócrates, parece que não perdi grande coisa

Não vi a entrevista de Sócrates. Estou farto de o ver debitar a cassete de "Estamos a fazer tudo o que é possível. A crise vem de fora." Pelas referências e notícias, parece que realmente não perdi grande coisa. O que me poderia interessar saber (Até que ponto a crise nos afecta? Que se está a fazer para minorar os seus efeitos? Que perspectivas há?) não ficaria a saber mesmo que tivesse aturado o homem a falar. Já não aturo ouvir falar do Freepór, não me interessa saber se os jornalistas, designadamente os da TVI e especialmente a que faz o Jornal Nacional nas sextas-feiras, fazem parte de uma campanha negra com a conivência de forças ocultas, tais sejam o PSD e a sua líder Manuela Ferreira Leite, não me interessa saber se o estado vai dar (à minha custa e dos outros contribuintes) mais um subsídio a 15 000 desempregados. Portanto fiz bem em não desperdiçar o meu rico tempo, que é o bem mais precioso que actualmente tenho.

Julguei que o Bloco apelava ao voto no PS e no PSD!

É verdade. Julguei que o Bloco apelava ao voto no PS e no PSD! Ao ver o cartaz de campanha do BE, por baixo de "Porreiro, para quem, pá!" li distintamente: "Quem nos meteu na crise que nos tire dela ". É certo que ia a guiar, o que diminui o tempo que podemos gastar a decifrar cartazes, mas a minha mulher leu o mesmo. Pensei: "Que frase infeliz. É certo que os responsáveis pela crise deveriam ser responsabilizados e não deixaria de ser justo obrigá-los a resolver a situação, se fossem capazes disso, o que parece cada vez mais duvidoso. Mas dito assim, é um verdadeiro apelo ao voto no PS e, na óptica do BE, também no PSD, o que não era de certeza o que o BE pretendia."
Afinal, lendo melhor (pela net, bem sentado à minha secretária, sem necessidade de dar atenção ao trânsito) verifico que a frase do cartaz é: "Quem nos meteu na crise não nos tira dela", exactamente o oposto do que eu tinha pensado ler.