domingo, 21 de junho de 2009

Investimento em infra-estruturas

No editorial de ontem, sábado, do i, Martim Avilez Figueiredo, sobre a controvércia dos grandes investimentos públicos, afirma que "Todos percebem de aeroportos, dominam frequência de passageiros no TGV e conhecem os racionais da construção de auto-estradas. É mentira." Com esta acusação, quer dizer que as críticas sobre os grandes investimentos públicos, cujas grandes vantagens o governo não se cansa de enaltecer, partem muitas vezes de quem não tem conhecimentos sobre os assuntos suficientes para dar opinião. Parece-me a acusação injusta. Principalmente quando se torna conhecido o documento dos 28 "Apelo à reavaliação dos grandes investimentos públicos". Os seus autores podem não perceber muito de aeroportos, não dominar a frequência de passageiros no TGV e desconhecer os "racionais da construção de auto-estradas" (estranha designação), mas são ilustres economistas e percebem muito de avaliação de oportunidade de investimentos. Eu também nada percebo de aeroportos, TGV e auto-estradas e dos seus "racionais", nem sequer tenho grandes conhecimentos de economia, para além de uma cadeira tirada no meu curso de engenharia e de alguns cursos profissionais sobre projectos e investimentos, mas, depois de ler o documento dos 28, não tenho dúvidas de que só por teimosia (que é coisa que abunda em certas paragens) se pode duvidar das vantagens de reavaliar estes projectos. Confesso até que me inclino, mesmo antes da referida reavaliação, para pensar que, destes investimentos, uns deverão esperar por melhor situação económica, caso do aeroporto, outros são dispensáveis, caso do TGV, e finalmente outros devem pura e simplesmente ser riscados, como uma nova auto-estrada Lisboa-Porto. Mas reconheço que isto são palpites, e o que é necessário é estudar de forma integrada e tendo em conta a situação económica a oportunidade dos investimentos e o balanço custo/benefício nas suas vertentes económica, social, de desenvolvimento e de emprego.

2 comentários:

RicardoB disse...

Sendo picuinhas, não me parece que seja possível avaliar um investimento, de forma abstracta, sem ter em conta os seus benefícios específicos.
Por exemplo, não me parece que se possa fazer uma análise do TGV sem ter conhecimento do volume de passageiros e outros aspectos.

O que não quer dizer que seja o caso dos economistas que assinaram a petição. Nem quer dizer que é a eles que o editorial do "i" se refere.

Mas há outros a quem a carapuça pode certamente servir.

Ainda hoje, várias notícias referem um estudo da Associação Nacional das Pequenas e Médias Empresas que afirma que «Também se indica que com a linha viária do Norte renovada, "a diferença poupada em tempo de viagem será apenas de 38 minutos"».

Não é propriamente do conhecimento geral, mas não é segredo que a linha do Norte está saturada devido ao número de comboios que circulam a velocidades diferentes.
E que essa saturação está a estrangular o crescimento do transporte ferroviário em Portugal ao ponto de, desde há anos, a CP recusar serviços de carga por falta de capacidade da linha.
E também não é segredo que, mesmo que se requalifique o restante da linha do Norte para os Alfa poderem atingir os 220 km/h na maior parte do percurso... isso é impossível devido à saturação da linha. Ou só será possivel removendo mais comboios lentos (regionais e sub-urbandos).

Portanto, a partir do momento que um suposto estudo passa por cima da questão da saturação da linha do Norte, sem referir soluções e custos, eu sinto-me à vontade para lhe passar um atestado de irrelevância e incompetência grosseira.

RicardoB disse...

Mas espicaçado pelo seu comentário, fui ler o texto dos senhores economistas.

http://reavaliarinvpublicos.com/cont1_01a.html

E não é que encontro lá esta pérola:
«Constituem os três projectos previstos (Lisboa-Madrid; Lisboa-Porto; Porto-Vigo) uma prioridade estratégica para os próximos anos? Entendemos que não.

A prioridade deve ser dada ao transporte ferroviário convencional de mercadorias, tanto nacional, como sobretudo transfronteiriço.»

Portanto, não devem ser dar prioridade a
a) uma linha Lisboa - Porto que, apesar de ser só para passageiros, irá libertar a actualmente saturada linha do Norte para poder ter mais urbanos/regionais e mercadorias
b) uma linha Porto - Vigo que permitirá, finalmente, ter uma linha em condições para o transporte de mercadorias do norte do país para a galiza e vizinhanças.
c) uma linha Lisboa - Madrid que permitirá ter uma linha decente para o transporte de mercadorias para a região de Madrid, Barcelona e será a nossa única via férrea de mercadorias para a Europa, durante os próximos 20 ou 30 anos, porque é em bitola standard.

Ok. E então, que obras propõem os senhores?
Ah.. pois. Disso não falam...

Ora foda-se.