domingo, 23 de abril de 2017

França: alguém ganhou?

Sim, a conclusão da 1.ª volta das presidenciais francesas é que a derrota que tem perseguido as sondagens em várias eleições em vários países foi finalmente derrotada. Quem ganhou foram de facto as sondagens, mais ninguém. A vitória foi das sondagens.

sábado, 22 de abril de 2017

Estabilidade e pacificação

Marcelo Rebelo de Sousa continua a sua cruzada de sossegar os portugueses. De um optimismo irritante (embora só reconheça o "optimismo" e não o "irritante"), contagiado por certo pelo Primeiro Ministro, apregoa a sua confiança e mesmo felicidade perante a ínfima boa notícia, mas cala qualquer mínima referência a problemas, fracassos ou dificuldades. Vá lá, desta vez, depois de incutir esperança na audiência juvenil do 15.º Encontro Nacional de Associações Juvenis, reconheceu: "Não é que não haja aspectos negativos a corrigir, não é que não haja erros, fracassos, mas há sucessos e vocês devem liderar a luta por esses sucessos". Na minha modesta opinião seria mais prioritário que os jovens colaborassem no combate aos erros e fracassos. Mas o que me chocou mais nas declarações do PR foi a afirmação de que "estamos a viver em Portugal, um momento ... de estabilidade e pacificação", que o Jornal de Negócios decidiu, e bem, puxar para título da notícia.

Estabilidade, com os apoios de esquerda do Governo a ameaçarem todos os dias a sobrevivência da geringonça? Claro que todos sabemos que estas ameaças não são, por enquanto, para levar a sério, porque os partidos de esquerda radical, seja estalinista, seja trotskista ou maoista, não vêem ainda vantagem em precipitar uma crise. Mas esta estranha estabilidade é, afinal, a estabilidade do funâmbulo, sujeito a cair se houver um descuido ou um abanão. Além disso, apesar da alegria que o nosso PR encontra no nosso crescimento anémico, nas pequenas variações favoráveis do desemprego, das exportações, do investimento, estes indicativos não são ainda suficientemente firmes para os considerarmos estáveis. Além de erros e fracassos, MRS deveria ter mencionado os perigos, que os há e têm sido denunciados, embora não com o relevo suficiente, já que a comunicação social não gosta de assustar o povo.

Quanto à pacificação, penso que o PR se referia apenas à arena política, já que na social e especialmente na cena desportiva, em particular no futebol, nunca estivemos tão longe de um clima de paz. E todos sabemos que a redução drástica de número de manifestações, greves  e reclamações de rua, o que não significa ausência, se deve apenas à táctica do PCP  e da CGTP de dar uma aparência de calma a fim de não criar, de momento, dificuldades ao PS e ao Governo. No fundo não há mais paz real do que a que havia durante o resgate e a austeridade imposta pela troika. A austeridade que aí vem, é tão bem disfarçada que talvez não provoque manifestações violentas, mas daí concluir que os portugueses não sofrem com ela é um erro grave.

terça-feira, 11 de abril de 2017

Macron = Dijsselbloem?

Ainda se vão ouvindo ecos da indignação quase geral, a que não me associei (e não fui o único), que as palavras de Dijsselbloem provocou quando disse que quem gastou o seu dinheiro em copos e mulheres não pode depois andar a pedir dinheiro aos outros. Ainda hoje li que António Costa continua a pedir a demissão do Presidente do Eurogrupo e já tem sugestão para o sucessor preferido para o cargo (que ainda não está vago). Mas que dizer das palavras ouvidas há pouco pelo candidato e provável futuro Presidente da República de França, Emmanuel Macron? Na longa entrevista em que respondeu às perguntas de Paulo Dentinho, foi muito claro quando questionado sobre a sua posição perante as propostas de mutualização das dívidas dos estados da Zona Euro. Disse, em suma, que não era a favor da mutualização das dívidas passadas, quando muito das dívidas que se viessem a criar futuramente depois de mecanismos financeiros adequados. E porquê? Porque não seria possível explicar aos contribuintes dos países que não têm dívidas acima do limiar permitido que iriam pagar pelos outros. E questionou mesmo como iria um político alemão dizer aos cidadãos da Alemanha que, depois do esforço que tinham feito para ter finanças sãs, iriam pagar as dívidas "dos que nada fizeram". Não só li a legenda como ouvi perfeitamente "ceux qui n'ont rien fait". Oh senhor Macron, então os portugueses não fizeram nada? Passaram os 4 anos da troika a preguiçar? Isto é tão ofensivo como dizer que gastámos em copos e mulheres. Não sei se António Costa viu a entrevista, mas, na impossibilidade de pedir a demissão de Macron, deve recomendar que ninguém vote nele, mesmo com perigo de facilitar a ascensão de Marine Le Pen à presidência.

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Soma de vitórias

A SIC vai fazer uma entrevista a Passos Coelho. Vai ser transmitida na Quarta-feira e tem sido anunciada com frequência. O anúncio da entrevista tem sido feito em termos no mínimo controversos: Apresenta o entrevistado como estando "cada vez mais isolado". Não é uma apreciação inédita, já a tenho ouvido de diversas fontes, mas não me parece que seja um facto que possa ser assim dado como provado e a primeira característica de Passos Coelho. Uma coisa é a apreciação por comentadores políticos que terão a sua opinião fundada ou não. Outra coisa é um anúncio de uma entrevista que deve ser feito em termos factuais, independentes e não sujeitos a opiniões particulares. Passos Coelho está "cada vez mais isolado"? Isolado de quem? Da opinião pública ou dos barões do próprio partido? Está sujeito a críticas, como todos os dirigentes políticos, mas não são tão universais que o condenem ao isolamento.

Outra afirmação do mesmo anúncio da futura entrevista refere-se à dificuldade que Passos deverá ter para criticar o Governo, pois, segundo a jornalista, está "perante um Governo que soma vitórias"! Quais serão as "vitórias" deste Governo? Ter conseguido um défice de 2,1%? Vitória ou truque mal escondido, como está amplamente provado? Ter conseguido baixar a taxa de desemprego? Limitou-se a deixar correr a tendência que já vinha desde 2014 e que acompanha a da UE e da Zona Euro. Ter acabado com a austeridade? Tanto a esquerda radical que apoia o Governo como a oposição de direita contestam, com apoio em números, que a austeridade tenha acabado ou sequer diminuído. Conseguir um aumento do PIB tanto em 2016 como se prevê em 2017? Quando se verifica que estes crescimentos anémicos representam uma desaceleração em relação a 2015, onde está a vitória? Fazer com que a dívida pública continue a aumentar? Neste caso trata-se não só de uma derrota como de uma deriva que terá graves consequências para o futuro do País.

Vá lá: a jornalista acrescenta que Passos é "impiedoso nas críticas". Ao menos não o acusa, como alguns, de falta de combatividade.

sábado, 1 de abril de 2017

1 da Abril

Fiquei deveras espantado quando esta manhã soube da notícia de 1.ª página do Expresso, prontamente repetida por todos os noticiários, de que Centeno fora sondado para assumir o cargo de Presidente do Eurogrupo, substituindo Dijsselbleom. Só depois me lembrei de que hoje é 1 de Abril...

sexta-feira, 31 de março de 2017

Pagar ou não pagar, eis a questão

Comprar bancos por zero euros parece que se torna uma actividade vulgar. A venda do Novo Banco foi um grande êxito ou terá antes sido uma desgraça. A culpa desta desgraça, no segundo caso, é do Ricardo Salgado, do Passos Coelho, do Centeno ou do António Costa? E, finalmente a grande questão, os contribuintes vão ou não ter de pagar? António Costa afirmou com ar solene que não. Todos os restantes comentadores dizem que sim. É difícil saber quem fala verdade porque está muita coisa em jogo, desde as responsabilidades dos bancos no Fundo de Resolução, até à habilidade do  fundo Lone Star (ou será Lonestar tudo pegado?) em fazer o banco ter lucros e evitar as perdas com os activos de risco. Ou será o Fundo de Resolução que terá de cuidar destes activos? Bem, basta de interrogações. Se tivermos de pagar, não haverá modo de fugir. Ou há?

domingo, 26 de março de 2017

Corte de relações

É lícito que um Ministro dos Negócios Estrangeiros corte as relações com um responsável internacional, com o qual deverá relacionar-se politicamente, alegando que o diálogo com aquele se tornou impossível devido a uma frase infeliz que considerou ofensiva? Já aqui deixei a minha opinião de que a referida frase não tinha a carga ofensiva que lhe quiseram atribuir e, mesmo que a tivesse, nada indicava que fosse dirigida em particular ao nosso País. Mas, mesmo que houvesse razões para Augusto Santos Silva se sentir ofendido, um Ministro dos Negócios Estrangeiros de um governo da UE e, para mais, da Zona Euro, não pode recusar-se a dialogar com o Presidente do Eurogrupo quando o assunto for oficial. Pode recusar conversas não oficiais, seja sobre o tempo ou sobre outro qualquer assunto, mas, mesmo desejando e reclamando a demissão de Dijsselbloem, enquanto ele se mantiver no cargo, terá de manter as relações oficiais que os cargos respectivos exigirem.