terça-feira, 30 de outubro de 2012

O estranho caso das bactérias marcianas

Vi há dias na SIC a notícia sensacional de que em "Cabeço de Vide [Alentejo] "em 2008 foi detectada uma bactéria também detectada no planeta Marte" e que a "vida na Terra pode ter começado numa vila alentejana". Pareceu-me uma reportagem absolutamente disparatada e sem fundamento, tudo se resumindo ao interesse da NASA na análise de água de umas termas locais pelas características geológicas do local e a especulações sobre o assunto. Mas agora (Domingo, dia 28) a TVI24 emitiu uma reportagem em tudo semelhante repetindo a notícia de que em Cabeço de Vide tinha sido encontrada "a mesma bactéria recolhida em Marte". Bactérias recolhidas em Marte? Quem foi lá recolhê-las? Terá sido um dos veículos robôs americanos? Mas como enviou a amostra de bactérias para a Terra? E porque não foi dada a notícia sensacional e só é divulgada agora a propósito de Cabeço de Vide?

Resolvi fazer uma pequena investigação na internet sobre a possibilidade de ter sido descoberta vida bacteriana em Marte. Descobri realmente que tinham sido divulgadas notícias datadas de 2009 sobre esta descoberta. Curiosamente detectei 62 notícias todas provenientes do Brasil e exactamente com a mesma redacção, que refere a divulgação, pelo "pesquisador Niel Darvin do JPL" da descoberta de bactérias em Marte,  que seria descrita em pormenor na "revista Natura". Também curiosamente as ligações (links) do texto da tecnoclasta não conduziram a nada. Segui então duas pistas: 1) Procurar pelo nome do técnico citado nas notícias: Niel Darvin; 2) Procurar no sítio da NASA alguma referência a vida em Marte; 3) Procurar todas as referências sobre vida em Marte, bactérias em Marte ou qualquer relação de Cabeço de Vide ou do Alentejo a Marte. 4) Procurar qualquer referência a vida em Marte ou a Niel Darvin numa revista chamada "Natura" ou na Nature. Os resultados foram os seguintes:

1) O nome deste pesquisador não aparece referido nem no sítio do Jet Propulsion Laboratory nem na net em geral, a não ser nas 62 notícias iguais referidas com redacção idêntica e provenientes do Brasil, sem confirmação nas ligações propostas.

2) São raras e apenas hipotéticas as referências no sítio da NASA a vida em Marte. O que se aproxima mais do pretendido refere-se a cristais de magnetite encontrados num meteorito proveniente de Marte que, pelas suas características, se pensa requererem uma "intervenção biológica para explicar a sua presença".

3) Nada consta sobre qualquer confirmação por parte da NASA de bactérias em Marte. O que encontrei foi uma série de desmentidos em comentários às notícias da SIC e da TVI aqui, aqui e principalmente aqui.

4) Não parece existir qualquer revista científica chamada Natura. Admitindo que se pode tratar de um lapso e se refira à Nature, a busca foi estendida e esta revista. No sítio da Nature não consegui encontrar qualquer referência a assuntos relacionados com a descoberta de vida em Marte, com Niel Darvin ou Niel Darwin  ou com Cabeço de Vide ou o Alentejo.

Conclusão: Completo disparate. Como é possível que jornalistas profissionais, directores de informação e chefes de redacção (se é que os há; antigamente havia nos jornais) deixem emitir notícias com tão pouco fundamento?

domingo, 28 de outubro de 2012

Reindustrialização

As jornadas parlamentares conjuntas dos partidos da coligação que decorreram na Sexta-feira e no Sábado passados tiveram pelo menos o mérito de podermos ouvir os vários ministros a expor o que foi feito e o que tencionam fazer cada qual no seu ministério, para além do discurso final do Primeiro Ministro que esclareceu também a ideia do rumo a seguir. Se nada mais tivesse ouvido, valeu a pena só para assistir à declaração do Ministro Álvaro Santos Pereira de que a reindustrialização é um desígnio nacional e que a Europa planeia incentivar a reindustrialização, estando Portugal na primeira linha.

Trabalhei a maior parte da minha vida profissional na Indústria e, quando mudei para o sector terciário, foi para serviços prestados à Indústria. Ao longo dos anos assisti à desindustrialização da Europa e particularmente de Portugal com pena e preocupação. Agora, que, não só a Europa, mas o Ocidente depende da fábrica do mundo que é a China, sei que não é fácil inverter a tendência que foi arvorada em desígnio de deixar o sector primário para uma pequena minoria, deixar minguar o sector secundário e fazer crescer o terciário desmesuradamente, mas se for verdade que há planos de incentivar a reindustrialização já é uma boa notícia.

sábado, 27 de outubro de 2012

Mistério

É para mim um mistério porque é que ainda há quem ache útil entrevistar Mário Soares. Hoje (26) não consegui ver por completo a conversa que teve com Maria Flor Pedroso, simplesmente porque não aguentei tanto disparate. Bastou-me ouvir Soares repetir com um sorriso as suas ideias chave: 1) O Governo deve demitir-se imediatamente e, se não se demitir, deve ser demitido pelo Presidente da República. 2) Depois da demissão do Governo, o PR deve decidir o que fazer, mas eleições antecipadas não são a melhor solução porque o processo é demorado e seria mau para o País esperar esse tempo (Neste último ponto, até estou de acordo). 3) A austeridade deve acabar imediatamente. 4) A crise da dívida resolve-se de um dia para o outro se o BCE puder emitir mais dinheiro. Nunca votei Soares, mas mesmo assim tenho vergonha de o ter tido com Presidente da República. Tenho a impressão que nesse tempo, apesar de não ter então concordado com as suas políticas, não era tão primário nas suas ideias. Devem ser já sinais de senilidade.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Cortes

No Insurgente surgiu há dias uma extensa lista de organismos para os quais se propunha, para o Estado poupar dinheiro, encerramentos para 58, cortes de metade dos custos para outros 27, "pela sua inutilidade presente", e cortes de 20% em ainda mais 56, "onde são sobejamente reconhecidas ineficiências". À primeira vista pareceu-me uma boa proposta, mas quando li as listas mudei de opinião. Se admito que muitos dos organismos incluídos possam ser pouco mais que inúteis ou possam ser reformados de modo a não consumirem tantos recursos, já duvido muito que se possam encerrar pura e simplesmente a maioria dos fundos e serviços autónomos da lista 1., que a maioria dos da lista 2. tenham uma “inutilidade presente” tão evidente que mereçam um corte de metade e ainda que os da lista 3. tenham todos “ineficiências sobejamente reconhecidas” e possam sofrer cortes de 20%. É a propostas como esta que se chama com propriedade “cortes cegos”, tanto por cento e que se arranjem, sem justificar que reorganização pode suportar a perda de receitas. Choca-me principalmente ver incluídos nestas listas todas as Universidades e os Institutos Superiores e Politécnicos. Admito sem dificuldade que muitos dos organismos citados, e por ventura outros que não constam das listas, possam ou mereçam ter os seus orçamentos revistos e eventualmente diminuídos na parte que provém do Estado, mas, assim a granel, não. A lista pode ter a vantagem de lançar uma pedrada no charco e levar os responsáveis a pensar mais sobre o assunto, mas tal como está, se fosse posta em prática, creio que causaria problemas gravíssimos por falta de acções necessárias ou mesmo fundamentais e levaria à paralisia de organismos cujo funcionamento é importante.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Previsão de sismos

Fiquei profundamente chocado com a notícia da condenação por homicídio por negligência de cientistas italianos por não terem previsto o sismo de Aquila, ou melhor, por, segundo a acusação, 6 dias antes do terramoto terem, depois de um encontro, tranquilizado os habitantes com um relatório que subestimava os perigos que a cidade corria. Não sei absolutamente nada de sismologia e não tenho dados pormenorizados sobre a acusação nem sobre a sentença, mas sei que é voz corrente que é impossível prever com precisão a ocorrência de terramotos e que 5000 cientistas de todo o mundo escreveram ao presidente Giorgio Napolitano em defesa dos acusados exactamente com o argumento de que os sismos não podem ser previstos. Admito que o tal relatório fosse falsamente tranquilizador e que, embora sem segurança sobre a data e sobre o grau, talvez pudesse ser avaliado ser e cidade uma região de risco, até pela quantidade de edifícios antigos e, portanto, sem construção anti-sísmica, mas mesmo que se dessem estas circunstâncias, o que eu ignoro, parece-me a sentença desproporcionada e extremamente pesada. Calculo que, em sismologia como em outras situações de avaliação de riscos, os especialistas chamados a pronunciar-se hesitarão de futuro a aceitar o encargo ou então terão tendência a sobrestimar os riscos para não poderem ser acusados de negligência ou incúria. Se, por um lado, isto levará a mais precauções, por outro, estas precauções, que têm sempre custos e muitas vezes riscos, serão exageradas e até inúteis. É possível pensar que um relatório sobre o perigo de sismo eminente numa cidade, ou outro perigo julgado possível, poderá levar a evacuações da população que poderão, se a previsão estiver errada, ser completamente escusadas.

Não notícia

As TVs continuam a ter falta de assunto, talvez por causa da greve da LUSA ou de falta de imaginação. Assim vão buscar assuntos que não interessam nem ao menino Jesus e desenvolvem até à náusea. Agora foi a escuta que apanhou o Primeiro Ministro, que deu pano para mangas e que dias depois de tudo explicado e resolvido ainda dá para remexer os restos. Os três canais informativos começaram hoje os noticiários da manhã com o que ainda conseguiram sacar deste não assunto, o que só poderia dar uma não notícia. Com tom solene afirmaram quase em uníssono, só que em diferentes frequências do espectro televisivo, que o Presidente do Supremo Tribunal de Justiça se tinha recusado a falar sobre a escuta que envolvia o Primeiro Ministro e que lhe fora enviada para eventual validação. Estavam à espera de quê? Que Noronha do Nascimento anunciasse já hoje, perante as perguntas dos jornalistas, o que vai decidir sobre o assunto?

O assalto dos jornalistas às figuras públicas com perguntas por vezes até impertinentes começa a ter momentos de exagero, como aquele em que a jornalista anunciou que o PM tinha deixado expresso que não responderia a perguntas, mas que, mesmo assim, iria interrogá-lo para tentar obter uma declaração. Quando o PM passou, em passo apressado, perto dela, lá gritou uma pergunta que, evidentemente, ficou sem resposta. Será que não reconhecem que não é assaltando as pobres vítimas com perguntas e mais perguntas que podem obter alguma notícia que valha a pena. Por vezes, mesmo em entrevistas ou em conferências de imprensa, resolvem, perante a falta de resposta, refazer por outras palavras a mesma pergunta que já tinham feito ou que um colega tinha atirado. É um jornalismo de ataque que os políticos aprenderam a aguentar com alguma bonomia.

Aqui ao lado

A manipulação tem sido tão intensa que até eu me admirei com os bons resultados que o PP espanhol obteve nas eleições regionais que tiveram lugar hoje na Galiza e no País Basco, principalmente na Galiza. e principalmente com os maus resultados do PSOE em ambas as regiões. É pois evidente que o facto de se reunirem multidões nas praças e nas ruas não significa que o que estas multidões defendem corresponda ao sentir dominante do povo, ao contrário do que normalmente é admitido por individualidades que simpatizam com estas correntes contestatárias e com algumas expressões que saem da boca de alguns jornalistas. Claro que eu sei que a abstenção foi muito grande e que no País Basco as ideias nacionalistas sobrepuseram-se à dualidade esquerda/direita, mas, a crer na interpretação dominante nos meios de comunicação portugueses de que a contestação ao Governo era geral, a maioria absoluta do PP na Galiza e a perda de votos (e de lugares nos parlamentos regionais) do PSOE seriam incompreensíveis.