No meu último artigo, parecia que o título não tinha nada que ver com o texto. Tudo porque me esqueci do esquema em que tinha pensado. Concluindo:
Sobre o tema do novo emprego de Maria Luís Albuquerque, houve quem viesse com a célebre frase de Júlio César: "À mulher de César não basta ser honesta, tem de parecer honesta". Talvez no tempo de César a frase se justificasse, mas utilizá-la actualmente na discussão sobre o direito que alguém tem de aceitar um cargo não me parece apropriado. Não se aplica sobretudo no caso da ex-ministra das Finanças. Sendo reconhecido que a aceitação do novo emprego é legal, pode discutir-se, como eu disse, se é ético. Mas havendo no Parlamento uma Comissão de Ética, é lá que se deve discutir o assunto. Não interessa o que parece; tem de se avaliar o que é. A não ser que se concorde com a frase atribuída a Salazar segundo a qual "em política, o que parece é!" Mas finalmente, o que não tem nada que ver com a legalidade, a moralidade e até a conveniência ou não de Maria Luís aceitar o lugar é o salário que irá ganhar, valor que tem sido badalado, aparentemente com o intuito de chocar o cidadão, principalmente o cidadão que ganha pouco. Voltando à mulher de César: Para avaliar a sua honestidade, não interessa se ganhava muito ou pouco, mas sim a sua culpa ou não perante a acusação que sobre ela foi lançada.
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quarta-feira, 9 de março de 2016
terça-feira, 8 de março de 2016
Quanto ganhava a mulher de César?
Nunca o emprego de um ex-ministro ou de um deputado levantou tanta celeuma. Agora discute-se até à agonia o novo emprego de Maria Luís Albuquerque. Não há cão nem gato, nem comentador ou politólogo, nem blog nem órgão de comunicação que não dê amplo espaço à polémica. É o assunto do dia. Muito do que se tem escrito ou dito não merece sequer atenção. Mas há opiniões inteligentes. Destaco as intervenções de Ricardo Arroja n'O Insurgente, de João Miranda e de Vítor Cunha no Blasfémias e de José António Abreu no Delito de Opinião. Como é habitual, estas intervenções traduzem posições diferentes, em certos aspectos mesmo opostas, mas todas são equilibradas e merecem respeito, ao contrário de algumas outras que li ou ouvi por aí. Parece haver unanimidade em reconhecer que, ao aceitar o novo emprego, a ex-ministra e actual deputada não cometeu qualquer ilegalidade. Já as opiniões diferem se o acto foi ou não ético. Tenho alguma dificuldade em afirmar qualquer coisa neste capítulo; a ética está muito longe de ser uma ciência exacta e além disso faltam-me dados para ter uma opinião firme. Mas posso resumir o que penso na seguinte frase de José António Abreu: "Afinal, em que poderá trabalhar um ex-ministro das Finanças se lhe for
vedado o acesso ao sector financeiro? Que cargo poderá aceitar um
ex-ministro da Economia se a gestão de empresas privadas (a ninguém
parece incomodar que possa ir contratar swaps para uma entidade
pública) lhe for interdita? (Pense-se em António Pires de Lima, por
exemplo.) A que actividade poderá dedicar-se um ex-ministro da Justiça
se os escritórios de advocacia (e há imensos negócios cinzentos em torno
deles) constituírem terreno onde não possa entrar?" com a qual concordo plenamente. Mas onde a comunicação social falha, a meu ver de modo populista e demagógica, é ao insistir em explicar em pormenor quanto vai ganhar Maria Luís no novo emprego e quanto recebe ao todo somando o seu novo salário com o de deputada. Não que eu veja mal na divulgação em si, estes dados não são secretos e não devem ser tabu. Mas a sua divulgação repetida e em pormenor dá a entender que o principal problema não é nem ordem legal nem ética, mas sim de ordem económica, procurando sentimentos de inveja e mesmo de reprovação repulsa pelos rendimentos avultados. Não, não é aí que reside o problema. Se não é este o fim desta parte das notícias sobre o assunto, então é o miserabilismo militante que de vez em quando vem ao de cima.
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