segunda-feira, 4 de abril de 2011

Rua Nova dos Mercadores - D. Sebastião: descobertos quadros

Não sou sebastianista e não tenho esperança de que D. Sebastião apareça numa manhã de nevoeiro. De resto, este jovem rei fogoso, "bem nascida segurança da lusitana antiga liberdade, e não menos certíssima esperança de aumento da pequena Cristandade", em vez de ter sido, como esperava Camões, "jugo e vitupério do torpe Ismaelita cavaleiro, do Turco Oriental e do Gentio" foi, sim, o responsável pela perda da independência de Portugal. No entanto exultei com a notícia da descoberta no Museu Rietberg de uma tela que se julgava perdida como sendo do jovem D. Sebastião com 8 anos, que estava mal identificado como um nobre austríaco.


Mas achei ainda mais interessante a descoberta de duas telas (que parecem provir de um único quadro cortado ao meio) que representam a Rua Nova dos Mercadores da Baixa lisboeta pré-pombalina (e não pós-pombalina, como por erro disse o jornalista da RTP ao introduzir a notícia). Ainda há dias estive mais uma vez no Museu da Cidade onde vi a maqueta da reconstituição de Lisboa antes do terramoto e estive a observar como se pensa ter sido esta importante artéria da cidade. Uma das duas telas tem sido reproduzida e é fácil de encontrar na net:


mas a outra, só a consegui vislumbrar na reportagem da RTP2. Tentei apanhá-la, mas uma parte à direita ficou tapada. No entanto acho de interesse apresentar o que se consegue ver:

domingo, 3 de abril de 2011

Culpabilização e crispação

Os apelos de vários quadrantes e de várias personalidades para que a campanha política que começou em força seja cordata e para que os intervenientes evitem a crispação parecem não ter tido grande aceitação. Ainda ontem, as palavras de Sócrates em relação às últimas declarações de Passos Coelho mostram que a campanha vai seguir num tom violento e de assacar culpas, se necessário inventando intenções que não se podem concluir do discurso dos adversários políticos criticados.



A propósito, não percebi porque discursou Sócrates, numa acção de campanha no Porto, em frente de uma parede onde se lia "José Sócrates - defender Portugal construir o futuro" (Não tenho a certeza de que as letras pequeninas dissessem o que me pareceu; se interpretei mal, peço desculpa). Era uma acção do PS ou de José Sócrates? Será que Sócrates está a concorrer individualmente a algum cargo? Ou são já sintomas de culto da personalidade?

quarta-feira, 30 de março de 2011

Iodina

Bem sei que no meio de tantos problemas domésticos e internacionais é quase escandaloso eu escolher fazer notar hoje um pequeno problema de nomenclatura que é simultaneamente um erro de tradução, mas como químico e tradutor não resisto a assinalar o facto. Hoje, no canal Euronews, que costuma ser rigoroso na versão portuguesa das notícias, a propósito do acidente nuclear da central de Fukushima, o jornalista português referiu-se ao perigo da "iodina", falando, mais adiante na "iodina 131 radioactiva" que se encontrou na água do mar perto da central. Ora "iodina" é o nome duma planta (Iodina rhombifolia). O isótopo radioactivo que tem sido encontrado nas águas do mar perto de Fukushima é o iodo 131. O iodo é um elemento químico, de número atómico 43 na Tabela Periódica. Uma má tradução do inglês iodine terá levado a este erro. É certo que o Dicionário Cândido de Figueiredo inclui "iodina, f. (V. iodo)" por a palavra aparecer no lugar de iodo em alguma literatura brasileira. Mas em português de Portugal o nome correcto do elemento químico de símbolo I continua a ser iodo. E não há acordo ortográfico que mude as palavras. Note-se que a versão portuguesa da Euronews nunca empregou, que eu tivesse dado por isso, brasileirismos, pois se destina a ser difundida em Portugal e não no Brasil.

quinta-feira, 24 de março de 2011

Há défice para além da vida?

Já sabemos que, segundo Jorge Sampaio nos elucidou, há vida para além do défice, embora seja uma vida em crise financeira permanente e a precisar de um bailout, acrescento eu. Mas será que há défice para além da vida? Não sei, mas parece que há défice de 2010 para além de 2010. Para mim a notícia mais inquietante do dia não foi o chumbo do PEC nem o pedido de demissão do PM: Foi a notícia das dúvidas do Eurostat sobre o verdadeiro montante do défice português de 2010. Se as dúvidas têm razão de ser, a redução do défice de 2011 e anos seguintes para os valores a que nos comprometemos será ainda mais difícil, acho eu.

Acabou!

Sócrates pediu a demissão. No estado em que deixa o país não sei se é para festejar. Mas a sensação é de alívio. Talvez os futuros governantes, sejam eles quem sejam, venham pedir mais sacrifícios. Mas que os peçam com justificação e sem mentiras. Já não será mau.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Tradutore, traditore

A falta de cuidado de alguns tradutores que tratam as notícias transmitidas pelas nossas televisões pode prejudicar a compreensão das notícias. Muitas vezes resolvem aformosear as frases ditas pelos entrevistados ou de pessoas que participam em reportagens, substiuindo palavras ou expressões por outras, quando a tradução literal seria mais justa. Outras vezes não compreendem bem o que se diz e sai disparate. Principalmente quando a língua original é o alemão ou o francês, sai asneira pela certa.
Hoje houve duas situações semelhantes nas traduções, em legendas, das declarações de Jean-Claude Junker e do porta-voz da Comissão sobre as medidas do PEC português. Junker afirmou que as medidas preconizadas pelo governo português (PEC IV) tinham sido avalizadas pela Comissão. Pois na legenda apareceu que tinham sido analisadas. O sentido é totalmente diferente. Vi a reportagem 3 vezes e a palavra de Junker - avalisées - era bem audível e não deixava dúvida. Mais tarde, o porta-voz veio dizer que a aprovação das medidas era firme (ferme) e traduziram por estava fechada. Aqui o sentido é mais ou menos o mesmo, mas trata-se de um evidente erro de compreensão.

É preciso mais cuidado.

terça-feira, 22 de março de 2011

Até ver, é o governo que tem obrigação de governar.

Já vêm de há muito os apelos do governo aos partidos da oposição para que apresentem alternativas às medidas que eles criticam nos governantes. Se criticam, se dizem que não serve, têm de dizer como querem que se faça. Parece lógico, mas neste caso não é. Seria um apelo razoável entre iguais, entre colegas, amigos ou familiares: Não gostas do modo como eu faço, então diz tu como farias. Mas governo e oposição não são iguais. O governo dispõe de meios e tem acesso a informações que a oposição não tem.

No caso actual, Francisco Assis repete e repete o apelo: Se o PSD quer reprovar as medidas do PEC, deverá apresentar alternativas. Diz isto em várias ocasiões e em vários tons e critica o PSD por não fazer o que Assis pensa que teria obrigação de fazer. Mas não tem razão. Primeiro, porque o PSD não tem tanta informação sobre os dados económicos e financeiros do país como o governo. Segundo, porque o Ministério das Finanças dispõe de uma quantidade de funcionários que formam uma máquina poderosa para estudar alternativas e preparar as decisões, enquanto que Passos Coelho, por muitos economistas que tenha à disposição para o aconselhar, está longe de ter uma máquina semelhante. Por último, o PSD não é governo, e quem tem dever de governar é o governo; a oposição pode concordar ou discordar, mas se discordar é ao governo que cabe resolver a questão e, sendo minoritário, procurar alternativas que possam ser aprovadas pelo parlamento.