sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Viver acima das nossas possibilidades

Desde 2011 que se discute se a causa da crise em Portugal foi o facto de termos vivido acima das nossas possibilidades ou não, ou, se não foi a causa, se foi, pelo menos, um factor agravante. Muitas vozes, principalmente de esquerda, consideraram que é mentira dizer que se tinha vivido acima das possibilidades. Mas não só da esquerda: por exemplo, um vereador do PSD da Câmara de Abrantes, em 2011, reagindo a um discurso de Cavaco Silva, afirmava que "não se incluía nesse grupo [o grupo dos que viviam acima das suas possibilidades] , assim como grande parte dos portugueses que conheço e que nunca compraram nada sem ter o dinheiro para pagar a pronto". O coitado não compreendeu que ter dinheiro para pagar a pronto não significa que quem lhe paga esse dinheiro, seja o Estado ou uma qualquer instituição privada, não esteja a pagar acima das possibilidades próprias. Mais recentemente, Pedro Marques Lopes, que ainda não percebi bem se é de direita, do centro ou de alguma esquerda, considera que a afirmação de que "vivemos acima das nossas possibilidades" é uma "mentira". Será? Recorro, para procurar saber se estas reacções são justificadas, a um artigo mais recente, de 2015, em que André Azevedo Alves, perante as acusações que foram feitas à gestão do Governo de Pedro Passos Coelho, cita João César das Neves, que dizia que "a indiscutível redução do défice foi conseguida sobretudo à custa de medidas contingentes e temporárias, com poucas reformas na máquina" e que "a tão falada consolidação orçamental está ainda muito longe", reconhecendo André Azevedo Alves, no entanto, que "o executivo liderado por Pedro Passos Coelho foi ainda assim além do que teriam feito quaisquer das alternativas governativas no contexto partidário português. E que só isso evitou um colapso do Estado português que estava iminente em 2011". O gráfico que Azevedo Alves apresenta, reproduzido de Jorge Costa, é explícito:



Desde 1975, vivemos, sem margem para dúvida, acima das nossas possibilidades. Nas próprias palavras de Jorge Costa: "como se deixássemos aos nossos herdeiros dívidas sem qualquer contrapartida, por termos vivido, isto é, consumido sistematicamente acima dos nossos rendimentos e do valor dos nossos bens de capital, sendo esses herdeiros forçados a pagar essas dívidas com os seus rendimentos - rendimentos do trabalho, visto que, se lhes transmitimos algum capital, esse capital é negativo".


segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Eurogrupo e austeridade

O grande equívoco que está intimamente ligado à eleição de hoje do Ministro das Finanças português Mário Centeno para o cargo de Presidente do eurogrupo foi exemplarmente posto a nu no comentário de Mariana Mortágua ao afirmar que "A pergunta que os portugueses fazem é se será Mário Centeno, por ser português e pertencer ao PS, pode fazer a diferença nesta instituição que só tem representado ataques à democracia e mais austeridade". É evidente que nem o cargo de Presidente permite provocar qualquer alteração à instituição eurogrupo, nem Centeno parece a pessoa capaz de tal feito, mesmo que tivesse mais poderes. O Presidente do eurogrupo representa os ministros das finanças dos 19 países que o constituem e, sendo seu representante e não seu chefe ou dirigente, não deve provocar alterações substanciais nos objectivos da instituição de modo a "fazer a diferença". A resposta à pergunta de MM só poderá um rotundo Não, como a própria reconhece ao acrescentar "Entendemos que prevalece a natureza da instituição". Mas o que a frase de Mariana Mortágua mostra é que para a extrema esquerda portuguesa o eurogrupo representa "ataques à democracia e mais austeridade". Custa a admitir esta visão segundo a qual o Governo que MM apoia no Parlamento acabou com  a austeridade em Portugal, mas nos restantes países do eurogrupo continua a reinar austeridade por culpa das regras do mesmo eurogrupo.

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

O que preocupa os cidadãos?

A sessão de perguntas organizada por uma empresa privada como parte da comemoração, se assim se pode classificar, do 2.º aniversário do actual Governo tem sido muito comentada e alvo de polémica por os cidadãos recrutados para dirigir as perguntas ao executivo terem sido pagos. Pareceu-me realmente uma forma de comunicação entre os ministros e os cidadãos um pouco bizarra, por muito que os intervenientes tenham afirmado que é uma prática comum recrutar pessoas pagas para participarem em estudos encomendados pelos governos. Se é ou não, desconheço, mas interrogo-me se houve realmente um estudo, de que constou o referido estudo, a que resultados chegou, se esses resultados vão ser divulgados e que relação há entre esse alegado estudo e os cidadãos escolhidos por algum critério desconhecido para formularem perguntas em público ao Governo. Parece-me tudo muito nebuloso.


Mas outro aspecto que me parece estranho e que ninguém até agora referiu, que eu saiba, é o que se prende com as principais preocupações dos cidadãos. Temas sobre desemprego, saúde e educação são evidentemente de grande interesse, mas espanta-me que não tenha havido qualquer pergunta ou interpolação sobre o estado da Nação no que se refere, por um lado, a economia e finanças, nomeadamente no que se refere à persistência dos défices e da enorme dívida pública, e por outro lado à ausência de reformas de fundo que promovam um maior investimento e, através deste, um crescimento mais sólido e sustentável. Será que estes problemas não preocupam um número apreciável dos cidadãos deste País?

domingo, 26 de novembro de 2017

25 de Novembro

Para mim o 25 de Novembro representa a salvação da democracia em 1975. Claro que há outras efemérides importantes, mas nada justifica o silêncio quase absoluto dos meios de comunicação e do Governo sobre o que se passou em 75 e como influenciou o que estamos a viver hoje. Felizmente quem recorde.

Estado de desgraça

Dizem os entendidos, os comentadores e os politólogos que o Governo de António Costa saiu do estado de graça de que gozou no início da sua governação. Para mim, porém, António Costa já não tinha direito a qualquer estado de graça desde que "passou a perna a António José Seguro", no dizer típico mas adequado de uma vendedora de fruta que foi abordada no mercado do Econtramento durante a campanha eleitoral para as legislativas que perdeu, para não falar dos seus tempos de ministro nos Governos de Sócrates. Mas agora a opinião sobre a perda da graça é geral, exceptuando talvez alguns (poucos, mas muitos não confessam) socialistas. Direi mesmo mais: António Costa e o seu Governo atingiram um estado de desgraça e estão a empurrar o País para a desgraça colectiva. Vários factos contribuem para esta descida aos infernos. Os principais são:
- Actuação do Governo e em particular de AC durante e no seguimento do incêndio de Pedrógão Grande a 17 de Junho, incluindo a ida para férias quando a tragédia ainda decorria.
- Furto (que talvez até não tenha ocorrido) de material militar dos paióis de Tancos em Julho e ausência de esclarecimento e de consequências do dito alegado furto.
- Reincidência na actuação, ou falta dela, nos incêndios de 15 de Outubro, agravada pela falta de acção coerente e útil depois de Pedrógão.
- Discurso do PM de 16 de Outubro em que tentou justificar e negar responsabilidades próprias e do Governo em geral sobre os incêndios.
- Declarações e actuação de AC e de membros do Governo sobre o caso do jantar no Panteão de Fundadores da Web Summit em Novembro.
- Surto de doença do Legionário no Hospital de São Francisco Xavier, cujo foco não foi ainda completamente identificado ou cuja identificação não foi tornada pública.
- Campanha para promoção da candidatura do Porto a sede da Agência Europeia de Medicamento, após hesitação entre Lisboa e Porto, e respectiva derrota.
- Anúncio inesperado de deslocalização do INFARMED para o Porto e tentativa de o apresentar como resultado de uma opção longamente estudada, sem qualquer plano sobre o modo de minimizar as dificuldades de alteração do local de trabalho dos respectivos funcionários.
- Aproveitamento do Conselho de Ministros em Aveiro do 2.º aniversário do Governo para uma sessão de propaganda da geringonça e das suas grandes vitórias.

Em todos estes casos as declarações desajeitadas ou a falta delas apenas agravaram o descontentamento que suscitaram. De modo que responsabilidades de AC mais graves, como a ausência de reformas estruturais, a persistência dos défices e o enorme atraso em suster o aumento da dívida pública, o discurso enganador do fim da austeridade e da demonstração de que afinal havia alternativas, as crescentes dificuldades nas condições de atracção de investimentos e outros erros políticos e económicos, têm passado quase despercebidos.

domingo, 19 de novembro de 2017

O abismo

O ex-presidente da Câmara de Caracas, António Ledezma, interrogado sobre se a Venezuela estava à beira do abismo, declarou: "A Venezuela não está à beira do abismo, já está no abismo". Pelas notícias a que temos tido acesso, não há que ter dúvidas a este respeito. A situação em Portugal é, felizmente, muito diferente: ainda não estamos no abismo nem, na minha opinião, mesmo à beira do abismo, mas, graças aos esforços do nosso Governo e dos seus apoiantes no Parlamento, aproximamo-nos, a passos largos, da beira do abismo e, se não se atalhar caminho, corremos sérios riscos de, chegados à beira, escorregar para as profundezas.

sábado, 18 de novembro de 2017

António Arroio revisitado

Em 2012 estranhei aqui que, após obras de reabilitação da Escola António Arroio, tivessem deixado um cartaz de propaganda das ditas obras a tapar parcialmente o painel de azulejos do mestre Querubim Lapa. Nessa altura, a demora em retirar o cartaz e deixar visível a obra de arte já era de estranhar e até de criticar. Não imaginava eu que mais de 5 anos mais tarde o cartaz ainda lá estivesse escondendo parte do painel. Entretanto o mestre Querubim Lapa faleceu, sem poder ter visto o seu painel apresentado em condições. Infelizmente outras obras do mestre têm sofrido degradações.

Como no meu artigo de 2012 só consegui (na net) uma fotografia do painel antes das obras,

publico agora uma foto recente que mostra a situação que se tem eternizado até hoje, com o painel parcialmente coberto pelo cartaz.

Quantos anos serão ainda necessários para que se resolvam a retirar o cartaz, já tão desbotado?

domingo, 12 de novembro de 2017

Jantar no cemitério

Considerar que o jantar de Founders no Panteão Nacional foi uma refeição festiva que decorreu num cemitério talvez seja um pouco forçado. O Panteão poderá, quando muito, ser considerado um mausoléu. Mas é de qualquer modo um local onde estão depositados os restos mortais de alguns portugueses notáveis. Nesse sentido, é assimilável a um cemitério e não parece um local adequado para jantares ou outros eventos festivos. Quando muito poderá ser apropriado para cerimónias de homenagem aos que lá repousam ou relacionadas com vultos da nossa história. Parece-me, portanto, que é de concordar com a preocupação do Primeiro Ministro ao considerar indigno o facto de entidades ligadas ao Web Summit terem lá realizado um jantar. Toda a gente se pronunciou no mesmo sentido, numa unanimidade rara, embora com intensidades, palavras e argumentos diferentes. Já não posso concordar com António Costa ao ter tentado atirar a responsabilidade da autorização do evento para o anterior Governo, no que foi secundado por outras figuras ligadas ao seu Governo. Pergunto-me quantas dessas pessoas se deram ao trabalho de ler o discutido Despacho que alegadamente permitiria o acto. É que da sua leitura fica claro que a autorização para aluguer de espaços nos monumentos que fazem parte da lista em anexo deve ser ponderada, estipulando nomeadamente que "Todas as atividades e eventos a desenvolver terão que respeitar o posicionamento associado ao prestígio histórico e cultural do espaço cedido" e que "Serão, ainda, rejeitados os pedidos que colidam com a dignidade dos Monumentos, Museus e Palácios..." O que está em jogo, portanto, é a autorização dada. Quem pode e deve ser responsabilizado é quem entendeu que não havia qualquer inconveniente em autorizar este evento em particular e também o Ministro da Cultura, que, depois de pedir explicações à DGPC, aceitou a explicação de que a autorização decorria do Despacho em questão. Ora este não obriga a autorizar, pelo contrário obriga a ponderar e dá nomeadamente a possibilidade de negar.

sábado, 28 de outubro de 2017

Sustentabilidade

Escreve André Abrantes Amaral no Jornal Económico: "Olhamos para o orçamento de Estado e vemos um intento que para alguns chega a ser um desígnio. Sem reformas, no Estado e na economia, e pondo toda a fé no milagre que é o turismo, na ajuda do BCE e na bênção dos céus que são os baixos preços das matérias-primas, o Governo tem margem de manobra para manter a despesa pública, cobrar impostos a parte da população e distribui-los depois entre o seu eleitorado." e acrescenta: "Margem para isso e até para cumprir as metas do défice impostas por Bruxelas. Bruxelas que, de toda a forma, não esquece de alertar para as tais reformas estruturais que há uns anos eram imprescindíveis e agora se deixam para depois. Quer isto dizer o quê? Muito simplesmente que os números que nos são apresentados, tanto da actividade económica como da política orçamental, são fumo que se esvairá ao primeiro contratempo." Muito justo. Resta saber de que contratempo se poderá tratar e se poderá ocorrer mais cedo ou mais tarde.

Os factores que são apontados como factores de sustentabilidade da margem de manobra são: 1) turismo; 2) ajuda do BCE; 3) baixos preços das matérias primas. Vejamos: 1) O milagre que é o turismo não durará sempre. Mesmo para quem acredita em milagres, sabe-se que estes são raros. Vendo de modo mais largo a contribuição das exportações, há que temer que o nosso principal cliente, a Espanha, entre num período complicado, podendo ter consequências na economia e no comércio externo. 2) A ajuda do BCE já tem data marcada para sofrer uma redução significativa. E a prazo tenderá mesmo a terminar. 3) A bênção dos céus que são os baixos preços das matérias primas parece ter chegado ao fim pouco depois de Abrantes Amaral ter escrito o que lemos acima. A matéria prima que mais influência tem na nossa economia é o petróleo, a distância das outras. Ora ontem o preço do brent, que tem vindo a aumentar lentamente, ultrapassou os 60 dólares. A bênção está a esgotar-se.

Com o fim anunciado destes sustentáculos e com a rigidez das novas despesas (a tal distribuição entre o seu [do PS] eleitorado), não parece que o esvaizamento em fumo que Abrantes Amaral prevê esteja muito longe.

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

64

O número de vítimas mortais do incêndio de Pedrógão Grande foi definitivamente fixado em 64, número que parece aceite por todos. As dúvidas que foram levantadas na altura não mais foram ouvidas. O assunto parece pacífico, apesar de na altura se terem publicado algumas contagens muito superiores, até com nomes dos alegados falecidos. A explicação de que aquele número representava exclusivamente as vítimas directas serviu para calar todos os que duvidavam do número. Uma vítima que morreu de um acidente de viação ao tentar fugir do fogo foi por vezes apontada como a 65.ª vítima mortal, mas depressa se voltou ao número 64, talvez considerando que tal acidente não foi consequência directa. Nunca foi esclarecido que nomes estavam erradamente nas listas alternativas. Alguém declarou que havia nomes repetidos. Talvez houvesse. Mas a questão nunca ficou bem esclarecida. Admito que o número de mortos directos seja 64. Mas admitir não significa ter a certeza.

Acontece que agora, na sequência dos incêndios de 15 de Outubro, o número de mortos declarado tem sido actualizado ao longo dos dias incluindo os falecimentos nos hospitais dos feridos internados. Ora em Junho, em Pedrógão e cercanias, houve 254 feridos, dos quais 7 graves. Não houve qualquer notícia sobre evolução do estado dos feridos ou ocorrência de altas hospitalares (nem de baixas), a não ser que no início de Julho havia ainda 19 pessoas hospitalizadas e no dia 1 de Setembro ainda 6. Será de admitir que dos restantes 248 feridos hospitalizados nenhum faleceu? Se foi assim, é de lamentar que as boas notícias da sua reabilitação não tenha sido noticiada nem divulgado o grau de recuperação. De qualquer modo não se compreende a dualidade de critérios de considerar apenas vítimas mortais directas num caso e a totalidade no outro.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Aumento de impostos 3

Vou referir-me a um aumento de impostos já anterior, que não tem nada a ver com o aumento que consta do orçamento de 2018, embora tal seja negado pelo Governo. Este, a que chamam erradamente taxa, até é pequeno, mas injustificável e refere-se a um alegado serviço que está agora sob escrutínio e sujeito a veementes críticas: a Protecção Civil. Recebi hoje uma carta da Câmara Municipal de Lisboa que reclama o pagamento de 18,69 euros como Taxa Municipal de Proteção [sic - sem o "C" antes do "Ç", conforme o aborto ortográfico] Civil. Acontece que a Câmara dantes cobrava neste mês e por este meio a Taxa de Conservação de Esgotos, que passou, disfarçadamente a ser cobrada junto com a factura da EPAL, a ver se não damos por um novo imposto. E o burro que aguente. Não é muito dinheiro, mas é um grande abuso.


Mesma fonte que artigo anterior, mas de Rafael Bordalo Pinheiro.

Aumento de impostos 2

Acabo de encontrar no blog O Insurgente uma referência com um curto excerto de um artigo de Pedro Arroja publicado no ECO - Economia online - que explora um tema que aqui tratei. Como Arroja  do artigo teve provavelmente mais tempo e certamente mais conhecimento do tema, desenvolve-o muito com muito mais mestria. Vale a pena ler. Está mais que provado que os membros do Governo, nomeadamente o Primeiro Ministro António Costa e o Ministro das Finanças Mário Centeno mentiram e tentaram enganar o contribuinte e o cidadão votante quando afirmaram que no orçamento para 2018 se prevê uma baixa da carga fiscal. A carga será, sim, mais pesada e o burro tem de aguentar.


Desenho tirado de Republicanisses.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Discursos

Ontem critiquei o discurso do Primeiro Ministro. Mas hoje, depois de ouvir o discurso do Presidente da República, faria uma crítica muito mais violenta. Dois discursos totalmente diferentes, um altivo e desculpabilizante, insensível e frouxo, outro humano e dirigido às pessoas que sofreram, responsabilizante e sem receio de pedir desculpa. Se o modo de tomar as medidas e seguir as recomendações que o que se passou impõem seguir o modelo do primeiro discurso, o que é provável visto isto ser feito sob o comando do PM, temo que não seja feito o suficiente, quer no aspecto de consequências sobre os responsáveis, quer no que se refere à reformulação das estruturas e às medidas de reformas e de precauções a tomar. Se assim for, espero bem que o autor do segundo discurso tire as devidas consequências.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Incêndios

Está quase tudo dito. Falta só acrescentar que alguém devia dizer ao Costa que para falar ao País na actual situação para dizer que fez o possível, que em 4 meses não era possível fazer mais e que no Sábado vai reunir o Governo para discutir um relatório, mais algumas frases ocas e sem sentido, mais valia ter ficado calado.

Aumento de impostos

Talvez ainda alguém com boa memória se lembre das violentas críticas da esquerda quando o Ministro Vítor Gaspar anunciou um brutal aumento de impostos. Seria lógico, perante essas críticas, que o PS, apoiado pelos dois partidos da esquerda comunista, já tivesse feito uma brutal descida dos impostos. Mas a prática deste Governo, na melhor tradição da esquerda, nada tem de lógico. Só que enquanto Vítor Gaspar teve a honestidade de dizer a verdade sem mentir, disfarçar ou esconder a gravidade da decisão, agora a mentira e o disfarce são a norma. O próprio Centeno, que parece uma pessoa honesta, disse que a carga fiscal ia diminuir em 2018. Referia-se à percentagem de receita fiscal em relação ao PIB. Ora o próprio Orçamento de Estado mostra que as previsões de receita fiscal aumenta de 2017 (42.174 milhões de euros) para 2018 (43.047 milhões), tal como já aumentara de 2016 para 2017. Só que desta vez o crescimento do PIB previsto é um pouco maior do que o aumento dos impostos, pelo que estes apresentam um valor inferior em percentagem do PIB, mas não é correcto dizer que diminuíram.

domingo, 15 de outubro de 2017

Provérbios

Há um provérbio recente, fruto de normas politicamente correctas, que reza assim: "O que sabe bem ou faz mal à saúde ou é pecado". Pois agora há que acrescentar mais uma característica das coisas que sabem bem. A nova versão do provérbio pode ser: "O que sabe bem ou faz mal à saúde ou é pecado ou tem de ser taxado".

Mas as novas versões não são só de provérbios; são também de normas fiscais. Mariana Mortágua ditou, já lá vai um ano, a regra: "a primeira coisa que temos de fazer é perder a vergonha de ir buscar a quem está a acumular dinheiro". Pois agora o PS, aparentemente sem a ajuda das pequenas do BE, criou numa nova versão: "e a segunda coisa é perder a vergonha de ir buscar dinheiro onde ele mais circula". A voracidade do Governo dará ainda  para se descobrir uma terceira coisa a fazer para ir buscar dinheiro, um quarta e por aí adiante. Parece que algumas até já estão na calha.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Sócrates: depois da tragédia, a farça

Como pensei e até escrevi quando Sócrates foi preso ao chegar a Lisboa em 2014, não sei se a detenção foi justa. Mesmo agora, perante a acusação demolidora, não posso ter a certeza se é ou não culpado. Espero bem que o julgamento seja justo e não deixe dúvidas. Só sei que é pena não ser possível condená-lo a uma pesada pena pela maneira como governou o País e pela pesadíssima herança que nos deixou e que ainda hoje continua a ter reflexos perversos. É certo que em política a má governação paga-se nas urnas, quando se paga. E assim é que está certo. Mas em casos tão graves como a banca rota que a sua governação causou, é pena que não possa haver castigo mais penoso. Por isso não consigo ter pena de Sócrates, aconteça o que acontecer.

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Finalmente um pouco de bom senso

Na complicada questão da Catalunha houve finalmente um pouco de bom senso. Até hoje tanto um lado como o outro apenas tinham acções que levavam a maior afastamento de um possível desfecho pacífico. Hoje, uma declaração de independência imediata teria como efeito previsível uma reacção da parte do Governo central de Espanha que poderia levar a confrontos de graves  consequências. Mas, apesar de algumas pressões de independentistas mais radicais, o Presidente da Catalunha optou, ao que parece após conversações e hesitações, por uma declaração de independência com efeitos suspensos para possibilitar um diálogo, diálogo que era preconizado por vários sectores, quer catalães, quer exteriores. Mas não se pode pensar que todos os perigos passaram. A primeira reacção de um membro do Governo espanhol não foi apaziguadora, ao declarar que a Espanha não aceita qualquer chantagem. Ouvi na íntegra o discurso de Puigdemont, mas, com traduções simultâneas ao que me pareceu incompletas e com a dificuldade de compreender completamente o atropelo do discurso em catalão e em castelhano original e em sobreposição a tradução portuguesa, não consegui apanhar tudo em condições.Mas do que ouvi não me pareceu que em todo o discurso houvesse algo que se pudesse considerar como chantagem. No entanto deu para entender que o Presidente catalão fez uma longa introdução justificativa com argumentos que não poderão ser aceites pelo Governo espanhol, por se basear numa lei de referendo e nos resultados do próprio referendo que Espanha considera ilegais e inválidos. Se Rajoy aceitar negociar não será, com certeza, na base em que Puigdemont tentou colocar a questão. Mas se Rajoy recusar o diálogo e não corresponder ao convite para conversações por a base proposta ser a busca de uma via para a independência, cometerá um grave erro, voltando-se à situação imprevisível mas potencialmente explosiva anterior. Uma mediação de alguém do exterior que não seja espanhol nem catalão poderá ajudar a evitar confrontos violentos.

domingo, 8 de outubro de 2017

Notícia macabra dada de modo indigno

O canal Euronews noticiou hoje que foram encontradas as pernas e a cabeça da jornalista dinamarquesa Kim Wall, desaparecida em Agosto depois de embarcar no submarino artesanal construído por Peter Madsen, de quem se suspeita que lhe tenha causado a morte. Mas a notícia é dada de modo indigno, começando pela seguinte frase: "Era um caso sem pés nem cabeça". É brincar com a cena dramática de terem sido encontrados mais pedaços do corpo da vítima. A página da Euronews na net redige do mesmo modo. É um trocadilho trágico que não devia ter sido apresentado numa notícia séria.

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

O Manuelinho

Já aqui referi a nossa Restauração em 1640 a propósito da eventual importância que a revolta na Catalunha possa ter tido no desfecho positivo da nossa conspiração. Nessa altura não se falava em procurar mediação nem se dava qualquer importância ao facto de a nossa acção ter sido com toda a evidência ilegal. Só não foi inconstitucional porque não havia então qualquer constituição em vigor. Claro que os revoltosos alegaram que as leis em que os Espanhóis se baseavam para manter o domínio não eram válidas. Outra diferença fundamental entre as revoltas independentistas de então e de agora está na gravidade do castigo dos infractores quando derrotados ou apanhados em poder da parte contrária.

A este propósito convém recordar as perturbações que antecederam a revolta vitoriosa, que tiveram início em 1637 e que se vieram a desenvolver em volta de uma personagem misteriosa cuja própria existência continua hoje a ser duvidosa: o Manuelinho. Escreveu José Hermano Saraiva na sua "História concisa de Portugal":
"De todos os episódios da revolta de 1637 nenhum ficou mais célebre do que o da intervenção do Manuelinho. O assunto é ainda hoje um enigma, mas já o era em 1637. Um castelhano que exercia funções policiais na corte de Lisboa enviou para Madrid as primeiras notícias da revolta, poucos dias depois do seu início: «Na cidade de Évora, os meninos queimaram a casa do corregedor e a do escrivão e lhes tomaram os papéis. ... No Porto fizeram o mesmo e... em Vila Viçosa, onde apedrejaram o duque de Bragança, que está encerrado em casa. Desses rapazes é capitão um de dezasseis anos e, ao que parece, ninguém o conhece. Veste fato esfarrapado, um mau capote pardo e uma manta. Nunca o viram rir. Chama-se o 'Manuelinho'. Ele é que apareceu em todos os lugares por capitão e pôs no pelorinho de Évora o escrito que com esta vai e foi copiado à letra. Seguem-no os rapazes e mais que rapazes, de noite e de dia....»
O escrito que foi exposto no pelorinho, e que acompanhava a carta, é uma proclamação de revolta redigida em termos muito cultos, que denunciavam autoria eclesiástica, provavelmente jesuítica.
...
Quando já extinguido a labareda do primeiro entusiasmo, duas colunas militares espanholas entraram no Alentejo e no Algarve  e os cabecilhas foram enforcados."

A esta citação, embora longa, convém juntar a leitura de restante descrição da obra de José Hermano Saraiva.

Por aqui se vê que as consequências para os envolvidos na revolta de um e de outro lado eram muito mais graves do que a violência policial actual, com os seus feridos e excessos. Não se prevêem enforcamentos, mas o envio de colunas militares ou pelo menos de mais forças policiais e a eventual prisão de responsáveis locais não está posta de parte na Catalunha.

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Dois discursos

Ontem foram proferidos e difundidos com um intervalo de apenas uma hora dois discursos extremamente importantes, um de âmbito nacional e outro estrangeiro. Este último, que foi realmente o primeiro, foi o do Rei de Espanha sobre a crise da Catalunha. O outro foi o de Pedro Passos Coelho ao declarar que não se recandidatará ao cargo de Presidente de PSD. De âmbito diferente, mas ambos marcantes sobre aspectos em foco.

No que se refere ao Rei de Espanha e à questão catalã, fiquei com a impressão que o discurso, embora em tom digno e sereno, não contribuiu em nada para ultrapassar o impasse que se vive em Espanha. Se tanto Rajoy como Puigdemont têm contribuído para extremar posições e tornar dificílimo, senão impossível, qualquer entendimento, um promovendo uma reacção violenta e desproporcionada, por muito que proclame o contrário, com base na legalidade, mas exercendo esta defesa da legalidade por meios que chocam e que só podem provocar maior resistência da outra parte, o outro usando estratagemas ilegais e procurando vantagens por meio de factos consumados sem qualquer respeito pela legalidade do estado em que a Catalunha está integrada enquanto não conseguir a independência. Mas o Rei apenas condenou o lado separatista que acusou de infidelidade. Não teve sequer uma palavra para lamentar que o enfrentamento tenha provocado feridos. É claro que o Rei não deve ter qualquer simpatia por quem quer fugir da sua tutela e se proclama republicano, mas para evitar um embate de consequências imprevisíveis poderia ter mostrado uma pequena abertura para um diálogo que poderia chegar a um entendimento que evitasse consequências mais graves.

Já no que se refere ao discurso de renúncia de Passos Coelho, talvez este tivesse tomado a decisão certa, mas deixa-me uma certa pena que possa considerar-se que cedeu à violenta campanha que tanto dos adversários políticos como do próprio partido tem sido lançada contra ele. Uma cedência poderia ser considerada como um assentimento. Mas o certo é que o discurso foi digno e no tom certo e que os argumentos apresentados continuam a mostrar que Passos Coelho tem as ideias certas e uma visão exacta do que o País necessita. Esperemos que o PSD possa, sob nova liderança, encontrar o caminho correcto para vencer e a prazo poder governar nesse caminho.

Três Tristes Trio

Depois dos acontecimentos dos últimos dias, a começar pelas eleições autárquicas, cujos resultados foram classificados quase exclusivamente de "grande vitória do PS" e "derrocada completa do PSD", e terminando pela declaração de Passos Coelho de que não se recandidatará à presidência do partido, seria de esperar que o Governo e a maioria do PS estivessem radiosos de felicidade e. ao mesmo tempo, a cúpula do PSD, os fieis de Passos, estivessem tristes e cabisbaixos. Mas, surpreendentemente, não foi isso que se pôde notar nas expressões faciais de uns e de outros na sessão do Parlamento de hoje para debate com o Governo. Na bancada do Governo foi evidente a expressão séria e mesmo tristonha do trio principal composto por António Costa, Pedro Nuno Santos e Mário Centeno, qual "Três Tristes Trio", enquanto que a primeira fila da bancada do PSD, incluindo o ainda Presidente e o novo chefe de bancada parlamentar, se apresentou sorridente e com ar satisfeito.



terça-feira, 3 de outubro de 2017

Em defesa de Pedro Passos Coelho

Como disse antes, os ataques a Pedro Passos Coelho foram a nota dominante no período de propaganda eleitoral para as autárquicas, aliás no seguimento da tendência anterior. Passos Coelho foi criticado pela esquerda, pelo centro e pela direita. Os "erros" de Passos Coelho foram objecto de inúmeros artigos na imprensa e nas redes sociais e de comentários e debates, como se fosse ele o responsável da triste situação do País em termos de endividamento, crescimento anémico, desinvestimento e estagnação. Logo durante a informação dos primeiros resultados das autárquicas, foi proclamada a "tragédia", a "derrocada" e a necessidade de mudança de líder e de políticas em consequência dos "maus resultados" do partido, exclusivamente responsabilidade de Passos Coelho.

Tenho verificado que de um modo geral os "erros" apontados a Passos Coelho são principalmente de ordem de estratégia partidária e não das ideias políticas. A esquerda, essa sim, critica a ideologia de Passos Coelho e apelida-o de "neo-liberal", epíteto que enfia bem em tudo o que não é de esquerda. Fora da esquerda, critica-se o modo como dirige o partido, responsabilizando-o pelos maus resultados, mas não tanto as políticas seguidas quando primeiro-ministro ou as preconizadas quando na oposição. Veja~se um exemplo típico, em que se apontam como "erros fatais" não ter explicado ao povo a gravidade da situação herdada em 2011, não ter tido a relação mais apropriada com Paulo Portas, o ter proclamado "que se lixem as eleições", o ter anunciado o caos (ou a vinda do diabo) quando da montagem da geringonça, o ter anunciado "depois de mim, o dilúvio" e ser a "cara das más notícias", por liderar um "partido nervoso" que não gosta de estar na oposição. Todos estes "erros" podem ser reais, mas são todos erros de estratégia. A maioria dos comentadores políticos referem-se à estratégia como o aspecto principal da luta política, seguindo o exemplo de Marcelo Rebelo de Sousa quando era apenas comentador (agora é Presidente da República e continua a ser comentador, talvez mais contido). Esquecem que o que interessa ao País é que seja bem governado, e isso implica boas ideias políticas. A estratégia é só um meio de poder chegar a governar. Há que notar que o autor destas críticas começa por declarar a sua admiração por Passos Coelho e o reconhecimento de que o "país lhe deve muitíssimo", declarações com que estou perfeitamente de acordo.

Como erros do Presidente do PSD no que se refere à campanha autárquica apontam-se também o  "não ter apoiado Cristas em Lisboa", "optar por medir forças à direita"  e "fomentar e manter uma candidatura ridícula" no Porto. Mais uma vez erros estratégicos e não de linha política. Estes erros podem ter tido influência nos maus resultados nas eleições do dia 1, mas não vejo em como podem contribuir para um melhor ou pior juízo sobre as ideias políticas de Passos Coelho. Sobre os resultados das autárquicas e o modo como foram apreciados dos modos mais diversos e muitas vezes despropositados, espero vir ainda a falar.


sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Objectivo geral das autárquicas: abater Passos Coelho

Aproveito alguns minutos antes da meia noite para revelar a minha estranheza para o debate eleitoral para as eleições autárquicas de amanhã se ter tornado quase exclusivamente num pretexto para prosseguir e ampliar o objectivo de abater o actual líder do PSD. Já vem de longe uma campanha feroz contra Passos Coelho. Durante a crise e no período em que éramos  supervisionados pela troika esse ataque parecia natural porque a política seguida, embora tivesse sido negociada pelo Governo de Sócrates, levava a grande descontentamento e o Governo de Passos era considerado, erradamente, o grande responsável. Mas depois da saída da troika, e apesar do início com algum vigor da recuperação económica no fim de 2013 e mais acentuadamente em 2014 e 2015, os ataques prosseguiram e Passos foi acusado de ser mau Primeiro Ministro e mau líder do PSD. O furor foi-se acentuando e a aproximação das autárquicas levou à situação actual em que parece que é Passos Coelho o responsável de tudo o que de mau pode acontecer, sendo premente, a nível nacional, evitar de qualquer modo que possa votar ao poder, e, a nível partidário, apeá-lo de líder do PSD.

Pois não hesito em afirmar que, para mim, Passos Coelho é, de todos os políticos no activo, o que tem mais categoria de estadista, que, independente dos resultados destas eleições locais. E parece-me que a violência com que alguns o atacam tem a ver, pelo menos inconscientemente, com ter recusado atacar a Altice no seu projecto editorial em Portugal, ao contrário do que tem feito a generalidade dos jornalistas dos grupos concorrentes.

Víbora no Parque Tejo

Não será certamente uma ameaça séria. Talvez nem sequer seja uma notícia inesperada. Mas o certo é que apenas tinha visto uma víbora viva em liberdade quando em jovem praticava atletismo nos terrenos do Estádio Nacional, há cerca de 60 anos. Inesperadamente encontrei agora uma num dos caminhos do Parque Tejo, em pleno Caminho dos Estorninhos. Tirei uma fotografia para testemunhar o achado.



Não sei se representa grande perigo, já que a picada da víbora só excepcionalmente é mortal para o homem, mas não deixa de ter consequências. Nunca tinha pensado ir passear descalço, muito menos pelos extensos relvados que rodeiam as veredas do parque, mas a partir desta descoberta vou ter mais cuidado, cuidado que recomendo também a todos os que forem passear por este parque.

Menos assustadora é a gaivota que apanhei pousada a descansar no cimo de um tronco.


quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Negócios da semana

Porque será que a SIC-Notícias prevê na sua programação de todas as Quartas-feiras o programa de José Gomes Ferreira "Notícias da Semana", mesmo quando há jogos importantes de futebol nesse dia e é de prever que à hora a que o programa deveria ir para o ar é mais importante, ou pelo menos atrai mais audiência, dar ou continuar da hora anterior debates sobre os jogos de futebol que tiveram lugar? A anulação de programas previstos e anunciados irrita-me profundamente. Uma vez cheguei a telefonar para a SIC para protestar terem retirado um programa que me interessava, para apresentar um debate sobre futebol... De que havia de ser, senão de futebol? Pois o interlocutor amável que me atendeu justificou o acto por a televisão ser uma coisa viva, sujeita a alterações sempre que seja para o interesse do público. Não justificou porém porque não avisam com antecedência nem accionam a alteração da programação anunciada nos sites das empresas de televisão por cabo. Também não justificou porque sacrificam algum público, como eu, em favor de outro, como os apreciadores de futebol, público sempre mais favorecido.

Nota: Hoje o que acaba de acontecer não foi substituir o Negócios da Semana por programas sobre futebol. O programa de futebol que estava no ar antes das 23 h continuou durante alguns minutos, mas depois apareceu o José Gomes Ferreira, não a apresentar o seu programa habitual, mas sim a comentar o estudo económico do economista Trigo Pereira e colegas e a comparar as opções propostas por esse programa com a política económica seguida pelo Governo. Em vez de 1 h de programa, tivemos quase 20 minutos. De qualquer modo, houve uma alteração profunda da programação sem qualquer aviso ou explicação. Quando os telespectadores podem hoje marcar a gravação de programas para os poderem ver mais tarde a horas que lhes são mais favoráveis, estas alterações sem aviso são muito inconvenientes.

domingo, 24 de setembro de 2017

Catalunha 3

Ainda a propósito dos antecedentes históricos da actual tentativa da Catalunha de conquistar a independência em relação à Espanha, transcrevo um pequeno trecho da obra "História concisa de Portugal" de José Hermano Saraiva sobre o assunto:

"Em Junho de 1640, [na Catalunha] uma multidão de ceifeiros (ou segadores), que, segundo uma velha tradição, visitava Barcelona no dia do Corpus Christi, amotinou-se, incendiou os arquivos públicos e matou o governador castelhano. Todo o condado aderiu imediatamente à revolta e pediu o apoio militar da França. O rei de França, Luís XIII, foi proclamado em 1641 conde de Barcelona.
O Governo de Madrid decidiu esmagar a revolta e ordenou a mobilização dos nobres portugueses para acompanharem o rei durante a guerra da Catalunha. Essa ordem serviu de causa imediata à revolução portuguesa."

Este episódio é abordado pela Wikipedia que descreve com algum grau de pormenor a história da Catalunha desde os primeiros povoamentos no paleolítico. Na edição da Wikipedia em inglês há também referência à revolta dos ceifeiros, que é ainda desenvolvida em entradas próprias, quer na versão portuguesa (Guerra dos Segadores), quer na em inglês (Catalan revolt). Curiosamente, ou talvez não, a versão espanhola da Wikipedia apresenta o capítulo sobre a história da Catalunha muito mais resumido e sem qualquer referência à revolta dos ceifeiros ou a qualquer outra tentativa de separação da Espanha. Em contrapartida, a versão em catalão tem amplas referências a diferentes períodos da história da Catalunha, incluindo o da Idade Moderna, que por sua vez faz referência a um artigo específico sobre a Guerra dels Segadors.


Revolta dos Segadores

Note-se que a Catalunha estava integrada no reino de Aragão, de que era parte principal, até à união deste com Castela, em virtude do casamento dos reis católicos, Fernando de Aragão e Isabel de Castela em 1469, levando à criação do reino de Espanha.


sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Catalunha 2

A tensão entre o Governo espanhol e os independentistas da Catalunha tem vindo a agravar-se a ritmo alucinante. Não tenho posição nem simpatias por qualquer dos lados em confronto. Por um lado, lembro os 60 anos de domínio filipino sobre Portugal, relembro a rebelião de 1640 (refiro-me à rebelião na Catalunha) e reconheço que a nossa restauração e libertação do domínio espanhol foi, em parte, favorecida pelo facto de Filipe IV (de Espanha) ter de ocupar tropas a sufocar os catalães. Daí resulta uma certa simpatia pelos catalães com que nos sentimos um tanto irmanadas. Mas estes acontecimentos históricos já vão muito longe, e agora é difícil ajuizar se o desejo de liberdade da Catalunha faz algum sentido e se não seria melhor negociarem uma maior autonomia. Se a Espanha fosse um estado federal, com as regiões como estados de direito, talvez como os cantões suíços, poderiam ter governos próprios com mais liberdade. O certo é que tanto do lado do Governo de Espanha como dos independentistas da Catalunha tem sido dados passos que não facilitam qualquer solução negociada. E quando nos lembramos de casos com algumas semelhanças, como o do Quebec no Canadá e o da Escócia no Reino Unido, em que os referendos foram realizados com autorização dos governos centrais respectivos, é forçoso concluir que o caminho escolhido pelos catalães não é o melhor e que a reacção de Rajoy também é desastrosa.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Catalunha

Será que Rajoy não se apercebe que ao usar demasiada força, apreendendo boletins de voto e prendendo altos responsáveis catalães, pode estar a provocar uma reacção nos potenciais votantes no referendo que tenha como resultado um aumento significativo dos votos favoráveis à independência da Catalunha? Se bem que se escude na constituição, na lei e em decisões judiciais, a violência da acção da guarda às ordens de Madrid só poderá potenciar as opiniões contrárias, mesmo em cidadãos que estariam, sem esta acção, mais inclinados à abstenção ou ao voto contra.

Vistos gold e xenofobia

Segundo o Jornal de Notícias, Catarina Martins teria insistido no fim dos vistos gold alegando que,  além de provocar a especulação imobiliária, serve ainda "para lavar dinheiro de esquemas de corrupção".

 A ser verdade, espanta-me porque é que Passos Coelho é acusado pelo BE de racismo e xenofobia por criticar as alterações propostas à lei da imigração e ainda ninguém ter considerado as afirmações de Catarina Martins como racistas e xenófobas (No caso de racismo, certamente que Catarina não merece críticas, pois, tal como Passos Coelho, não há nada relacionado com raças humanas nas respectivas questões, mas a relação com xenofobia parece-me óbvia).

Também me espanta que o candidato do PSD à Câmara de Loures continue e ser acusado também de racismo e xenofobia por generalizar para uma determinada etnia considerações sobre comportamentos que comprovadamente alguns membros desta etnia seguem. Exactamente o mesmo tipo de generalização que a coordenadora do Bloco de Esquerda faz, não em relação a uma etnia, mas em relação a todos os requerentes de vistos gold. Serão todos corruptos? Isto não é autêntica xenofobia?

domingo, 17 de setembro de 2017

Retrato em alta definição da Dona Geringonça

O Primeiro Ministro António Costa deu uma entrevista ao DN, o Ministro das Finanças, Mário Centeno deu uma entrevista à RTP, mas mais importante do que disseram e prometeram é o artigo de João Cortês n'O Insurgente, que escalpeliza em pormenor a acção do Governo da Geringonça e apresenta uma lista pormenorizada das principais medidas que o dito tem tomado desde que tomou posse mercê de um truque - legal,  mas que não deixa de ser truque. Esta lista, que classifica o tipo e o carácter positivo ou negativo de cada medida com gradações e consequências, deve ser lida, meditada e guardada por todos os que se interessam pelo modo como o País está a ser conduzido.

Não resisto a transcrever alguns parágrafos do artigo, mas esta transcrição não deve evitar a sua leitura na íntegra:

"Não se pode comparar a governação durante um período de recessão ou de execução de um programa de ajustamento (no caso do governo anterior, existia a obrigação de cumprir um programa de ajustamento negociado e acordado pelo partido socialista liderado então por José Sócrates). Alguém dúvida que se o partido socialista tivesse vencido as eleições em 2011 a política “austeritária” conduzida teria sido muito diferente? Um país falido e endividado até aos limites tem sempre poucas opções. O governo da geringonça quando tomou posse, Portugal já tinha saído do programa de ajustamento (uma saída “limpa”), reformas importantes (mas insuficientes no meu entender) já tinham sido realizadas, e já se observava uma tendência clara de recuperação económica, quer por via do crescimento económico, quer por via da recuperação de emprego. O governo da geringonça beneficiou ainda de condições favoráveis excepcionais das quais destaco:
  1. o crescimento generalizado das economias europeias, americanas e asiáticas (algo que por si só favorece as exportações e o investimento estrangeiro).
  2. taxas de juro extraordinariamente baixas, devido essencialmente ao programa de quantiative easing do Banco Central Europeu.
  3. o crescimento do turismo, não só pelo aumento da quantidade e qualidade da oferta (para que muito contribuiram as companhias aéreas low cost), mas também pelo aumento da procura resultante do facto de outros destinos tradicionais se terem tornado muito pouco atractivos por motivos de segurança.
  4. a queda do preço do barril de petróleo que reduz o défice da balança comercial e liberta recursos financeiros para serem aplicados em outras actividades económicas.
De salientar que, dada a conjuntura favorável, este seria o momento ideal para realizar todo o género de reformas estruturais. Ao invés de aproveitar esta oportunidade, o governo optou por reverter algumas das reformas do governo anterior e manter o status quo o mais possível, privilegiando sempre uma política de curto prazo (num concurso de popularidade e de compra de votos com o objectivo de se manter no poder) em detrimento do longo prazo, como explicarei neste post. Ao mesmo tempo, a dívida pública este ano atingiu valores recorde em termos absolutos e em proporção do PIB.
Devo notar também que a popularidade da geringonça também se deve ao facto de termos um presidente da república mais interessado na sua popularidade e em evitar conflitos do que em desempenhar a sua função; e a uma comunicação social que de forma muito geral, é acrítica e aceita passivamente todo o tipo de vacuidades produzidas pelo governo; e que objectivamente privilegia e favorece a esquerda. Sobre a parcialidade da comunicação social, basta fazer um exercício mental para imaginar como é que os casos das 65 mortes nos incêndios de Pedrógão Grande; o recorde da àrea ardida pelos incêndios em 2017 ; ou o roubo de Tancos seriam tratados caso estivessemos perante um governo de liderado por Passos Coelho."

Esta longa transcrição é apenas uma pequena amostra.

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Autoeuropa 1-0

O que está a acontecer na Autoeuropa é um novo campo da rivalidade entre os 2 partidos comunistas, o clássico estalinista e o novo trotskista-maoista, em que o primeiro está a conseguir expulsar o segundo do seu principal (único?) bastião industrial. O PCP e a sua correia de transmissão estão neste momento a ganhar por 1-0 ao BE. Em parte, tanto quanto me é dado concluir com os poucos dados que possuo, por o BE ter cedido campo, ao aceitar os resultados de uma negociação sem ter a noção de que a maioria dos trabalhadores não estariam de acordo. Estou curioso por seguir o desenvolvimento da situação.

Cavaco disse, eu já tinha dito

Gostei da lição de Cavaco Silva na Universidade de Verão do PSD. E gostei principalmente da passagem em que citou casos em que a realidade acaba sempre por derrotar a ideologia, como disse, "tirar-lhe o tapete". É outra maneira de dizer que a matemática é implacável, verdade que eu já desenvolvera, não só a propósito da Grécia, como para o nosso caso no início do Governo de António Costa. É claro que, como então eu disse, se aplicarmos a matemática a números errados, podemos obter o resultado que quisermos, justificando aparentemente os maiores disparates. Mas se, como é o caso referido por Cavaco, aplicarmos a matemática à realidade, então o resultado obtido mostrará o lado implacável da ciência exacta. E esse resultado só estará em concordância com a ideologia se essa ideologia estiver certa, caso contrário mostra os erros, as incongruências e as contradições da ideologia em questão. É o que Cavaco chama "tirar-lhe o tapete". Foi o que aconteceu quando Costa e Centeno tiveram de mudar de estratégia e, em vez de acabar, como prometido, com a austeridade, mudar de tipo de austeridade, tirando dinheiro a muitos a favor de dar mais algum dinheiro, não muito, só a alguns, além de, por outro lado, reduzir a despesa cortando no investimento e aplicando cortes cegos a que chamaram cativações. Quando Costa, Centeno e os seus seguidores concluem triunfantemente que afinal sempre havia uma alternativa, esquecem que a alternativa que encontraram à austeridade da troika foi um tipo diferente de austeridade, e só não foi mais porque o enquadramento económico internacional entretanto tem melhorado.

sábado, 26 de agosto de 2017

Ainda a iguialdde de género

Excelente artigo de Mário Amorim Lopes no Observador. A teoria da igualdade de género desmascarada.

E se eu quiser agora comprar o livro da Porto Editora para menino ou o para menina, já não o poderei fazer. No tempo do Salazarismo ainda podíamos comprar livros proibidos na Barata. E agora? Que democracia é esta que cerceia a minha liberdade? Que vai acontecer aos livros? Serão queimados, qual novo Fahrenheit 451? No nazismo os livros condenados eram queimados em público. Ao menos assumiam os seus actos. Não era menos condenável, mas era mais, digamos, honesto (ou mais descarado...)

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Igualdade de género

Como é que a Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género (em bom português deveria ser Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género) tolera que exista um canal de TV dedicado exclusivamente ao género feminino? Estou à espera que exija, faça forte pressão, ou pelo menos recomende que o canal SIC-Mulher seja encerrado. Tenho uma sugestão: mudar-lhe o nome para SIC-Frivolidades, designação que assenta como uma luva na respectiva programação. Não se fala em género e muito menos em sexo, palavra que caiu em desuso a não ser para designar o sexo propriamente dito. Lembrei-me de outra solução, que seria criar o canal SIC-Homem, mas, se publicar livros diferenciados para Menino e Menina é condenável, suponho que a criação de tal canal dirigido ao público masculino não seria bem aceite.

domingo, 20 de agosto de 2017

Medo

Já se tornou um lugar comum dizer que o verdadeiro herói não é o que não tem medo perante o perigo, mas sim aquele que vence o medo e actua apesar do medo. Concordo absolutamente com esta afirmação. No entanto, perante a vaga de ataques terroristas que estão a tomar uma frequência assustadora, tornou-se agora moda dizer que não temos medo, que não devemos ter medo, e que não devemos alterar o nosso comportamento e a nossa maneira de estar na vida, porque é isso que os terroristas pretendem. Parece-me que há uma contradição entre estas duas formas de encarar o perigo representado pelo terrorismo.

É certo que o que os terroristas pretendem, antes de tudo, é suscitar o terror, ou seja, o medo em alto grau. Sempre foi assim, desde o terror da Revolução Francesa. No caso do terrorismo islâmico, parece até que, seguindo uma interpretação dos versículos VIII.55 a 65 e IX.5 e 73 do Alcorão(1), os terroristas pretendem matar o máximo de não crentes e conseguir converter os sobreviventes pelo terror. Não é claro se têm consciência de que não será possível deste modo eliminar, quer por morte quer por conversão, todos os infiéis, mas o objectivo final será, pelo menos, tornar, a longo prazo, o seu modo de encarar a sua religião preponderante em todo o mundo.

Perante isto, será aconselhável e possível evitar o medo? Não me parece. Pode ser que os apelos e as afirmações contra o medo tenham uma função benéfica, evitando as alterações exageradas de comportamento, mas não devem ser de molde a prejudicar as medidas de precaução aconselháveis. Até acho bem que se façam declarações para evitar o pânico, como fez o Rei de Espanha ao declarar: "Não temos medo, e não teremos nunca!", mas o medo justificado e até salutar pode salvar vidas. O perigo existe e devemos encará-lo com coragem, mas tendo consciência de que nos pode atingir.

(1) VIII.55. As piores bestas diante de Deus são os descrentes, pois eles não crêem.
              57. Se os encontrardes na guerra, dispersa-os; os que vêm a seguir talvez meditem.
              60. Preparai contra eles a força e os cavalos ajaezados que possais, para atemorizar o inimigo
                    de Deus...
              65. Incita os crentes ao combate!... Vencereis a mil dos que não crêem...
      IX.5 Terminados que sejam os meses sagrados, matai os idólatras onde os encontrardes.
               Apanhai-os! Preparai-lhes todas as espécies de emboscadas!
           73. Combate os descrentes e os hipócritas! Sê duro para com eles! O seu refúgio será o
                 Inferno.

sábado, 12 de agosto de 2017

Novo Fausto

Descoberto manuscrito de Goethe

Foi recentemente descoberto um manuscrito de uma obra do poeta alemão Goethe desconhecida até agora. Trata-se de uma nova versão do célebre poema trágico “Fausto” (“Faust” em alemão, ) escrita em 1823, durante uma estadia de Goethe em Marienbad. Sabe-se que Goethe; após algumas versões preliminares, escreveu a primeira parte da sua principal obra, a tragédia de Fausto em 1806, mas só terminou a segunda parte em 1932, às vésperas da sua morte. Na versão agora encontrada, escrita no intervalo entre essas duas datas, é dada uma nova personalidade ao Dr. Fausto, mais aproximada, segundo os especialistas, do carácter mais ligeiro do Fausto de Marlowe, muito diferente do Dr. Fausto de Goethe. Além disso o demónio tentador não é Mefistófoles, mas sim Hieronymus. um demónio menos formal e mais político e interventivo a nível social, acolitado por muitos seguidores. Nesta versão, Fausto apaixona-se por uma donzela, mas o nome de Marguerite foi substituído por Kathrine. A interacção entre estas 3 personagens é muito mais complicada do que no Fausto conhecido, embora ainda baseada na antiga lenda alemã que está na origem de todos os Faustos: Fausto faz um pacto com o demónio a fim de ter mais poder, e, enquanto faz a corte a Kathrine, vai aproveitando os seus novos poderes para subir na escala social e conseguir influenciar a vida na sua cidade. No fim, como em todas as versões da lenda de Fausto, romances, peças de teatro e óperas, e ainda noutras lendas sobre pactos demoníacos, as coisas correm mal e Fausto cai em desgraça. Nesta versão, Hieronymus remete-o para o Inferno, onde terá tempo para se arrepender, não só de ter feito um pacto tão inconveniente, mas também dos seus actos condenáveis que o demónio o levou a praticar. O manuscrito foi encontrado numa gaveta de uma antiga escrevaninha, está em muito bom estado e vai ser publicado e traduzido em várias línguas. Esperemos pela tradução para português para podermos avaliar a profundidade da sua lição moral.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Guerra?

Passo os olhos pelos blogs que costumo ler com maior frequência e não encontro qualquer referência às ameaças norte-coreanas nem às declarações, também ameaçadoras, de Trump.  Já é tarde e talvez os blogers tenham ido dormir. Mas o perigo é grande e as notícias escassas. Será que King-Young-Un se atreverá a atacar a ilha de Gwan, como ameaça? Se for assim, será que estará a preparar a sério um ataque nuclear? Não creio que Trump decida qualquer acção militar contra a Coreia do Norte apenas em resposta a ataques verbais, mas o que poderá fazer é também imprevisível. Amanhã talvez se saiba mais.

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

PCP critica

O PCP criticou o Governo por este não ter reconhecido o resultado da eleição na Venezuela para a Assembleia Constituinte. E eu que estava prestes a perguntar quando é que o PS ou o Governo criticariam o PCP pela posição de apoio à táctica de Maduro. Muitas vezes as posições políticas do PCP são divulgadas no Avante, passando desapercebidas da maioria do público. Mas desta vez, as declarações do PCP, que considera o acto eleitoral uma afirmação democrática e soberana de defesa da Paz, foram amplamente divulgadas. Perante esta confissão do que significa  para o PCP a democracia e a Paz, para mais Paz com maiúscula, o silêncio do PS e a continuidade da aceitação do apoio que este partido dá ao Governo comprometem seriamente o PS.

segunda-feira, 31 de julho de 2017

António Barreto

Ia tentar escrever novamente sobre o estranho caso das 64 mortes da tragédia de Pedrógão, mas ao ler o artigo de António Barreto no DN decidi poupar trabalho, já que ele escreve muito melhor do que eu e desenvolve os argumentos que eu desenvolveria com mestria. Não quer dizer que não possa voltar ao tema referindo-me a outros aspectos, mas no que se refere ao segredo de justiça pouco mais haveria a dizer. Sem dúvida, António Barreto é um dos últimos homens livres deste País.

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Chicana política

O Governo e o PS estão nitidamente fragilizados perante os casos dos incêndios, que já não é só o de Pedrógão Grande, e ainda do furto de material militar de Tancos. Está fragilizado porque a incompetência demonstrada pelo modo como geriu, quando chegou a gerir alguma coisa, estes casos veio tornar evidente a incompetência global que tem mostrado desde que tomou posse. Perante os erros e omissões, a oposição teve largas oportunidades de criticar e tem criticado como lhe compete. Perante as críticas, que decidiram o Governo e o PS? Acusar a oposição e mais em particular o PSD de chicana política, e, em especial no que se refere à tragédia dos incêndios e ao elevado número de vítimas, de aproveitamento de casos dramáticos para fins partidários e de luta política. Todas as vozes do PS e algumas de outros quadrantes afinaram pelo mesmo diapasão e principalmente desde ontem e durante todo o dia de hoje não houve intervenção política que não bramasse contra o PSD por aproveitar a situação para fins políticos. Ainda há pouco ouvi a Dr.ª Manuela Ferreira Leite, que não costuma alinhar com os socialistas, apesar de criticar com grande frequência os actos e as intervenções do líder do seu próprio partido, afirmar com o ar mais cândido deste mundo que o drama dos incêndios deveria levar a uma união e  consensos e que era negativo a oposição limitar-se a criticar, numa situação em que deveria haver unidade. Seguidamente, foi Jorge Coelho que repetiu o mesmo lema, acusando o PSD de chicana política. Pareceu-me mesmo que houve uma ordem generalizada passada de telemóvel em telemóvel a ordenar esta estratégia de contra-ataque. Mas não compreendi como querem que, perante os erros flagrantes do Governo, a oposição não acuse e colabore com a incompetência. Que união é possível? Salazar, para construir a União Nacional, teve de pôr de parte os partidos, restringindo o consenso aos que seguiam os seus ditames. Em democracia, a oposição tem o direito e mesmo a obrigação de criticar o que classifica como errado nas acções de Governo.

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Publicação da lista

Sobre a publicação da lista dos falecidos vítimas do incêndio de Pedrógão, escreve Vítor Cunha no Blasfémias:
"A lista de vítimas em segredo de justiça foi divulgada pelo PGR sem que o segredo de justiça tenha sido violado. Tal só pode ter acontecido por três motivos diferentes: o governo mente; o PGR não respeita o segredo de justiça; a lista em segredo de justiça não estava nada em segredo de justiça."
Normalmente aprecio bastante os postais de Vítor Cunha, mas desta vez parece-me que não tem razão. Vejamos: Que o Governo mente, é sabido e habitual, o que não significa que esteja a mentir neste caso particular. De resto, suponho estar certo ao pensar que o PGR tem o poder de estabelecer o que está abrangido ou fora do segredo de justiça. Se a norma geral é aplicar-se o segredo de justiça aos casos em investigação, o PGR pode legalmente isentar determinadas informações deste segredo. Portanto o PGR não tem que respeitar o segredo de justiça, na medida em que é ele que define a sua aplicação. Deste modo não tem sentido pôr como hipótese alternativa que a lista não estivesse sequer em segredo de justiça; estava e deixou de estar por decisão do PGR. Não terá sido assim?

quarta-feira, 26 de julho de 2017

64 directos. E quantos indirectos?

A Procuradoria Geral da República tornou pública finalmente a lista das 64 vítimas mortais directas do incêndio de Pedrógão Grande. Segundo a posição oficial das instituições do Estado, esta publicação serve para confirmar o número de mortos. Se o nosso Primeiro Ministro já garantia antes desta divulgação que o assunto estava arrumado, estabeleceu-se agora a impressão de que agora é que está tudo esclarecido. O que António Costa declarara anteriormente ser apenas uma crença pessoal tornou-se numa certeza com aval do Governo. Assunto arrumado? Não! Mesmo admitindo, o que posso fazer sem grande esforço, que o número está correcto, segundo o critério de que os mortos directos são apenas aqueles cujas causas de morte são queimaduras ou inalação de fumos, resta a pergunta evidente e imediata: e quantos e quais são os mortos indirectos? Há pelo menos a senhora que morreu atropelada, mas a PGR já abriu o respectivo processo. Será que não há mais? Numa tragédia como esta há muitos modos de morrer além modos considerados directos. Houve fugas precipitadas e em péssimas condições de segurança, há casas destruídas, parece muito provável que tenham ocorrido mortes nestas circunstâncias. Os relatos que referem corpos encontrados depois de já divulgado o número de 64, e portanto não incluídos nesse número, necessitam de uma investigação séria e completa. Além disso, custa a crer que dos 254 feridos anunciados na altura e que deram entrada em diversos hospitais, todos tenham sobrevivido, embora deseje acreditar que se tenham mesmo todos salvado. E, qualquer que sejam as situações particulares de cada uma das vítimas, mesmo no que se refere aos sobreviventes, seria útil saber em que estado sobreviveram. É indispensável, portanto, um esclarecimento completo.

domingo, 23 de julho de 2017

Segredo

Como acabou de comentar Marques Mendes, não faz sentido que os nomes e alguns dados, como idade e naturalidade, das vítimas do incêndio de Pedrógão Grande sejam mantidos sob segredo de justiça. Para mais sabendo a lentidão da justiça, manter em segredo estes dados pode prejudicar a recolha de testemunhos e só serve para continuar a falta de informação sobre a magnitude da tragédia.

Tudo esclarecido?

Governo insiste em manter o número mágico de 64 para a contagem das vítimas mortais em consequência do incêndio de Pedrógão Grande. E, face às dúvidas e interrogações sobre a realidade desse número, o Primeiro Ministro diz que "crê que isso já está tudo esclarecido". Custa a acreditar que António Costa esteja a falar a sério. Como é possível considerar tudo esclarecido quando há depoimentos, listas, relatos e comentários segundo os quais o número de mortos será muito superior. Estes depoimentos, listas, relatos e comentários podem estar errados, mas sem esclarecer ao pormenor a situação não se pode dizer, com a ligeireza característica de Costa, que crê que está tudo esclarecido. Crê? Ao chefe do Governo não basta "crer". Um Primeiro Ministro tem a responsabilidade máxima da condução da governação e não pode, portanto, basear-se em crenças.

Além disso, o próprio MAI, ao confirmar o número de 64 mortos, informando que apenas inclui os cuja morte resultou directamente do fogo, quer por queimaduras, quer por inalação de fumos, reconhece implicitamente que há outros mortos em resultado do incêndio mas por via indirecta (por exemplo a senhora atropelada quando fugia e eventualmente outras causas indirectas, como seja no desabamento de casas atingidas). Resta ainda esclarecer o que aconteceu aos cerca de 200 feridos, muitos deles graves. Há notícia de estarem ainda 14 internados. Os outros tiveram todos alta e ficaram sem sequelas? Dos 200 não houve nenhuma morte nos hospitais? Qual o estado dos 14 ainda internados?

Tudo esclarecido? Longe disso.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Tancos

Fiquei muito admirado ao ler notícias de que as averiguações sobre o furto de material militar de Tancos tinham sido concluídas. Já me espantou menos que, como consequência dessa conclusão, os comandantes que tinham sido exonerados pelo Chefe do Estado Maior do Exército tinham sido reintegrados, porque realmente a razão apontada para a sua exoneração foi evitar interferências no inquérito. Se acabou o inquérito, não havia razão para manter a situação de afastamento destes comandantes. Mas já não percebia como era possível ter terminado tão rapidamente as averiguações e não haver, com esta nova, qualquer informação, por mínima que fosse, sobre autores do assalto, sobre paradeiro do material e outros aspectos básicos. Estranhamente, uma notícia tão importante teve pouco eco: apenas rosa-pés muito resumidos e nada explicativos nos canais de notícias nacionais e nenhum desenvolvimento. Aliás havia contradições: uns diziam que o fim das averiguações tinha permitido a transferência do material de Tancos para outros paióis, outros relacionavam esse fim com a reintegração dos comandantes antes afastados, para uns o material militar tinha já sido transferido (o que por segundos me levou a crer que se teria concluído que afinal o material não fora furtado, mas sim transferido e, por uma desorganização extrema, alguém, ao dar pela falta dele em Tancos, pensou que tinha sido furtado), para outros o material (o restante ainda presente nos paióis de Tancos) ia agora ser transferido. Enfim, tudo muito mal explicado. As notícias maia desenvolvidas dos jornais e das TVs na net pouco acrescentavam. No sítio do CEME não consegui encontrar o comunicado original. Felizmente dei com uma referência ao comunicado público que explica que as averiguações que foram dadas por terminadas se referiam apenas a "funcionamento das áreas técnica, segurança física, controlo de acessos e vigilância eletrónica dos Paióis Nacionais de Tancos (PNT)". Fiquei mais descansado e mais bem informada: As averiguações mais importantes sobre foi possível o assalto, como decorreu, quem e com que fim foi efectuado e possibilidades de localizar e recuperar o material e o responsabilizar os assaltante e seus eventuais cúmplices internos, isto é, o que é fundamental, não estão nem podiam estar terminadas. A nossa comunicação social, na ânsia de resumir uma notícia que lhes pareceu de pouca importância, não pensou que seria conveniente transcrever do comunicado a finalidade estrita das averiguações referidas.

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Declaração de Belém

Hoje passei todo o dia em casa, para evitar o calor da rua. E vi muita televisão. Vi muitos noticiários, na RTP1, na SIC, na TVI, na RTP3, na SIC-Notícias e na TVI24. Foi com surpresa que, já de noite, ao espreitar a Euronews, dei com uma notícia importante, que nos dizia respeito, mas que não tinha conseguido ver em nenhum canal português: a assinatura da Declaração de Belém sobre o Atlântico Sul com a participação da UE, do Brasil e da África do Sul. Só então compreendi o que o Presidente da República tinha ido fazer à Torre de Belém e porque se tinha encontrado lá com o Comissário Carlos Moedas e muita outra gente. Essa passagem pela Torre de Belém foi noticiada, mas, apesar de ter visto a reportagem e as recusa de Marcelo Rebelo de Sousa de responder a uma pergunta sobre a nomeação dos novos secretários de estado, não ouvi a mais pequena referência sobre o acto que estavam a festejar. Agora, no noticiário da meia-noite da SIC-N imperou o mesmo silêncio sobre o assunto. Admito que o plano comum acordado, que é o objecto da Declaração, não venha a ter uma importância tão grande como se pretende, mas de qualquer modo não consigo descortinar o motivo para toda a informação televisiva (não foi o caso dos jornais na net) terem calado completamente o evento.

terça-feira, 11 de julho de 2017

Fim de férias (e fim de fim-de-semana)

Afinal andava eu maldosamente a duvidar que o nosso querido Primeiro Ministro estivesse mesmo a gozar férias merecidas e descansadas, levantando hipóteses inverosímeis de andar desaparecido, sequestrado, doente, escondido, e eis que aparece em todo o seu esplendor. É certo que há quem lhe leve a mal não ter adiado as férias e/ou sacrificado pelo menos o fim-de-semana perante os graves acontecimentos recentes que exigiriam a presença de um chefe com poder e vontade de tomar medidas que a grave situação tornaria indispensáveis. Mas redimiu-se completamente, pois, mostrando o seu poder de comando, aos 5 minutos logo após a meia-noite de Domingo já estava ao leme despachando a exoneração dos 3 secretários de estado demissionários. Nem esperou pela manhã. Os grandes homens são assim, não demoram mais de 5 minutos a tomar as decisões importantes. Em Pedrógão Grande continuam à espera que a reconstrução comece, em Bruxelas continuam à espera que o pedido de auxílio seja apresentado, o material de guerra furtado ainda não foi localizado, os responsáveis pela descoordenação em Pedrógão e pelo desleixo na segurança dos paióis de Tancos, já para não falar dos assaltantes, continuam por identificar, mas temos o nosso Primeiro connosco.

domingo, 9 de julho de 2017

Direita

Os meios de comunicação social adoptaram como seu o critério de designar como "direita" em política portuguesa a área que engloba os partidos que não se reclamam de esquerda, nomeadamente, dentre os principais partidos, o PSD e o CDS/PP. Este critério foi lançado pelos partidos de esquerda radical e alegremente adoptado por comentadores de diversas tendências e políticos de diversos meios. Quanto a mim erradamente.

Os conceitos de direita e esquerda não possuem definições unívocas nem geralmente aceites. A noção básica é evidente, mas os limites que permitiriam situar uma determinada ideologia, um tipo de pensamento, uma tendência política, um partido ou um modo de acção política na esquerda ou na direita não são tão evidentes e estão sujeitos a discussão. Vejamos o que diz a Wikipédia sobre o assunto. Diz muito, mas em resumo define a esquerda como incluindo "progressistas, sociais-liberais, ambientalistas, social-democratas socialistas, democrático-socialistas, libertários socialistas, secularistas, comunistas e anarquistas ", enquanto a direita incluiria "capitalistas, neoliberais, económico-libertários, conservadores, reacionários, neoconservadores, anarcocapitalistas, monarquistas, teocratas, nacionalistas, fascistas e nazis." Mais adiante, cita o critério de Klaus von Beine, que definiu o seguinte espectro da esquerda para a direita: "comunismo, socialismo, política verde, liberalismo, democrata cristão, conservador e extrema-direita." Se bem que estas definições sejam discutíveis e tenham como base diversas tendências incluídas, que necessitarão elas próprias de serem definidas, são suficientes para uma ideia geral. Ora, segundo este critério, não me parece que o PSD ou o CDS possam ser classificados como direita, quando muito serão de centro-direita, notando-se mesmo, em certas tomadas de posição, laivos de esquerda.

De resto, como já vi defendido, o espectro político não se pode definir exactamente num eixo, isto é, numa única dimensão; são necessárias pelo menos duas dimensões, que permitem a classificação num plano por meio de uma figura triangular ou quadrangular, como se representa no artigo de Denys Andrade «A “incipiente nebulosa sem forma” dará as cartas na próxima década» (aplicado ao caso brasileiro, mas facilmente adaptado a outras realidades).
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Onde está o Wally, perdão, o Costa?

Já tivemos um Primeiro Ministro que fez greve, com todo o Governo. Mas um Primeiro Ministro que desaparece ou passa à clandestinidade é a primeira vez. O nosso PM foi de férias quando o País estava em pleno rescaldo de uma tragédia e de um desastre. A tragédia de Pedrógão Grande, com numerosos mortos e feridos, está longe de estar esclarecida, não foram ainda identificadas as falhas que permitiram um resultado tão trágico, muito menos conhecidos os responsáveis e traçadas as estratégias para limitar os estragos e evitar a sua eventual repetição. O desastre de Tancos, também sem esclarecimento cabal e sem responsáveis identificados e punidos, deixou o País boquiaberto e os nossos parceiros da OTAN inquietos. Perante estes graves acontecimentos, todos os responsáveis do Estado, dos organismos relacionados com os acontecimentos e dos partidos, tiveram as suas reacções, deram a sua opinião e fizeram as perguntas que se impõem. Todos, menos António Costa. Fala o Presidente da República, fala o Ministro dos Negócios Estrangeiros, que o substituiu durante as férias, falam os dirigentes partidários, falam os comentadores, mas António Costa continua calado. O PM tem direito às suas férias, como todos os trabalhadores. Mas, tendo em conta as suas responsabilidades superiores e a especial ocasião, teria, como é normal para qualquer trabalhador, de adiar ou mesmo interromper as férias para acompanhar ou dirigir superiormente as diligências em curso. Mas ainda pior é, depois de noticiado o fim das férias e o seu regresso ao País, continuar desaparecido. É certo que logo a seguir ao fim das férias veio o fim-de-semana, que também é sagrado para os trabalhadores. É sagrado, excepto, em ocasião de crises,  para aqueles que têm responsabilidades superiores, como é o caso de um Primeiro Ministro. Mas António Costa continua sem aparer. Nem uma notícia sobre o seu paradeiro, as suas acções, nem sequer sobre as suas declarações. Ao que parece não declarou nada. O País ardeu, foi assaltado, mas o PM não tem nada a dizer e parece que nada tem a fazer. Que se passa? Estará doente, internado clandestinamente em estado grave sem poder falar? Terá sido sequestrado? Estará escondido com medo das granadas furtadas? Todas as hipóteses são válidas. Espero ansiosamente por Segunda-feira para ver se finalmente aparece. Caso contrário, teremos de iniciar buscas.


quarta-feira, 5 de julho de 2017

Autárquicas

O Observador publicou um amplo conjunto de cartazes de propaganda eleitoral para as próximas autárquicas. Não sei que influência terão no resultados das eleições, mas terão certamente como resultado muitos sorrisos e até algumas gargalhadas. Nos tempos conturbados por que passamos, bem precisamos. Eis o que me parece o melhor exemplo:


Só faltava gozarem connosco

Para completar o desprestígio internacional de Portugal, faltava, além dos acontecimentos em si, da má coordenação frente a uma calamidade, que se transformou em tragédia, e da falta de segurança em instalação militar, faltava, dizia eu, um artigo irónico e mesmo galhofeiro na imprensa internacional sobre o caso de Tancos, de que tive conhecimento pela referência no Delito de Opinião. O pior é que é óbvio que estamos mesmo a merecer a ironia e a galhofa. Espero que, no remanso da praia espanhola onde tenta bronzear-se, o Primeiro Ministro não leia o El País, porque poderia sofrer um choque injusto para quem goza de umas férias bem merecidas.

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Quebras de segurança

A meu ver, o Ministro da Defesa, Azeredo Lopes, cometeu um erro de apreciação de palmatória ao considerar que, a seu ver, o caso do furto de material militar dos paióis de Tancos, "não corresponde à maior quebra de segurança do século ... Há quebras e falhas de segurança muito superiores. (...) Nem é preciso evocar os trágicos acontecimentos que têm varrido o continente". Não sei a que falhas "muito maiores" e a que "acontecimentos trágicos" se referia, mas não tenho conhecimento destes factos. Se estava a considerar os ataques terroristas que têm resultado em números de vidas perdidas realmente trágicos, errou o alvo, porque ainda não sabemos, e provavelmente nunca viremos a saber, qual o número de mortos que resultará do uso do material ora furtado. O desaparecimento do material em si é um "acontecimento trágico" potencial e provável, de dimensão impossível de determinar e mesmo difícil de estimar, mormente em número de mortos possíveis resultantes. Por isso, não tem qualquer sentido fazer comparações de falhas maiores ou menores. Talvez venhamos a lamentar acontecimentos trágicos enormes, mesmo que possam ser geograficamente afastados.

Medina Carreira

A inesperada notícia da morte de Henrique Medina Carreira deixou-me muito triste, não só porque o apreciava enquanto homem honesto e frontal, como também porque perdemos mais um dos economistas da velha guarda que, sem menosprezo dos jovens, possuíam uma visão global e uma perspectiva histórica que eu apreciava nas suas intervenções. Medina Carreira foi, muitas vezes e desde há muito tempo, a voz que clamava no deserto, denunciando as más políticas e avisando para os perigos dos erros cometidos, que foram muitos. Vai fazer falta.

sábado, 1 de julho de 2017

Material militar furtado

Temo que, pelo pouco ou nada que se sabe das investigações que deverão estar em curso, quando houver notícias sobre o material furtado, sejam notícias que ninguém desejaria. Mas pelo menos sabemos que, segundo o Ministro, que é responsável politicamente como o próprio admitiu, não fio "a maior quebra de segurança deste século em toda a UE”. Portanto, se não podemos ficar descansados e seguros de que não seremos vítimas dum ataque, seja criminoso ou terrorista, podemos pelo menos ficar felizes por ter havido (onde? quando?) quebras de segurança ainda piores.

E, como se salienta muito bem no Blasfémias, os responsáveis políticos, para não falar nos responsáveis directos, são pagos com os nossos impostos; quer dizer, pagamos-lhes para nos prestarem os serviços que não estão a resultar.

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Apetência por sangue

Não sei se a Ministra estaria a pensar em vampiros quando referiu que "o caminho mais fácil a seguir, ia satisfazer uma certa apetência que alguns têm pelo sangue", para justificar que recusou pedir a demissão, prometendo, contudo "tirar as devidas ilações" das conclusões do inquérito que se deverá fazer às ocorrências durante o incêndio de Pedrógão Grande. Quem serão esses alguns com esse apetite vampiresco? A quem se referiria a Ministra? Num ambiente generalizado de desresponsabilização e desculpa, tenho ouvido algumas vozes a exigir  que se saiba o que se apssou, se ouve ou não falhas, falsas informações, demoras injustificadas, que se apure a verdade sem medo, que se responsabilizem os responsáveis, mas nada destas exigências pode ser apelidada de "caça às bruxas" e muito menos de "apetência de sangue". Melhor seria a Ministra ter mais cuidado com a língua (e já agora que cuide o seu português e não diga que "haviam mais Guardas [GNR]).

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Desculpas

Leio no roda-pé de notícias do uma TV que Theresa May pediu desculpas pelo deficiente combate ao incêndio da Torre Grenfell. Falta um pequeno pormenor: que o pedido seja extensivo às deficientes regras anti-incêndio da construção civil, nomeadamente no que se refere ao risco de isolamento exterior de prédios inflamável. De qualquer modo, fico à espera que António Costa se resolva a seguir o exemplo da sua homóloga britânica.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Quando tudo a correr bem dá mau resultado

aqui referi o disparate que é tentar desculpar um mau resultado, ou mesmo uma tragédia, afirmando que todas as regras foram cumpridas, nomeadamente as regras de segurança. No trágico caso do incêndio de Pedrógão Grande ocorre qualquer coisa de semelhante: Na noite de Sábado, dia do início do incêndio, já tinham morrido 19 pessoas ("três pessoas morreram na estrada que liga Figueiró dos Vinhos a Castanheira de Pêra devido à inalação de fumos e 16 ficaram carbonizadas no interior das suas viaturas, cercadas pelas chamas"), presume-se que na estrada 236-1 (já chamada estrada da morte), onde continuaram a morres pessoas, ao todo 47, algumas das quais voltavam da praia fluvial para as suas casas e outras que pretendiam exactamente fugir do fogo. O número total de mortos, contabilizado até hoje, foi de 64. Há também queixas de que o alarme foi dado por meio de chamadas para os bombeiros por parte de habitantes de aldeias que se sentiam ameaçados por um incêndio em início, mas que o socorro demorou horas. No Sábado à noite, já com as 19 mortes confirmadas, ouvi anunciar que havia mais de uma centena de bombeiros a combater as chamas e que se pensava necessário pedir auxílio a bombeiros de outras paragens. Tanto que esta necessidade era real, que no Domingo de manhã já se falava em 488 bombeiros e ao fim do dia em mais de 1000, o que mesmo assim não foi suficiente para um combate capaz de dominar o incêndio, que entretanto se expandira enormemente. Ontem já eram quase 2000. Todas estas circunstâncias levam-nos a pensar que algo correu muito mal. No entanto, os responsáveis pelos diversos serviços intervenientes, bombeiros, elementos da Protecção Civil, guardas da GNR, e responsáveis governamentais com a tutela destes serviços, asseguram que foi feito o máximo possível, no que tiveram, desde a primeira hora, o forte apoio do Presidente da República. A culpa foi das circunstâncias: o calor, a trovoada seca, o vento, as características da floresta. A estrada 236-1 não foi cortada ao trânsito no momento certo para evitar mortes porque a progressão de fogo que transformou esta via numa armadilha mortal se deu de forma "totalmente inesperada, inusitada e assustadoramente repentina".

Ora, algumas das circunstâncias referidas vão, certamente repetir-se: calor, vento, floresta desordenada e sem limpeza estarão presentes em várias ocasiões no Verão que se iniciou hoje e nos próximos verões. Progressão de fogo de forma inesperada e inusitada, por muito extraordinário que seja, poderá também repetir-se. Então, conclui-se que as estratégias adoptadas e as medidas recomendadas não são suficientes para evitar tragédias como esta. É urgente, portanto estudar em pormenor o que se passou, saber o que falhou e, mesmo que nada tenha falhado à luz das regras recomendadas, como se pode evitar que circunstâncias semelhantes levem aos mesmos resultadas trágicos.