segunda-feira, 3 de julho de 2017

Quebras de segurança

A meu ver, o Ministro da Defesa, Azeredo Lopes, cometeu um erro de apreciação de palmatória ao considerar que, a seu ver, o caso do furto de material militar dos paióis de Tancos, "não corresponde à maior quebra de segurança do século ... Há quebras e falhas de segurança muito superiores. (...) Nem é preciso evocar os trágicos acontecimentos que têm varrido o continente". Não sei a que falhas "muito maiores" e a que "acontecimentos trágicos" se referia, mas não tenho conhecimento destes factos. Se estava a considerar os ataques terroristas que têm resultado em números de vidas perdidas realmente trágicos, errou o alvo, porque ainda não sabemos, e provavelmente nunca viremos a saber, qual o número de mortos que resultará do uso do material ora furtado. O desaparecimento do material em si é um "acontecimento trágico" potencial e provável, de dimensão impossível de determinar e mesmo difícil de estimar, mormente em número de mortos possíveis resultantes. Por isso, não tem qualquer sentido fazer comparações de falhas maiores ou menores. Talvez venhamos a lamentar acontecimentos trágicos enormes, mesmo que possam ser geograficamente afastados.

Medina Carreira

A inesperada notícia da morte de Henrique Medina Carreira deixou-me muito triste, não só porque o apreciava enquanto homem honesto e frontal, como também porque perdemos mais um dos economistas da velha guarda que, sem menosprezo dos jovens, possuíam uma visão global e uma perspectiva histórica que eu apreciava nas suas intervenções. Medina Carreira foi, muitas vezes e desde há muito tempo, a voz que clamava no deserto, denunciando as más políticas e avisando para os perigos dos erros cometidos, que foram muitos. Vai fazer falta.

sábado, 1 de julho de 2017

Material militar furtado

Temo que, pelo pouco ou nada que se sabe das investigações que deverão estar em curso, quando houver notícias sobre o material furtado, sejam notícias que ninguém desejaria. Mas pelo menos sabemos que, segundo o Ministro, que é responsável politicamente como o próprio admitiu, não fio "a maior quebra de segurança deste século em toda a UE”. Portanto, se não podemos ficar descansados e seguros de que não seremos vítimas dum ataque, seja criminoso ou terrorista, podemos pelo menos ficar felizes por ter havido (onde? quando?) quebras de segurança ainda piores.

E, como se salienta muito bem no Blasfémias, os responsáveis políticos, para não falar nos responsáveis directos, são pagos com os nossos impostos; quer dizer, pagamos-lhes para nos prestarem os serviços que não estão a resultar.

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Apetência por sangue

Não sei se a Ministra estaria a pensar em vampiros quando referiu que "o caminho mais fácil a seguir, ia satisfazer uma certa apetência que alguns têm pelo sangue", para justificar que recusou pedir a demissão, prometendo, contudo "tirar as devidas ilações" das conclusões do inquérito que se deverá fazer às ocorrências durante o incêndio de Pedrógão Grande. Quem serão esses alguns com esse apetite vampiresco? A quem se referiria a Ministra? Num ambiente generalizado de desresponsabilização e desculpa, tenho ouvido algumas vozes a exigir  que se saiba o que se apssou, se ouve ou não falhas, falsas informações, demoras injustificadas, que se apure a verdade sem medo, que se responsabilizem os responsáveis, mas nada destas exigências pode ser apelidada de "caça às bruxas" e muito menos de "apetência de sangue". Melhor seria a Ministra ter mais cuidado com a língua (e já agora que cuide o seu português e não diga que "haviam mais Guardas [GNR]).

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Desculpas

Leio no roda-pé de notícias do uma TV que Theresa May pediu desculpas pelo deficiente combate ao incêndio da Torre Grenfell. Falta um pequeno pormenor: que o pedido seja extensivo às deficientes regras anti-incêndio da construção civil, nomeadamente no que se refere ao risco de isolamento exterior de prédios inflamável. De qualquer modo, fico à espera que António Costa se resolva a seguir o exemplo da sua homóloga britânica.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Quando tudo a correr bem dá mau resultado

aqui referi o disparate que é tentar desculpar um mau resultado, ou mesmo uma tragédia, afirmando que todas as regras foram cumpridas, nomeadamente as regras de segurança. No trágico caso do incêndio de Pedrógão Grande ocorre qualquer coisa de semelhante: Na noite de Sábado, dia do início do incêndio, já tinham morrido 19 pessoas ("três pessoas morreram na estrada que liga Figueiró dos Vinhos a Castanheira de Pêra devido à inalação de fumos e 16 ficaram carbonizadas no interior das suas viaturas, cercadas pelas chamas"), presume-se que na estrada 236-1 (já chamada estrada da morte), onde continuaram a morres pessoas, ao todo 47, algumas das quais voltavam da praia fluvial para as suas casas e outras que pretendiam exactamente fugir do fogo. O número total de mortos, contabilizado até hoje, foi de 64. Há também queixas de que o alarme foi dado por meio de chamadas para os bombeiros por parte de habitantes de aldeias que se sentiam ameaçados por um incêndio em início, mas que o socorro demorou horas. No Sábado à noite, já com as 19 mortes confirmadas, ouvi anunciar que havia mais de uma centena de bombeiros a combater as chamas e que se pensava necessário pedir auxílio a bombeiros de outras paragens. Tanto que esta necessidade era real, que no Domingo de manhã já se falava em 488 bombeiros e ao fim do dia em mais de 1000, o que mesmo assim não foi suficiente para um combate capaz de dominar o incêndio, que entretanto se expandira enormemente. Ontem já eram quase 2000. Todas estas circunstâncias levam-nos a pensar que algo correu muito mal. No entanto, os responsáveis pelos diversos serviços intervenientes, bombeiros, elementos da Protecção Civil, guardas da GNR, e responsáveis governamentais com a tutela destes serviços, asseguram que foi feito o máximo possível, no que tiveram, desde a primeira hora, o forte apoio do Presidente da República. A culpa foi das circunstâncias: o calor, a trovoada seca, o vento, as características da floresta. A estrada 236-1 não foi cortada ao trânsito no momento certo para evitar mortes porque a progressão de fogo que transformou esta via numa armadilha mortal se deu de forma "totalmente inesperada, inusitada e assustadoramente repentina".

Ora, algumas das circunstâncias referidas vão, certamente repetir-se: calor, vento, floresta desordenada e sem limpeza estarão presentes em várias ocasiões no Verão que se iniciou hoje e nos próximos verões. Progressão de fogo de forma inesperada e inusitada, por muito extraordinário que seja, poderá também repetir-se. Então, conclui-se que as estratégias adoptadas e as medidas recomendadas não são suficientes para evitar tragédias como esta. É urgente, portanto estudar em pormenor o que se passou, saber o que falhou e, mesmo que nada tenha falhado à luz das regras recomendadas, como se pode evitar que circunstâncias semelhantes levem aos mesmos resultadas trágicos.

sábado, 17 de junho de 2017

Ciganos e racismo

Não me parece que chamar cigano (ou cigana) a alguém seja um acto de racismo. Para já, os ciganos não constituem uma raça, até há quem defenda que na espécie Homo sapiens não existem raças. Quando muito será uma etnia, o que pode justificar a criação de um novo modo de discriminação, que seria o etnismo, ou seja, a discriminação por etnia (não cobro direitos de autor pela invenção da palavra). Mas chamar a alguém um indicativo de uma etnia só pode ser ofensivo se se provar que quem faz esse chamamento considera que os membros dessa etnia são inferiores, desprezíveis ou têm qualquer defeito associado ao seu conjunto genético. Se eu chamar "caucasiano" a um caucasiano, não estarei a ser ofensivo. Se eu chamar "caucasiano" a um  negro ou a um asiático, só serei ofensivo se se provar que considero os caucasianos inferiores. De modo nenhum será um epíteto racista. Não vejo razão para que com o chamamento de cigano seja diferente. Já se eu disser: "O Fulano é um cigano! O Fulano é meio cigano!" e acrescentar depois de vários insultos: "O Fulano é um ciganão!" não parece haver dúvida que a intenção é ofensiva, se bem que não seja racista, talvez etnista. Porém, embora à época o Manifesto anti-Dantas de Almada Negreiros tenha levantado escândalo e muita celeuma, hoje é geralmente apreciado como um documento futurista e nunca foi acusado de racismo.

Conclusão: Manuel dos Santos pode ser acusado de indelicadeza, pode até ser expulso do PS, como parece ser a intenção de vários dirigentes. Não me cabe dar opinião sobre o que o Conselho de Jurisdição, ou lá o que é, do PS deve decidir. O que me parece desprovido de razão e até de lógica é acusarem-no de racismo.