sábado, 23 de julho de 2011

Austeridade revisitada

Várias vozes, desde economistas estrangeiros com o Prémio Nobel ou nacionais sem prémios, até comentadores, criticam as medidas de austeridade e tanto as consideram ineficazes como temem as suas consequências recessivas. A estas vozes juntam-se, por motivos diferentes, os partidos de esquerda, que recomendam a renegociação da dívida e dizem que a austeridade é a causa de todos os males. Não sou economista nem comentador e não milito em partidos, nem de esquerda mas também não de direita ou de centro, mas parece-me que, se para manter o nível de vida que temos tido, foi preciso endividarmo-nos ao ponto que chegámos, a austeridade necessária e suficiente para passarmos a viver só com o que ganhamos sem pedir emprestado é uma consequência inevitável do limite do endividamento. Por outro lado, parece-me evidente que, se pedíssemos qualquer renegociação da dívida, a austeridade viria automaticamente por mais ninguém estar disposto a emprestar-nos dinheiro. Não há fuga possível e mais vale sermos nós a decidir o melhor modo de ser austero com tempo e os meios da ajuda exterior do que termos uma profunda crise repentina por não termos possibilidades de fazer frente às nossas necessidades.

Desvio... colossal

Afinal o desvio não era colossal, mas mesmo assim vamos ter de pagar para o endireitar. O esforço que será preciso para isso é que vai ser colossal. Sempre havia várias palavras entre "desvio" e "colossal", o que muda tudo. Só não muda a austeridade que vem aí. Vamos todos, quer queiramos quer não, ser muito austeros. Como disse há dias, sempre levei uma vida um tanto austera, um pouco por feitio, por vezes por necessidade. Agora vai ser a sério.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

To be or not to be colossal

A discussão a propósito do "desvio colossal" ou do "desvio... (várias palavras) ... colossal" é inútil. Tudo depende da definição de "colossal". Afinal as medidas de austeridade estão aí, algumas já chegaram e as outras virão em breve. Se houver um desvio muito colossal, haverá, para compensar, mais austeridade. Já vamos estando habituados...

Mas já agora, como é que ninguém se admirou de palavras ditas numa reunião à porta fechada terem chegado cá fora tão rapidamente? Também vamos estando habituados, infelizmente.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Queda de notação: consequência ou causa?

A decisão da Moody's de baixar a notação da dívida portuguesa em 4 níveis tem suscitado reacções muito desencontradas. Depois do coro quase geral de repúdio e indignação, apareceram numerosas vozes a considerar a medida justificada pela realidade da situação difícil em que nos encontramos. Claro que as agências de notação financeira não estão ao serviço dos emissores de dívida, estados ou empresas, mas sim dos investidores. Claro que a dívida portuguesa é problemática e sujeita a riscos. Assim se justificaria a baixa de notação. No entanto, pessoalmente parece-me que a iniciativa da Moody's falhou no tempo e no modo. Os riscos da dívida portuguesa não aumentaram agora, pelo contrário, o acordo com o trio FMI-UE-BCE e o comprometimento do novo governo com um apoio parlamentar largamente maioritário e expresso recentemente nas urnas vieram aliviar o risco, embora não o anulassem. A ocasião escolhida pela Moody's parece assim completamente desajustada. Não me teria admirado se esta ou outra agência tivesse subido ligeiramente a notação em vez de a baixar drasticamente. Mas principalmente, a baixa de 4 níveis não parece ter fundamento. Uma baixa desta amplitude necessitaria de uma melhor explicação e fundamentação.
Concordo, no entanto, com aqueles que dizem que as mostras de indignação não resolvem nada. Há sim que provar, com actos, que a Moody's não tem razão. Enviar pacotes de lixo para a Moody's? Pode ter alguma graça, mas é absolutamente pueril. Fazer uma manifestação de repúdio no Terreiro do Paço? Tenham juízo! Alguém na América se impressionará com isso? As manifestações de repúdio do antigamente resolveram alguma coisa? Apoiar as medidas do Governo e eventualmente, para quem tenha possibilidades de investir um pouco, comprar Certificados do Tesouro, procurar gastar menos, não contribuir para aumentar as dívidas (particulares e públicas), quando possível comprar português pode a médio prazo ser muito mais útil do que gastar tempo com graçolas e manifs.
A baixa de notação foi apresentada como uma consequência da difícil situação portuguesa. Há que procurar que não seja causa da sua deterioração.

terça-feira, 5 de julho de 2011

ETV

O canal ETV, do Diário Económico, tem informação muito importante e programas muito bem estruturados. Apesar de eu não ser economista, é um dos canais que mais vejo, já que considero importante estar bem informado sobre as questões económicas. No entanto esta canal tem um enorme defeito: a maneira deficiente com que apresenta súmulas de notícias nos seus rodapés.
Vejamos 3 exemplos retirados da emissão de ontem:
1) "GOVERNO CONTRATA BANCOS PARA VENDER A LOTERÍA"
A primeira impressão foi "Enganaram-se a escrever «lotaria»!" Depois reparei no acento no í e comecei a desconfiar: Porque escreveriam "lotaria" à espanhola? A que governo se referem; em que país isto aconteceu. De certo não foi em Portugal, onde a Santa Casa tem a máquina bem montada. Deverá ser em Espanha, mas não está certo escrever "Governo" sem dizer que se trata do governo espanhol.
2) "TAP PROIBIDA DE AUMENTAR VOOS PARA LUANDA"
Proibida? Por quem, com base em que lei. Porquê? Aumentar voos? será aumentar o preço dos voos, isto é dos bilhetes, ou o número de voos?
3) "PROFESSOR DE ECONOMIA EXIGE SAÍDA DA ALEMANHA DA MOEDA ÚNICA"
Professor de economia? Quem? Português? Alemão? De outra nacionalidade? Exige? Como é que um professor pode exigir? Não caberá ao governo alemão decidir?
É certo que aparece de longe em longe: "ESTAS E OUTRAS NOTÍCIAS EM economico.pt. De facto, lá estão as explicações todas. Mas se o canal não considera necessário dar essa informação e remete para a net, também não vou divulgar.

terça-feira, 28 de junho de 2011

Fundo para os despedimentos

No Insurgente:

«o governo desistiu de avançar com umas medidas mais importantes do pacote legislativo: a criação de um fundo que financie os despedimentos»
(fonte: Jornal de Negócios)

Mais uma boa notícia. Sempre achei essa medida desajustada e injusta. Quando vi que constava do memorando de entendimento fiquei desanimado, porque pensei que tal inclusão a tornava inevitável. Venceu o bom senso e estou convencido de que a UE, o BCE e o FMI não vão penalizar o país por se desistir desta medida.

sábado, 25 de junho de 2011

Notícias erróneas

As nossas TVs necessitam ter mais cuidado com a exactidão das suas notícias. 2 exemplos:
1) Ontem, ao noticiar o aumento das taxas da dívida portuguesa, o jornalista afirmou: "Portugal vai pagar mais pelos empréstimos." Ora o aumento tinha-se dado no mercado secundário, já que não tinha havido emissões de novos títulos de dívida; portanto Portugal não pagou nem mais nem menos, continuou a pagar exactamente o mesmo. Quando muito pode-se dizer que é provável que na próxima emissão de dívida para os mesmos prazos as taxas sejam superiores, mas, como se sabe pelos dados históricos, nem sempre o mercado primário segue automaticamente as tendências do mercado secundário. Informação errónea pois.
2) Agora aparece em roda-pé: "Mais austeridade: pelo menos duas privatizações previstas para 2012 serão adiantadas" (Apesar das aspas, cito de memória: as palavras podem não ter sido exactamente estas.). Pode ser que venha a haver mais austeridade, mas não me parece exacto que as privatizações possam ser consideradas medidas de austeridade. Nem todas as medidas destinadas a diminuir a dívida pública são sinal de austeridade.