sexta-feira, 2 de março de 2018

Reconhecimento (II)

Também estou com Rodrigo Moita de Deus quando escreve no 31 da Armada: «Na sua cabeça até pode ter presidenciais esperanças para o dia em MRS se farte do lugar mas a verdade é que Passos Coelho sai de cena como o mau da fita. Mau líder da oposição. E o homem responsável pela "destruição do SNS", pelo "desinvestimento público", a "pior crise económica da democracia" e a probreza de milhares e milhares de portugueses. O pai da austeridade. O passismo tornou-se adjetivo. E o adjetivo não é um elogio. Uma narrativa da esquerda que o próprio, por omissão, deixou vingar. A política tem destas injustiças. Passos fez o que mais ninguém quis fazer - nem o PS. Assumiu responsabilidades que mais ninguém quis assumir - nem o Presidente. E, contra todas as expectativas, conseguiu. E conseguiu mesmo. O país que não tinha dinheiro para o ordenado dos funcionários públicos evitou a ruptura. O governo que não tinha condições para sobreviver mais de três meses durou um mandato inteiro e até ganhou as eleições. Ao país herdado e falido de 2011 valeu a teimosia daquele homem. Tudo o resto é conversa. E no fundo, no fundo, a Catarina, o Jerónimo e o António até sabem disso.»

PS: Não dou qualquer importância a comentários de anónimos. Até ficarei muito divertido se o Sr. Anónimo que se fartou de rir ao ler o meu artigo anterior também achar graça a este.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Reconhecimento

A despedida de Pedro Passos Coelho pode ter sido sentida por alguns com alívio, mas terá sido, certamente, o próprio o que maior alívio sentiu. Atacado, incompreendido e caluniado, Passos Coelho saiu da cena política calmamente e com dignidade. Estou com os que lhe prestaram homenagem. Em particular com Ricardo Campelo de Magalhães, que escreveu há dias n'O Insurgente: «É um tempo novo, mas não queria deixar passar a oportunidade de agradecer todo o serviço de Passos Coelho ao país. Em meu nome e em nome de todos os que apreciam uma certa forma de fazer política: Muito Obrigado!». Estou também com Luís Rosa, que escreveu no Observador outro agradecimento a Passos Coelho de que João Távora retirou para o Corta-Fitas o seguinte excerto: «
(...) Ao contrário de todos os outros, e por única e exclusiva culpa de um deles (José Sócrates), Passos Coelho teve de gerir um país à beira da bancarrota, focado que estava em cumprir um único programa de ajustamento para evitar repetir a tragédia da Grécia. Tudo ao mesmo tempo que reconstruia o tecido económico nacional com um enfoque estratégico no sector exportador de valor acrescentado que permitisse um equilíbrio sustentável da nossa Balança de Pagamentos, que construía reformas importantes na legislação laboral para atraír investimento direto estrangeiro, que criava uma legislação no arrendamento que acabou com décadas a fio de iniquidades derivadas do congelamento das rendas que promoveu o abandono e a decadência dos nossos principais centros urbanos e que liberaliza sectores estratégicos da nossa economia de forma a combater o desemprego e a promover o progresso económico.
Mais do que o “não” a Ricardo Salgado para envolver a Caixa Geral de Depósitos na viabilização de um Grupo Espírito Santo falido — o que permitiu-lhe ser coerente e consequente com um pensamento económico liberal que não vê o Estado como o motor da economia ou como o salvador promíscuo de empresas inviáveis a troco de um controlo político de instituíçoes que devem orientar-se pelo valor que criam para os seus acionistas — mais do que esse fundamental “não” que muito poucos seriam capazes de dizer, um dos contributos mais importantes de Passos Coelho para um aprofundamento da democracia portuguesa foi a construção de uma Justiça verdadeiramente independente que pôde finalmente cumprir o seu papel: escrutinar todos aqueles que se julgavam acima da lei e investigar tudo o que fosse necessário independentemente do poder político, social e económico dos respetivos protagonistas. (...) Em suma, estou com os que reconhecem a justeza da política de Passos Coelho. Temo que Portugal não o tenha merecido.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Aborto ortográfico

Desta vez até estou de acordo com uma proposta do PCP agora em discussão na Assembleia da República. Abaixo o aborto ortográfico. Lembremos os argumentos da Vasco Graça Moura. Bem ajam os que assinaram a petição e os que se associaram a ela, como Bagão Félix, António Lobo Antunes, Eduardo Lourenço, Mota Amaral, Pacheco Pereira, Ribeiro e Castro, Júlio Isidro, Manuel Alegre, Maria Filomena Mónica, Miguel Sousa Tavares, Richard Zimler ou Rui Veloso, entre outros, e as organizações como a Sociedade Portuguesa de Autores, Associação Nacional de Professores de Português e o Centro de Estudos Comparatistas da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Esperemos que os fortes argumentos contra este aborto tenham eco nas posições da maioria dos deputados.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

A garrafa de Lisboa é inglesa

A EPAL teve a ideia de convidar o arquitecto Álvaro Siza Vieira a desenhar uma garrafa que evocasse a "história e o património de Lisboa", como homenagem às "matérias primas [a]os artistas nacionais. Boa ideia, sem dúvida. O desenho da garrafa é inspirado "na Torre de Ulisses, fundador lendário da cidade". Talvez a EPAL se refira ao Ulisses de James Joyce e não ao herói grego, só assim se poderá justificar que alguém, não sei se da EPAL ou o próprio Siza Vieira, tenha pensado que era apropriado dar à garrafa um nome inglês: Lisbon Soul. Assim talvez tivesse sido mais lógico que a garrafa evocasse a história e o património de Londres ou mesmo de Dublin em homenagem às matérias primas e aos artistas ingleses ou talvez irlandeses. Ou, mais prosaicamente, alguém pensou que seria mais conveniente apostar no mercado dos turistas ou até da exportação e um nome em português seria mesquinho. Já agora, porque é que a EPAL não passa a vender water aos seus clientes, Lisbon water.
Não cobro nada pela ideia.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Tanta pressa porquê?

As eleições para o novo Presidente do PSD decorreram no último Sábado, dia 13, no 1.º dia do fim-de-semana, período de merecido descanso. Hoje é, portanto, o primeiro dia útil após a eleição de Rui Rio, que não teve tempo para fazer contactos para quaisquer alterações de órgãos dirigentes do partido. Como é presidente eleito, mas só tomará posse depois do Congresso, que apenas decorrerá daqui a um mês, não é exigível que comece já hoje com quaisquer iniciativas. Mas parece que os barões e baronetes do partido e vários politólogos não pensam assim e todos decidiram dar sugestões, quase exigências, sobre o que Rui Rio deve fazer e até do que já deveria ter feito. Como se estas sugestões e quase exigências não fossem suficientes, sugere-se ainda que os titulares de cargos no Partido tomem eles próprios a iniciativa que, pensam, se impõe após e vitória de Rio. Marques Mendes abriu logo no Domingo o espectáculo declarando que Hugo Soares deveria pôr o lugar à disposição, logo imitado por Manuela Ferreira Leite. Qual é a pressa? E põe-se a questão, que parece não aflorar aos neurónios de Mendes nem de Ferreira Leite: pôr o lugar à disposição de quem? O lugar de Hugo Soares como Presidente do grupo parlamentar do PSD, é de escolha do dito grupo parlamentar. Ora o Presidente do partido mudou ou mudará no próximo congresso, mas os deputados que formam o grupo parlamentar não mudaram nem se prevê que mudem até lá. Portanto ou todos colocariam o seu respectivo lugar à disposição dos eleitores, os que os elegeram, o que é impossível, ou então não tem sentido mudarem de opinião por irem mudar de Presidente. Claro que toda a gente sabe que as escolhas dos deputados são influenciadas, quando não comandadas, pela direcção política, mas também se dá o caso de que esta ainda é a mesma. Por estas razões parece-me que Mendes e Ferreira Leite se apressaram demasiado. Deixem Rui Rio decidir, falar e, principalmente, tomar posse, e dêem então as sugestões que quiserem, mesmo as que não tenham qualquer cabimento.

domingo, 14 de janeiro de 2018

Notícias de 1623

Não é uma notícia recente, muito menos de última hora, mas não deixa de ter actualidade nos dias de hoje. Leio em "História de Portugal por datas", Temas e Debates, 3.ª edição, 2000, a seguinte notícia: "1623 [31 de Janeiro] Carta de lei que estabelece que os funcionários públicos devem proceder à declaração de bens." Já havia, portanto, a preocupação de vigiar o enriquecimento não justificado dos titulares de cargos públicos e, mais do que agora, mesmo de todos os funcionários públicos! Note-se que isto acontece durante a dinastia filipina. Não sei se esta medida se manteve depois da restauração.

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

O pior

O pior não é uns deputados, na verdade a grande maioria deles, terem cozinhado uma lei às escondidas, aprovando-a disfarçadamente num dia em que pensavam que todas as pessoas estavam distraídas e não davam por isso. O pior não é terem aprovado essa lei para permitir que os partidos se pudessem financiar à fartazana e sem limites. O pior não é arrogarem-se o direito de isentar os respectivos partidos de pagar IVA. O pior não é não terem a noção de que havia um claro conflito de interesses na aprovação dessa lei, feita para lhes facilitar a vida. O pior não é terem mentido ao afirmar que se tinham limitado a esclarecer dúvidas que a lei anterior suscitava. O pior não é os deputados que aprovaram a lei não terem tido a sequer esperteza, já não digo a inteligência, de pensar que o povo não é parvo e alguém havia de dar pelo disparate e que a aprovação pelo Presidente da República era improvável. Tudo isso é grave, é gravíssimo, mas nada disso é o pior.

O pior é que são estes indivíduos que mandam em nós, fabricando as leis que nos regem, nomeando o Governo que nos governa. Isso é que é o pior. E com estes indivíduos mais o Governo que escolhem a mandarem assim em nós não admira que o País vá tão mal como vai.

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Provérbio actual

A ideia peregrina de proibir nos bares e cantinas dos hospitais a venda de produtos que contenham açúcar e sal em quantidades consideradas prejudiciais para a saúde levanta-me sérias dúvidas sobre a facilidade de implementação e a probabilidade de ter efeitos benéficos. Não conheço em pormenor como se pretende definir os produtos em causa, mas, a acreditar em algumas notícias que têm vindo a lume, são considerados abrangidos os bolos, segundo outros apenas os bolos com creme, além disso produtos que me parecem tão inofensivos como os croissants estarão também entre os banidos. Também ouvi falar em sanduíches de chouriço ou de presunto. A mousse de chocolate está na lista das proibições. Todas estas notícias, que não sei se exactas, deixam-me bastante céptico. Se um frequentador de um hospital, seja doente ou acompanhante, ou ainda funcionário, quiser lanchar ou simplesmente comer alguma coisa para matar a fome, que poderá ter à sua disposição? Ouvi falar em iogurtes e bolachas sem açúcar e sem sal. Será que sanduíches de fiambre ou de queijo já são permitidas? Ou apenas se o queijo e o fiambre tiverem pouco sal. Quem e como se mede a quantidade de açúcar e de sal dos produtos? E, se o fumo é permitido, excepto em locais públicos fechados, apesar de ser comprovadamente muito prejudicial à saúde, porque não se faz uma campanha de educação nutricional e se deixa ao critério de cada um se quer ou não sacrificar a gulodice para proteger a saúde. E afinal tanto o açúcar como o sal estão livremente à venda e ninguém poce controlar a quantidade que cada um usa em sua casa. Também nos restaurantes há saleiros e distribuem-se livremente pacotinhos de açúcar destinados a adoçar o café, mas que podem ser usados à discrição. Parece-me que está em vigor o provérbio: Se uma coisa é boa e apetece, ou é pecado ou prejudica a saúde.

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Lei indigna suscita indignação

Completamente de acordo com rui a., com Patrícia Reis e com Pedro Correia. Nada a acrescentar.

domingo, 24 de dezembro de 2017

Mau português

Os erros de português veiculados por vários canais de televisão através de alegados jornalistas são constantes e dão uma triste imagem da respectiva cultura linguística. Vejamos alguns exemplos recentes:

- "Os jogadores não conteram as lágrimas." - Até o meu corrector ortográfico ficou tão indignado que sublinhou "conteram" a vermelho, como faziam os meus professores de português.
Outros disparates que consegui respigar, mas em que falhei em tomar nota das frases completas:
- interviu
- haverão - O erro de esquecer que o verbo haver é impessoal é muito frequente, não só em jornalistas, mas até em políticos, mesmo ministros.
- uma grama - e - duzentas gramas

Certamente "haverão"... perdão, haverá de futuro, infelizmente, muitas mais ocasiões de apontar erros.

sábado, 16 de dezembro de 2017

English

A propósito da minha declarada embirração pela língua inglesa (e pela mania de usar no nosso Portugal palavras e expressões inglesas) referi o facto de as mesmas letras ou conjunto de letras terem em inglês frequentemente pronúncias muito diferentes. Claro que também em português há alguns casos em que isso acontece, mas em muitíssimo menor número. Referi que Bernard Shaw já se queixava do mesmo, chegando a afirmar, com base no modo de pronunciar várias palavras, que a palavra "fish" se poderia escrever "ghoti". Mas não só se queixava como apresentou propostas de adopção de uma escrita inglesa reformada e até de um alfabeto de 40 letras que permitiria escrever em inglês sem essas ambiguidades. As propostas de Shaw parecem-me irrealizáveis, mas merecem ser analisadas. Ainda sobre este assunto, encontrei referência a um poema que eu não conhecia, "The Chaos", de um professor holandês chamado Gerard Nostl Trenité, que é um verdadeiro repositório de casos de ambiguidades de pronúncia de palavras inglesas.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Portuguese language

A língua portuguesa é a quarta mais falada no mundo, com 215 milhões de falantes, talvez a quinta, com 279,2 falantes (incluindo 236,1 milhões como língua nativa e 36,8 como 2.ª língua),  ou ainda a sexta, com 170 ou 205 a 270 milhões, conforme as fontes. Em qualquer caso é uma das línguas mais importantes de entre as cerca de 6000 línguas faladas no mundo. É, além disso, uma língua rica a que não faltam palavras e expressões para uma comunicação em qualquer domínio, seja técnico, seja artístico ou ainda na literatura.

No entanto parece que muitos portugueses pensam que é preferível usar o inglês para comunicar. Há dias vi na TV com algum espanto que o Zoo do Algarve pretendia cativar as crianças a depositar num receptáculo as cartas ao Pai Natal com uma tabuleta em que se lisa "Letters to Santa". De seguida dei com as notícias de que na FIL haveria "workshops" e "show rooms" para o Natal (ou seria para Christmas?) e no Pátio da Galé se preparava um "Xmas Creative Market", enquanto que no Parque Eduardo VII decorria um evento chamado LISBONLAND. Mas estes exemplos não são raros e parece que qualquer coisa ganha em qualidade e em fama se tiver uma designação estrangeira, em particular em inglês. Não havia necessidade. O português devia bastar-nos.

Confesso que a língua inglesa me desagrada. Sempre me desagradou, principalmente pelo facto de a mesma letra ou conjunto de letras poder ter pronúncia diferente conforme a palavra em que se integra. Já Bernard Shaw se queixava do mesmo. Como saber se o "i" se dever ler "i" ou "ai"? Se existe o "i" porque utilizar o conjunto "ee" para o mesmo som? Como pronunciar o "th"? Depende da palavra. O aeiou, que em português apresenta 5 sons simples que correspondem às 5 vogais primárias, em inglês deve ler-se ei-i-ai-ao-iu (em pronúncia portuguesa). Quer dizer: 4 das 5 vogais principais devem ler-se como ditongos! Parece-me aberrante. Além disso, por falta de palavras para todas as situações, os ingleses preferem juntar duas ou mais palavras para significados que poderiam ser dados, e às vezes são em alternativa, por apenas uma palavra, como, por exemplo, "go up" para subir, "cut off" para recortar, e numerosos outros exemplos. Pensava ainda que o inglês era uma língua feia, que não poderia ter a beleza do italiano ou do francês, mas mudei de ideias, há muitos anos, quando um amigo meu inglês me ofereceu um disco com sonetos de Shakespeare. Reconheço, desde então, que pode ser uma língua bela, mas na linguagem de todos os dias não o é, certamente. Por estas razões me parece ainda mais aberrante o uso de inglês para portugueses, como nos exemplos acima.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Viver acima das nossas possibilidades

Desde 2011 que se discute se a causa da crise em Portugal foi o facto de termos vivido acima das nossas possibilidades ou não, ou, se não foi a causa, se foi, pelo menos, um factor agravante. Muitas vozes, principalmente de esquerda, consideraram que é mentira dizer que se tinha vivido acima das possibilidades. Mas não só da esquerda: por exemplo, um vereador do PSD da Câmara de Abrantes, em 2011, reagindo a um discurso de Cavaco Silva, afirmava que "não se incluía nesse grupo [o grupo dos que viviam acima das suas possibilidades] , assim como grande parte dos portugueses que conheço e que nunca compraram nada sem ter o dinheiro para pagar a pronto". O coitado não compreendeu que ter dinheiro para pagar a pronto não significa que quem lhe paga esse dinheiro, seja o Estado ou uma qualquer instituição privada, não esteja a pagar acima das possibilidades próprias. Mais recentemente, Pedro Marques Lopes, que ainda não percebi bem se é de direita, do centro ou de alguma esquerda, considera que a afirmação de que "vivemos acima das nossas possibilidades" é uma "mentira". Será? Recorro, para procurar saber se estas reacções são justificadas, a um artigo mais recente, de 2015, em que André Azevedo Alves, perante as acusações que foram feitas à gestão do Governo de Pedro Passos Coelho, cita João César das Neves, que dizia que "a indiscutível redução do défice foi conseguida sobretudo à custa de medidas contingentes e temporárias, com poucas reformas na máquina" e que "a tão falada consolidação orçamental está ainda muito longe", reconhecendo André Azevedo Alves, no entanto, que "o executivo liderado por Pedro Passos Coelho foi ainda assim além do que teriam feito quaisquer das alternativas governativas no contexto partidário português. E que só isso evitou um colapso do Estado português que estava iminente em 2011". O gráfico que Azevedo Alves apresenta, reproduzido de Jorge Costa, é explícito:



Desde 1975, vivemos, sem margem para dúvida, acima das nossas possibilidades. Nas próprias palavras de Jorge Costa: "como se deixássemos aos nossos herdeiros dívidas sem qualquer contrapartida, por termos vivido, isto é, consumido sistematicamente acima dos nossos rendimentos e do valor dos nossos bens de capital, sendo esses herdeiros forçados a pagar essas dívidas com os seus rendimentos - rendimentos do trabalho, visto que, se lhes transmitimos algum capital, esse capital é negativo".


segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Eurogrupo e austeridade

O grande equívoco que está intimamente ligado à eleição de hoje do Ministro das Finanças português Mário Centeno para o cargo de Presidente do eurogrupo foi exemplarmente posto a nu no comentário de Mariana Mortágua ao afirmar que "A pergunta que os portugueses fazem é se será Mário Centeno, por ser português e pertencer ao PS, pode fazer a diferença nesta instituição que só tem representado ataques à democracia e mais austeridade". É evidente que nem o cargo de Presidente permite provocar qualquer alteração à instituição eurogrupo, nem Centeno parece a pessoa capaz de tal feito, mesmo que tivesse mais poderes. O Presidente do eurogrupo representa os ministros das finanças dos 19 países que o constituem e, sendo seu representante e não seu chefe ou dirigente, não deve provocar alterações substanciais nos objectivos da instituição de modo a "fazer a diferença". A resposta à pergunta de MM só poderá um rotundo Não, como a própria reconhece ao acrescentar "Entendemos que prevalece a natureza da instituição". Mas o que a frase de Mariana Mortágua mostra é que para a extrema esquerda portuguesa o eurogrupo representa "ataques à democracia e mais austeridade". Custa a admitir esta visão segundo a qual o Governo que MM apoia no Parlamento acabou com  a austeridade em Portugal, mas nos restantes países do eurogrupo continua a reinar austeridade por culpa das regras do mesmo eurogrupo.

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

O que preocupa os cidadãos?

A sessão de perguntas organizada por uma empresa privada como parte da comemoração, se assim se pode classificar, do 2.º aniversário do actual Governo tem sido muito comentada e alvo de polémica por os cidadãos recrutados para dirigir as perguntas ao executivo terem sido pagos. Pareceu-me realmente uma forma de comunicação entre os ministros e os cidadãos um pouco bizarra, por muito que os intervenientes tenham afirmado que é uma prática comum recrutar pessoas pagas para participarem em estudos encomendados pelos governos. Se é ou não, desconheço, mas interrogo-me se houve realmente um estudo, de que constou o referido estudo, a que resultados chegou, se esses resultados vão ser divulgados e que relação há entre esse alegado estudo e os cidadãos escolhidos por algum critério desconhecido para formularem perguntas em público ao Governo. Parece-me tudo muito nebuloso.


Mas outro aspecto que me parece estranho e que ninguém até agora referiu, que eu saiba, é o que se prende com as principais preocupações dos cidadãos. Temas sobre desemprego, saúde e educação são evidentemente de grande interesse, mas espanta-me que não tenha havido qualquer pergunta ou interpolação sobre o estado da Nação no que se refere, por um lado, a economia e finanças, nomeadamente no que se refere à persistência dos défices e da enorme dívida pública, e por outro lado à ausência de reformas de fundo que promovam um maior investimento e, através deste, um crescimento mais sólido e sustentável. Será que estes problemas não preocupam um número apreciável dos cidadãos deste País?

domingo, 26 de novembro de 2017

25 de Novembro

Para mim o 25 de Novembro representa a salvação da democracia em 1975. Claro que há outras efemérides importantes, mas nada justifica o silêncio quase absoluto dos meios de comunicação e do Governo sobre o que se passou em 75 e como influenciou o que estamos a viver hoje. Felizmente quem recorde.

Estado de desgraça

Dizem os entendidos, os comentadores e os politólogos que o Governo de António Costa saiu do estado de graça de que gozou no início da sua governação. Para mim, porém, António Costa já não tinha direito a qualquer estado de graça desde que "passou a perna a António José Seguro", no dizer típico mas adequado de uma vendedora de fruta que foi abordada no mercado do Econtramento durante a campanha eleitoral para as legislativas que perdeu, para não falar dos seus tempos de ministro nos Governos de Sócrates. Mas agora a opinião sobre a perda da graça é geral, exceptuando talvez alguns (poucos, mas muitos não confessam) socialistas. Direi mesmo mais: António Costa e o seu Governo atingiram um estado de desgraça e estão a empurrar o País para a desgraça colectiva. Vários factos contribuem para esta descida aos infernos. Os principais são:
- Actuação do Governo e em particular de AC durante e no seguimento do incêndio de Pedrógão Grande a 17 de Junho, incluindo a ida para férias quando a tragédia ainda decorria.
- Furto (que talvez até não tenha ocorrido) de material militar dos paióis de Tancos em Julho e ausência de esclarecimento e de consequências do dito alegado furto.
- Reincidência na actuação, ou falta dela, nos incêndios de 15 de Outubro, agravada pela falta de acção coerente e útil depois de Pedrógão.
- Discurso do PM de 16 de Outubro em que tentou justificar e negar responsabilidades próprias e do Governo em geral sobre os incêndios.
- Declarações e actuação de AC e de membros do Governo sobre o caso do jantar no Panteão de Fundadores da Web Summit em Novembro.
- Surto de doença do Legionário no Hospital de São Francisco Xavier, cujo foco não foi ainda completamente identificado ou cuja identificação não foi tornada pública.
- Campanha para promoção da candidatura do Porto a sede da Agência Europeia de Medicamento, após hesitação entre Lisboa e Porto, e respectiva derrota.
- Anúncio inesperado de deslocalização do INFARMED para o Porto e tentativa de o apresentar como resultado de uma opção longamente estudada, sem qualquer plano sobre o modo de minimizar as dificuldades de alteração do local de trabalho dos respectivos funcionários.
- Aproveitamento do Conselho de Ministros em Aveiro do 2.º aniversário do Governo para uma sessão de propaganda da geringonça e das suas grandes vitórias.

Em todos estes casos as declarações desajeitadas ou a falta delas apenas agravaram o descontentamento que suscitaram. De modo que responsabilidades de AC mais graves, como a ausência de reformas estruturais, a persistência dos défices e o enorme atraso em suster o aumento da dívida pública, o discurso enganador do fim da austeridade e da demonstração de que afinal havia alternativas, as crescentes dificuldades nas condições de atracção de investimentos e outros erros políticos e económicos, têm passado quase despercebidos.

domingo, 19 de novembro de 2017

O abismo

O ex-presidente da Câmara de Caracas, António Ledezma, interrogado sobre se a Venezuela estava à beira do abismo, declarou: "A Venezuela não está à beira do abismo, já está no abismo". Pelas notícias a que temos tido acesso, não há que ter dúvidas a este respeito. A situação em Portugal é, felizmente, muito diferente: ainda não estamos no abismo nem, na minha opinião, mesmo à beira do abismo, mas, graças aos esforços do nosso Governo e dos seus apoiantes no Parlamento, aproximamo-nos, a passos largos, da beira do abismo e, se não se atalhar caminho, corremos sérios riscos de, chegados à beira, escorregar para as profundezas.

sábado, 18 de novembro de 2017

António Arroio revisitado

Em 2012 estranhei aqui que, após obras de reabilitação da Escola António Arroio, tivessem deixado um cartaz de propaganda das ditas obras a tapar parcialmente o painel de azulejos do mestre Querubim Lapa. Nessa altura, a demora em retirar o cartaz e deixar visível a obra de arte já era de estranhar e até de criticar. Não imaginava eu que mais de 5 anos mais tarde o cartaz ainda lá estivesse escondendo parte do painel. Entretanto o mestre Querubim Lapa faleceu, sem poder ter visto o seu painel apresentado em condições. Infelizmente outras obras do mestre têm sofrido degradações.

Como no meu artigo de 2012 só consegui (na net) uma fotografia do painel antes das obras,

publico agora uma foto recente que mostra a situação que se tem eternizado até hoje, com o painel parcialmente coberto pelo cartaz.

Quantos anos serão ainda necessários para que se resolvam a retirar o cartaz, já tão desbotado?

domingo, 12 de novembro de 2017

Jantar no cemitério

Considerar que o jantar de Founders no Panteão Nacional foi uma refeição festiva que decorreu num cemitério talvez seja um pouco forçado. O Panteão poderá, quando muito, ser considerado um mausoléu. Mas é de qualquer modo um local onde estão depositados os restos mortais de alguns portugueses notáveis. Nesse sentido, é assimilável a um cemitério e não parece um local adequado para jantares ou outros eventos festivos. Quando muito poderá ser apropriado para cerimónias de homenagem aos que lá repousam ou relacionadas com vultos da nossa história. Parece-me, portanto, que é de concordar com a preocupação do Primeiro Ministro ao considerar indigno o facto de entidades ligadas ao Web Summit terem lá realizado um jantar. Toda a gente se pronunciou no mesmo sentido, numa unanimidade rara, embora com intensidades, palavras e argumentos diferentes. Já não posso concordar com António Costa ao ter tentado atirar a responsabilidade da autorização do evento para o anterior Governo, no que foi secundado por outras figuras ligadas ao seu Governo. Pergunto-me quantas dessas pessoas se deram ao trabalho de ler o discutido Despacho que alegadamente permitiria o acto. É que da sua leitura fica claro que a autorização para aluguer de espaços nos monumentos que fazem parte da lista em anexo deve ser ponderada, estipulando nomeadamente que "Todas as atividades e eventos a desenvolver terão que respeitar o posicionamento associado ao prestígio histórico e cultural do espaço cedido" e que "Serão, ainda, rejeitados os pedidos que colidam com a dignidade dos Monumentos, Museus e Palácios..." O que está em jogo, portanto, é a autorização dada. Quem pode e deve ser responsabilizado é quem entendeu que não havia qualquer inconveniente em autorizar este evento em particular e também o Ministro da Cultura, que, depois de pedir explicações à DGPC, aceitou a explicação de que a autorização decorria do Despacho em questão. Ora este não obriga a autorizar, pelo contrário obriga a ponderar e dá nomeadamente a possibilidade de negar.