terça-feira, 6 de novembro de 2012

João Salgueiro

Na entrevista dada por João Salgueiro no programa Portugal 2012 na SIC-N ouvimos algumas das mais clarividentes observações sobre a economia portuguesa. O comentário que mais me chamou a atenção, feito em resposta a uma pergunta de António José Teixeira sobre se achava que o Governo tinha condições para continuar, foi o seguinte: "O actual Governo tem uma excelente condição para continuar: é que ninguém quer ir para lá." Pois é: Por muitos erros e omissões que os membros do actual Governo façam, temos de lhes reconhecer que só por patriotismo se aguentam no seu posto. Bem pode Mário Soares pedir que o Governo se demita. Quem quereria ir para lá nas actuais condições?

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Grande descoberta!

Com grande alegria, li no Insurgente que tinha sido descoberta a saída do País para a crise:

«Está encontrada a solução para os problemas do país: PS e CGTP defendem novo modelo económico que promova crescimento e coesão
“Existe grande convergência entre nós, a CGTP e a UGT relativamente à necessidade de uma estratégia de crescimento e ao facto de que qualquer sociedade precisa de coesão social”, disse o líder socialista.
Como é que ninguém pensou nisto antes?»

Espero bem que, patrioticamente, Seguro tenha dado todos os pormenores desta extraordinária estratégia na reunião que teve hoje com o Primeiro Ministro e não guarde segredo para a aplicar só quando for governo.

Não ao Estado low-cost

António José Seguro afirmou que o Governo não pode contar com o PS para criar o Estado low-cost. Por consequência, defende um Estado high-cost, o que não é novidade, aliás no seguimento do very high-cost de Sócrates. Só não sei onde vai Seguro arranjar dinheiro para este elevado cost.

domingo, 4 de novembro de 2012

Novilíngua

Um dos maiores perigos da adopção do acordo ortográfico (que continuo a escrever com minúsculas, visto não lhe atribuir importância de maiúsculas, isto para não lhe chamar Aborto Ortográfico ou Desacordo Ortográfico) é uma possível e até talvez provável deriva de pronúncia como consequência da anulação das consoantes não pronunciadas que marcam vogais abertas que não pertencem à sílaba tónica (como em actor - ator, por exemplo). Temo bem que, com o tempo, haja tendência para vir a pronunciar estas vogais como mudas, alterando não só a ortografia, mas a própria pronúncia, o que em muitos casos pode dar lugar a confusões. Acontece que existem muitas palavras com terminação semelhante, mas que não possuem a consoante não pronunciada e em que a respectiva vogal é muda, diferentemente das palavras em que o acordo manda agora suprimir a consoante.

Para melhor compreensão do problema, apresento em seguida um pequeno quadro com alguns exemplos:

ortografia actual    segundo o a.o.    palavras com terminação semelhante, mas em que a vogal anterior à                                                        sílaba tónica é muda
actor                     ator                    estivador, motivador
sector                   setor                   cobertor, regedor, devedor,  corretor
corrector              corretor               idem
director                diretor                 idem
preceptor             precetor              idem
directora              diretora               agressora, devedora,
preceptora           precetora            idem
acção                    ação                   formatação, motivação, colação, atribulação, filiação
facção *               fação                 idem
infecção               infeção              tropeção, recessão, concessão
direcção              direção               idem
acepção *           aceção                idem
decepção *         deceção              idem
concepção *       conceção           idem
percepção *        perceção            idem
recepção *          receção              idem
excepção            exceção              idem
aspecto *            aspeto               coreto, carreto espeto, Gepeto, graveto
correcto              correto               idem
dilecto                 dileto                  idem
directo                direto                  idem
espectáculo        espetáculo        hibernáculo, senáculo, tabernáculo
receptáculo         recetáculo         idem
baptizado            batizado            organizado, granizado
baptismo             batismo             fanatismo, tribalismo
factura                fatura                 soldadura, formatura
respectivo *       respetivo           assertivo
objectivo           objetivo              idem
detectar *          detetar                secar
intersectar *       intersetar           estatelar
bissectriz            bissetriz            meretriz
actriz                   atriz                    nariz

* No Brasil conservam a consoante antes do c ou t, porque se pronunciam, mas não em Portugal!

Já basta certas pronúncias incorrectas que começam a ser frequentes não só entre jornalistas e outras pessoas, como vàcina por vacina (“a” mudo), béco por beco (pronúncia bêco). Mesmo antes do acordo era também frequente pronunciar “corrector” para designar quem trabalha na corretagem (de acções ou outros títulos de valores), quando quem faz corretagem é um corretor, quem corrige é um corrector. Se neste caso se tira o “c” as palavras passam a ser homógrafas e haverá inevitavelmente tendência para se tornarem homófonas, estabelecendo a confusão.

Se esta deriva de pronúncia se verificar, teremos uma autêntica “novilíngua”.

Ainda há classe média?

Uma das acusações mais frequentes que é feita à actual política do Governo é de que está a destruir a classe média. Está realmente a classe média a desaparecer? Todos os componentes da classe média estão a ser integrados nos pobres? Não acredito. Está a ser, sem dúvida, a classe mais sacrificada, já que os realmente pobres são em parte poupados ao aumento de impostos, aos cortes nos salários, ao congelamento das pensões e, excepto nos casos de desemprego, são menos sacrificados, e os ricos, embora com grandes perdas nos seus activos e por vezes nos seus rendimentos, pela progressividade dos impostos, pelos maiores cortes em salários altos, pela depreciação do património (incluindo participações sociais), pelas falências, têm em geral melhores condições de aguentar estas perdas ficando ainda em condições confortáveis. A classe média, entalada entre estes dois extremos tem, também pela sua dimensão, a maior quota de sacrifícios e não possui as almofadas que lhe permitam manter um mínimo de conforto.

No entanto há diariamente alguns factos que me fazem duvidar que o grosso da classe média esteja assim tão sacrificada. Ainda ontem 4 notícias me fizeram pensar no assunto: O concerto de Tony Carreira teve lotação esgotada. Um empresário que faz tatuagens não tem mãos a medir. Um grupo de caçadores preparava-se para uma batida a javalis. Em Bragança prepara-se uma feira de caça, pesca e castanha. Será que quem frequenta estes eventos em grande número são apenas pobres ou ricos, já que a classe média está a ser destruída?

sábado, 3 de novembro de 2012

Alberto João, e agora?

A vitória à tangente de Alberto João Jardim nas eleições para a presidência do PSD-Madeira deixa o partido regional com um grande problema: Nas próximas eleições para o Governo da madeira, Jardim já não se poderá apresentar, Albuquerque, derrotado, embora por curta margem, não está também em condições de concorrer. Quem será o candidato do PSD-M e provável próximo Presidente do Governo Regional?

Ao que chegou este país...

Ao que chegou este país! O Parlamento cercado por centenas de manifestantes gritando "Demissão!", alguns exaltados a ponto de, entre insultos, provocarem a polícia, de atirar pedras, garrafas e petardos. Durão Barroso vaiado e insultado por uma dezena de indivíduos à saída de um teatro em Almada. Manifestações de indignados, de trabalhadores, de pensionistas, de militares. Na manifestação diante da AR no dia da votação na generalidade do OE para 2013, as TVs até entrevistaram mascarados. Alguns dos entrevistados, sem máscara, afirmavam com ar calmo que "isto não vai lá sem violência". Já na manifestação da CGTP de 29 de Setembro no Terreiro do Paço, um estivador defendia que "era preciso sangue". No dia 31, frente à AR, todos pediam demissão, mas não sei bem de quem; como estavam à porta do Parlamento, seria de admitir que queriam a demissão dos deputados, mas perece-me que o verdadeiro alvo era o Governo. Em vários cartazes lia-se "O orçamento não passará". Suponho que a maioria dos portadores destes cartazes e dos que gritavam slogans do mesmo tom não terão a mínima ideia das consequências de uma reprovação do orçamento.

Um manifestante afirmava que "O Povo perdeu o medo". Não sei porque razão o Povo havia de ter medo: Vivemos em democracia e ninguém é prejudicado por expressar a sua opinião ou por se manifestar (desde que não atire pedras à polícia, obviamente). Parece-me que, perante os insultos, as ameaças e os apelos à violência o que alguns perderam foi a vergonha e a dignidade, mas esses não são "o Povo", podem pertencer ao Povo, mas são uma pequena parcela desse Povo.