COMENTÁRIOS SOBRE ACONTECIMENTOS DO DIA A DIA E DIVAGAÇÕES SOBRE EXPERIÊNCIAS PESSOAIS
domingo, 30 de março de 2014
Menos desinformação, mas alguma
As notícias sobre a segunda volta das eleições municipais francesas pareceram-me, de um modo geral, mais correctas do que as da primeira volta, embora não possa concordar com a pouca importância que os 3 canais generalistas nacionais lhe deram nos noticiários das 20 h, remetendo-as para depois de todos os pormenores de informação sobre temas secundários, como operações stop e opiniões de Seguro. Além disso o tema foi tratado rapidamente e não com o relevo que, em minha opinião, mereceria. Mais grave foi o caso da Euronews, que salientou a "vitória" do Front National e o desastre do PSF, mas não acrescentou nem uma palavra sobre o partido que afinal ganhou as eleições, com mais votos, mais eleitos e mais câmaras (a UMP). Lapso ou esquecimento propositado?
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eleições municipais francesas
quarta-feira, 26 de março de 2014
As eleições municipais francesas e a desinformação
Deixei passar uns dias desde primeira volta das eleições municipais francesas do último domingo não só por preguiça para escrever mas também para ter a certeza do que desconfiei desde Segunda de manhã: A comunicação social não soube ou não quis informar rigorosamente os resultados desta jornada. Tivesse sido um torneio de futebol e teríamos tido numerosos programas e reportagens, comentadores e especialistas a escalpelizarem os resultados. Mas toda a informação foi escassa, atrasada e incompleta. Vejamos:
As notícias focaram principalmente o avanço da extrema direita de Marine Le Pen, quer nos textos, quer nas imagens. Claro que este avanço, se bem que já esperado, foi digno de ser salientado. Mas chegar a omitir os resultados de outras formações para referir apenas a boa classificação do Front National não é certamente dar uma informação completa. Afinal, o Front National cresceu muito, mas a partir de uma base muito baixa, e ficou ainda muito aquém dos resultados dos principais partidos. Parece que o objectivo de salientar de tal modo a "vitória" da extrema direita era meter medo dum regresso do fascismo a países democráticos, fazendo temer a fragilidade da democracia.
Em segundo lugar, em muitas notícias os resultados da UMP foram omitidos. Nas notísias mais pormenorizadas, os resultados mais citados foram baseados nas primeiras projecções, que davam uma pequena diferença entre a UMP (47%) e o PSF (41%) e um crescimento do FN (7%) que não se confirmou, e não rectificaram posteriormente esses resultados, que afinal se afastavam dos finais. O Ministério do Interior francês divulgou, ainda no Domingo à noite, os dados globais e finais: Extrema esquerda: 0,58%; Esquerda: 37,74%; Direita: 46,54%, Extrema direita: 4,65%. Portanto a derrota da esquerda foi muito maior do que o anunciado com base em dados prematuros e o crescimento da extrema direita foi muito inferior ao inicialmente estimado, pouco mais de metade da projecção largamente noticiada. Os resultados oficiais estavam acessíveis para quem quisesse, mas, por exemplo o Expresso, às 21:48 de Domingo ainda só dava a projecção atrasada.
Espero que na segunda volta a informação seja mais completa e mais exacta.
As notícias focaram principalmente o avanço da extrema direita de Marine Le Pen, quer nos textos, quer nas imagens. Claro que este avanço, se bem que já esperado, foi digno de ser salientado. Mas chegar a omitir os resultados de outras formações para referir apenas a boa classificação do Front National não é certamente dar uma informação completa. Afinal, o Front National cresceu muito, mas a partir de uma base muito baixa, e ficou ainda muito aquém dos resultados dos principais partidos. Parece que o objectivo de salientar de tal modo a "vitória" da extrema direita era meter medo dum regresso do fascismo a países democráticos, fazendo temer a fragilidade da democracia.
Em segundo lugar, em muitas notícias os resultados da UMP foram omitidos. Nas notísias mais pormenorizadas, os resultados mais citados foram baseados nas primeiras projecções, que davam uma pequena diferença entre a UMP (47%) e o PSF (41%) e um crescimento do FN (7%) que não se confirmou, e não rectificaram posteriormente esses resultados, que afinal se afastavam dos finais. O Ministério do Interior francês divulgou, ainda no Domingo à noite, os dados globais e finais: Extrema esquerda: 0,58%; Esquerda: 37,74%; Direita: 46,54%, Extrema direita: 4,65%. Portanto a derrota da esquerda foi muito maior do que o anunciado com base em dados prematuros e o crescimento da extrema direita foi muito inferior ao inicialmente estimado, pouco mais de metade da projecção largamente noticiada. Os resultados oficiais estavam acessíveis para quem quisesse, mas, por exemplo o Expresso, às 21:48 de Domingo ainda só dava a projecção atrasada.
Espero que na segunda volta a informação seja mais completa e mais exacta.
terça-feira, 25 de março de 2014
A falta que faz um "c"
Já havia bastante confusão entre "correctores" (o que corrige) e "corretores" (o que trabalha em corretagem, ou seja, «age como intermediário em negócios particulares, especialmente aqueles que envolvem compra e venda de bens ou acções na bolsa de valores» [Dicionário Houaiss]), mas quem soubesse de ortografia podia distinguir as duas palavras pela presença do "c" em "correctores", o qual que servia para se saber que o "e" era aberto, isto é, se pronunciava como "é", ao contrário do "e" de "corretores" que é mudo, isto é, pronuncia-se como o "e" da palavra "de". Mas é evidente que o acordo ortográfico de 90 veio ainda aumentar a confusão: Agora, segundo este aborto ortográfico, as palavras passaram a ser homógrafas e, quando se pretende ler a palavra é preciso saber se serve para corrigir ou para corretar. Não sabe disto o jornalista da SIC que há dias, na notícia de que havia companhias que se dedicavam à venda de dados pessoais, lhes chamou "correctores" com "e" aberto e repetiu mais adiante a asneira, como se essas companhias corrigissem alguma coisa.
Os cortes de 2015
Vai por aí uma grande controvérsia sobre quanto e como é que o Governo vai cortar em 2015. O PS acusa o Governo de ter uma agenda escondida, mas sabe que os cortes serão da ordem de 2000 milhões de euros. O PCP não sabe quanto se cortará, mas sabe que os sacrificados serão os mesmos do costume. Marques Mendes arvorou-se outra vez em porta-voz não oficial do Governo e soube que o assunto foi discutido em conselho de ministros e que o corte será entre 1500 e 1700 milhões. Mas todos deploram estes cortes. Não consigo compreender o porquê de tanto alarido. Há muito que toda a gente sabe que de 2014 para 2015 o défice deve descer de 4% para 2,5%. Portanto não é preciso ser muito esperto nem saber muito de matemática para ter uma ideia de quanto terá de se reduzir na despesa ou aumentar na receita do Estado para conseguir esta baixa. As possibilidades de aumento de receita são muito reduzidas e portanto é na redução da despesa que vai residir a maior parte do ajustamento. A comunicação social decidiu designar como "cortes" qualquer redução de despesa. Os cortes serão pois inevitáveis e desde há muito previsíveis. Se serão da ordem de 2000 ou entre 1500 e 1700 milhões é questão de pormenor. A única incógnita é sobre que despesas cairão estes cortes. Claro que todos gostaríamos de ver esta incógnita levantada o mais cedo possível, mas é natural que não seja nos primeiros meses de 2014 que se poderá saber pormenores do orçamento para 2015. Sejam os cortes em salários, em pensões ou noutras rubricas, o certo é que, reduzindo o Estado os seus gastos, haverá menos dinheiro na economia. Quem duvida?
segunda-feira, 17 de março de 2014
Ainda a reestruturação da dívida
Uma explicação muito completa e dada com simplicidade dos possíveis modos de reestruturação, que mostra claramente a equivalência em termos de valor actual dum título de dívida de diversos modos de reestruturar é dada no blog A Destreza das Dúvidas por Luís Aguiar-Conraria. Esta explicação torna mais evidente a afirmação feita no Survey do FMI citado por mim a partir dda citação de Ferreira de Almeida no Quarta República de que «a cut in face value (debt reduction) … [and] a lengthening of
maturities (debt rescheduling) … both types of debt operations can
involve a “haircut,” i.e., a loss in the present value of creditor
claims.»Conraria repete esta afirmação dum modo mais completo e mais compreensível: «Haircuts, reestruturações, alargamento de prazos, perdões de dívida e reduções de juros é tudo a mesma conversa. No fundo, é um default ou incumprimento (parcial) da nossa dívida. Chamar-lhes um nome diferente, qualquer ele que seja, é um mero eufemismo.» Ora nem mais.
domingo, 16 de março de 2014
Falar bem, falar mal português
Muito se tem falado do malfadado acordo ortográfico (que insisto em escrever com minúsculas, já que não lhe reconheço estatuto para maiúsculas). Mas nem uma palavra ao problema da má pronúncia da língua portuguesa, e não me refiro à pronúncia brasileira ou a qualquer outra dos países da CPLP mas sim de verdadeiras incorrecções de linguagem. Refiro-me ao modo como se fala português nas TVs.
Vejamos alguns exemplos: Na TVI em 2014-02-21 no Jornal Nacional: "Quando é cacaba? - ou - Quando é q'acaba?" Noutro canal não identificado: "Crescem os sinais de canível da UE ..." - (que a nível). Na TVI24 em 2014-03-03: "Pistorius diz cucacontece... " (que o que acontece). O próprio Marcelo Rebelo de Sousa, no dia 2014-03-09: "Quem é capoia..." (que apoia).
O verbo haver é alvo de contínuos assassinatos. Há pouco ainda na TVI: "Estima-se que hajam 15000 pessoas com sindroma de Down." Será mesmo que hão 15000?
Vejamos alguns exemplos: Na TVI em 2014-02-21 no Jornal Nacional: "Quando é cacaba? - ou - Quando é q'acaba?" Noutro canal não identificado: "Crescem os sinais de canível da UE ..." - (que a nível). Na TVI24 em 2014-03-03: "Pistorius diz cucacontece... " (que o que acontece). O próprio Marcelo Rebelo de Sousa, no dia 2014-03-09: "Quem é capoia..." (que apoia).
O verbo haver é alvo de contínuos assassinatos. Há pouco ainda na TVI: "Estima-se que hajam 15000 pessoas com sindroma de Down." Será mesmo que hão 15000?
sábado, 15 de março de 2014
Reestruturar ou não reestruturar, eis a questão
Não sei qual era o montante da dívida pública da Dinamarca no tempo do príncipe Hamlet, nem o da Inglaterra no tempo de Shakespeare. Até é possível que ninguém o saiba ao certo. Mas a questão hoje já não é “Ser ou não ser” sem mais, é “Ser ou não ser sustentável” ou, dito de outra maneira, reestruturar ou não reestruturar. O manifesto dos 70 teve o mérito de fazer agitar as águas e levar algumas pessoas a interessar-se por outros assuntos que não sejam futebol. Há muito que não havia tanta repercussão mediática e bloguística sobre um assunto realmente importante. Não me atrevi a dar uma opinião pessoal sobre o assunto até ter oportunidade de ler o manifesto na íntegra. Nessa altura verifiquei que já ia atrasado e que já toda a gente ou quase se tinha manifestado sobre o manifesto. Assim, decidi fazer uma pequena antologia das intervenções que me pareceram mais acertadas. O resultado exprime a minha opinião.
Em primeiro lugar, Tavares Moreira, no Quarta República defende que «avançar uma proposta de reestruturação sem antes ou simultaneamente cuidar de apresentar um projecto sério de Reforma do Estado parece-me algo de semelhante à velha ideia de “por o carro à frente dos bois”, suscitando um elevado risco de “moral hazard”» e que «os efeitos de uma iniciativa de reestruturação da divida tal como é sugerida pelo Manifesto, acabariam por ser totalmente opostos aos enunciados pelos seus ilustres subscritores...»
Outras intervenções no Quarta República juntaram argumentos à discussão. Pinho Cardão, por exemplo, num texto bem elaborado, lembra que «Nenhuma reestruturação é eficaz se não der prioridade ao equilíbrio económico.» e que a reestruturação abrangeria Certificados de Aforro e Certificados do Tesouro detidos por particulares, para além de fundos da Segurança Social e de bancos.
Ainda no Quarta República, Ferreira de Almeida recomenda a leitura do documento do FMI “Sovereign Debt Restructurings 1950–2010: Literature Survey, Data, and Stylized Facts” que considera «elucidativo em muitos aspectos.» Não li e não sei se alguma vez chegarei a ler as 128 páginas deste documento, mas procurei os capítulos mais pertinentes para o caso português e dei com dois aspectos que me parecem muito importantes.Defende o FMI que «a cut in face value (debt reduction) … [and] a lengthening of maturities (debt rescheduling) … both types of debt operations can involve a “haircut,” i.e., a loss in the present value of creditor claims.» Muito claro: a reestruturação que o manifesto defende é considerada pelo FMI um haircut, pois, como explica mais adiante, «most market observers use a present value approach to calculate the scope of creditor losses (or “haircut”) implied in a debt exchange». No mesmo documento lê-se: «Debt restructurings can have drastic adverse consequences for economic growth, trade, capital flows, banks and other financial institutions.» É difícil ser mais claro. Não admira, portanto, que o FMI se tenha agora pronunciado contra a solução defendida pelos 70. Suponho mesmo que, se algum dos 70 tivesse tido acesso ao documento do FMI antes de assinar o manifesto, se teria abstido de o fazer.
Mário Amorim Lopes publicou também n’O Insurgente um Manifesto por um Orçamento Equilibrado que teve um êxito que surpreendeu o próprio promotor, tendo atingido até agora a bonita soma de 592 subscritores. Este outro manifesto rebate ponto por ponto os argumentos a favor da reestruturação defendidos pelos 70.
No mesmo blog, Rodrigo Adão da Fonseca juntou alguns argumentos pertinentes, como a reestruração não depender da vontade dos portugueses, de parte substancial da dívida estar em mãos nacionais e finalmente que reestruturar equivale a adiar as reformas.
No Corta Fitas, José Mendonça da Cruz conclui que «Ferreira Leite, Capucho, Bagão e António Saraiva querem um programa socialista e estatizante» e lamenta a «triste companhia...», fazendo ainda notar que o manifesto ignore ou desvalorize «todas … as melhorias dos indicadores. Ignora a descida do défice, a diminuição do desemprego e o aumento do emprego; ignora o aumento persistente das exportações; ignora a novidade do saldo positivo da balança comercial -- uma novidade de décadas; ignora o saneamento das empresas públicas de transportes e outras; ignora a queda das taxas de juro para níveis baixos recorde; ignora a racionalização dos gastos na saúde e na justiça; ignora a contenção salarial; ignora, convenientemente, a acção do ministério das Finanças e do IGCP» e conclui que o desejo dos signatários é que «os estrangeiros que paguem a crise». Vasco Lobo Xavier mostra que a comparação da situação actual de Portugal com a da Alemanha do pós-guerra é disparatada.
Mais recentemente, e saindo do mundo da blogosfera, José Gomes Ferreira escreveu uma carta, publicada na página da SIC-Notícias, dirigida a «João Cravinho, Manuela Ferreira Leite, Bagão Félix, Ferro Rodrigues, Sevinate Pinto, Vitor Martins e demais subscritores do manifesto», em que apresenta as previsíveis consequências de se tentar negociar uma reestruturação da dívida e lembra que «Portugal já fez e continua a fazer uma reestruturação discreta da nossa dívida pública», carta esta que originou ainda mais comentários e respostas.
Por tudo isto, e muito mais que poderia acrescentar, abstenho-me de comentar o manifesto dos 70 (que afinaL são 74, ao que parece), já que as razões que poderia apresentar para a minha profunda discordância já foram mais que debatidas. Limito-me a dizer que apenas o facto de estarem entre os subscritores Louçã e Boaventura Sousa Santos deveria ter sido suficiente para pessoas como Manuela Ferreira Leite desconfiarem e não associar o seu nome a esta manobra.
Em primeiro lugar, Tavares Moreira, no Quarta República defende que «avançar uma proposta de reestruturação sem antes ou simultaneamente cuidar de apresentar um projecto sério de Reforma do Estado parece-me algo de semelhante à velha ideia de “por o carro à frente dos bois”, suscitando um elevado risco de “moral hazard”» e que «os efeitos de uma iniciativa de reestruturação da divida tal como é sugerida pelo Manifesto, acabariam por ser totalmente opostos aos enunciados pelos seus ilustres subscritores...»
Outras intervenções no Quarta República juntaram argumentos à discussão. Pinho Cardão, por exemplo, num texto bem elaborado, lembra que «Nenhuma reestruturação é eficaz se não der prioridade ao equilíbrio económico.» e que a reestruturação abrangeria Certificados de Aforro e Certificados do Tesouro detidos por particulares, para além de fundos da Segurança Social e de bancos.
Ainda no Quarta República, Ferreira de Almeida recomenda a leitura do documento do FMI “Sovereign Debt Restructurings 1950–2010: Literature Survey, Data, and Stylized Facts” que considera «elucidativo em muitos aspectos.» Não li e não sei se alguma vez chegarei a ler as 128 páginas deste documento, mas procurei os capítulos mais pertinentes para o caso português e dei com dois aspectos que me parecem muito importantes.Defende o FMI que «a cut in face value (debt reduction) … [and] a lengthening of maturities (debt rescheduling) … both types of debt operations can involve a “haircut,” i.e., a loss in the present value of creditor claims.» Muito claro: a reestruturação que o manifesto defende é considerada pelo FMI um haircut, pois, como explica mais adiante, «most market observers use a present value approach to calculate the scope of creditor losses (or “haircut”) implied in a debt exchange». No mesmo documento lê-se: «Debt restructurings can have drastic adverse consequences for economic growth, trade, capital flows, banks and other financial institutions.» É difícil ser mais claro. Não admira, portanto, que o FMI se tenha agora pronunciado contra a solução defendida pelos 70. Suponho mesmo que, se algum dos 70 tivesse tido acesso ao documento do FMI antes de assinar o manifesto, se teria abstido de o fazer.
Mário Amorim Lopes publicou também n’O Insurgente um Manifesto por um Orçamento Equilibrado que teve um êxito que surpreendeu o próprio promotor, tendo atingido até agora a bonita soma de 592 subscritores. Este outro manifesto rebate ponto por ponto os argumentos a favor da reestruturação defendidos pelos 70.
No mesmo blog, Rodrigo Adão da Fonseca juntou alguns argumentos pertinentes, como a reestruração não depender da vontade dos portugueses, de parte substancial da dívida estar em mãos nacionais e finalmente que reestruturar equivale a adiar as reformas.
No Corta Fitas, José Mendonça da Cruz conclui que «Ferreira Leite, Capucho, Bagão e António Saraiva querem um programa socialista e estatizante» e lamenta a «triste companhia...», fazendo ainda notar que o manifesto ignore ou desvalorize «todas … as melhorias dos indicadores. Ignora a descida do défice, a diminuição do desemprego e o aumento do emprego; ignora o aumento persistente das exportações; ignora a novidade do saldo positivo da balança comercial -- uma novidade de décadas; ignora o saneamento das empresas públicas de transportes e outras; ignora a queda das taxas de juro para níveis baixos recorde; ignora a racionalização dos gastos na saúde e na justiça; ignora a contenção salarial; ignora, convenientemente, a acção do ministério das Finanças e do IGCP» e conclui que o desejo dos signatários é que «os estrangeiros que paguem a crise». Vasco Lobo Xavier mostra que a comparação da situação actual de Portugal com a da Alemanha do pós-guerra é disparatada.
Mais recentemente, e saindo do mundo da blogosfera, José Gomes Ferreira escreveu uma carta, publicada na página da SIC-Notícias, dirigida a «João Cravinho, Manuela Ferreira Leite, Bagão Félix, Ferro Rodrigues, Sevinate Pinto, Vitor Martins e demais subscritores do manifesto», em que apresenta as previsíveis consequências de se tentar negociar uma reestruturação da dívida e lembra que «Portugal já fez e continua a fazer uma reestruturação discreta da nossa dívida pública», carta esta que originou ainda mais comentários e respostas.
Por tudo isto, e muito mais que poderia acrescentar, abstenho-me de comentar o manifesto dos 70 (que afinaL são 74, ao que parece), já que as razões que poderia apresentar para a minha profunda discordância já foram mais que debatidas. Limito-me a dizer que apenas o facto de estarem entre os subscritores Louçã e Boaventura Sousa Santos deveria ter sido suficiente para pessoas como Manuela Ferreira Leite desconfiarem e não associar o seu nome a esta manobra.
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