sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Reproduzo o texto reproduzido pelo Insurgente porque me revejo quase completamente nele. Ao lê-lo tive a alegria de averiguar que não sou assim tão anormal:

«Reproduzo de seguida um texto enviado pelo leitor Fernando Gomes da Costa:

Sou um futuro criminoso. Muitas das coisas que faço, gosto ou defendo, já foram em tempos normais, hoje são mal toleradas, e tudo se encaminha para que num prazo não muito longínquo sejam proibidas.
Gosto de comer carne e peixe, compro fast food, mesmo sem fumar entro em cafés de fumadores, gosto de carros e de tecnologia em geral, frequento centros comerciais, acho que a comida biológica é um embuste, que a ecologia está dramaticamente poluída pela ideologia e que se transformou hoje no mais esmagador e ditatorial instrumento de poder.
Acredito que as pessoas são diferentes, e que isso é bom para as sociedades, tenho duvidas sobre muitas teorias “assentes”, como sejam as das alterações climáticas, o fim da biodiversidade ou a bondade do igualitarismo.
Acho que as ideologias servem apenas para colocar os cérebros em piloto automatico. Chego mesmo ao ponto de acreditar que existe uma industria do mal-estar e do medo com o fito de explorar, controlar e manipular a maioria das pessoas.
O meu desvio comportamental leva até a que, em vez de apenas defender a liberdade de expressão, eu a tente incentivar e praticar, ou que, em vez de, como é hoje de bom tom, “tolerar” as ideias dos outros, eu as procure antes respeitar e equacionar.

Para piorar a situação, não tenho passado anti-fascista ou de militância de causas progressistas, não sou anti-católico, sou do sexo masculino, heterossexual, e de raça branca (e, como vêem, ainda uso palavras proscritas como “raça”‘ evitando, conservadoramente, termos salutarmente fracturantes como f…-se, ou car…., que disfarço pudicamente com reticências).
Enfim, tenho, como os gurus psicologistas gostam de classificar, uma personalidade de risco. Sou um potencial cliente prioritário para um futuro tratamento de adaptação social.

Resta-me apenas uma consolação: a natureza humana não muda como os altermundistas dizem e gostariam, e por isso estarei sempre bem acompanhado por uma confortável maioria da Humanidade. A mesma que (mesmo tendo que saltar muros) sempre fugiu, ou quis fugir dos paraísos tidos como modelos pela intelectualidade dominante para os infernos sociais por ela denunciados, ao mesmo tempo que sempre se recusou sair dos mesmos infernos para os ditos paraísos (mesmo sem ter que saltar muros). Essa vasta maioria alienada permanecerá. Mesmo que silenciosa ou silenciada.

Boaventura Paciência de Santos

Nota psicanalítica:
Ontem tive a oportunidade de rever na RTP um programa chamado “Desafio Verde”, em que uma sentenciosa jovem, julgo que a falar a sério, acusa regularmente de terrorista (sic) quem, entre outras calamidades, tome banho durante mais do que alguns minutos ou com agua bem quentinha, ou compre fraldas descartaveis, ou não coma alimentos “biologicos”‘ ou deixe uma luz acesa, ande sozinho de carro, etc., etc…Não sei se o programa é patrocionado por alguma espécie de Gestapo ou KGB verde, mas a sensação de que pouco faltará para começar a enviar cidadãos para campos de reeducação eco-estalinista, emerge sinistramente real.

Já hoje, numa livraria, folheei um livro em destaque intitulado ” Comer Animais”, que, a cada página folheada, reiterava que a agro-pecuária e os selvagens comedores de carne ou peixe são a fonte de todos os males ( incluindo, claro, as alterações climáticas…), para acabar na contracapa a dizer que, se alguém depois de ler o livro continuar a ser carnívoro ou peixívoro, é, obviamente, uma besta. Graças ao aviso, não comprei o livro.

Foi por essas e por outras que nasceu em mim o Boaventura Paciência de Santos, inspirado, por antítese, num meu conterrâneo que, já há muito, mas em especial desde há dias, sente na pele como o filão eco-progressista é bem rentável…»

Bem visto! Parabéns a Fernando Gomes da Costa pelo texto sucinto mas certeiro.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Presunção de inocência só quando dá jeito

A presunção de inocência é com frequência brandida contra afirmações e principalmente contra acusações que atingem pessoas que estão a ser julgadas e que por vezes já foram mesmo judicialmente acusadas. Está correcto, por muito evidente que sejam os crimes cometidos, judicialmente só serão considerados culpados depois de trânsito em julgado. Há portanto que respeitar esta norma. Mas há quem se lembre dela só quando dá jeito, quando os acusados são do seu círculo ou do seu partido, e a abandone quando se trata de acusar inimigos políticos. Quando quem faz isto é um ministro e o faz no âmbito das suas funções em plena conferência de imprensa é particularmente grave.

Pois foi o que fez o ministro Silva Pereira ao defender a actual administração do BPN quando afirmou que o que havia era "responsabilidade criminosa da anterior administração do BPN". O julgamento ainda não começou, mas para Silva Pereira já são oficialmente considerados criminosos.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Mais 50 medidas!

Se bem me lembro, Sócrates disse recentemente que para alcançar os objectivos a que se propunha não seriam necessárias novas medidas. Afinal faltavam 50! E, ao que dizem, não são consequência de quaisquer pressões. A ser assim, visto que desta vez não consta que o mundo tenha mudado, estas 50 medidas são resultado exclusivo do súbito raciocínio dos membros do Governo. Resta saber se podemos confiar que agora são mesmo as últimas.

Por espírito de simplificação de Sócrates e dos outros ministros que falaram depois da decisão governamental ou dos jornalistas que resolveram resumir os discursos, não dei por mais de 4 ou 5 medidas. Espero ver um comunicado do Governo com a lista completa das 50 medidas, de preferência um pouco mais explicadas do que foram. Mas do pouco que recordo, há duas medidas que considero completamente aberrantes.

Uma delas, a do fundo empresarial para ajudar nas indemnizações por despedimento, já ouvi o empresário Henrique Neto classificá-la como contrária ao bom-senso. Como ele disse, a medida pretende que as empresas bem sucedidas, que não precisam de dispensar trabalhadores, paguem, como se fosse uma nova taxa, para que as empresas mal sucedidas possam mais facilmente mandar trabalhadores para o desemprego! Assim, as melhores empresas terão encargos acrescidos, o que prejudicará a sua competitividade. Tem algum jeito? Se Espanha já faz isto, a ser verdade que faz do mesmo modo, não era caso para copiarmos a asneira.

Outra medida controversa é a das sanções aos serviços públicos que não cumpram as metas definidas para o trimestre. Segundo Teixeira dos Santos, as sanções poderão incluir cortes nas verbas atribuídas ao serviço incumpridor. No meu modesto julgamento, pensava que o dinheiro destinado a cada serviço deveria ter em conta a necessidade deste para levar a cabo a sua missão. Não se trata de um prémio e não tem sentido tirar dinheiro a um serviço público como castigo. Se funciona mal, há certamente meios mais adequados de melhorar o funcionamento.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

O espião do milénio ou do Millennium?

Ao ouvir ontem à noite, e mais tarde ao ler, a notícia sobre a iniciativa do presidente do BCP Carlos Santos Ferreira de se dispor a passar ao governo dos Estados Unidos informações financeiras que pudesse recolher no Irão no âmbito de uma actividade bancária naquele país, fiquei verdadeiramente chocado. Pensei que hoje ouviria veementes desmentidos do envolvimento de Sócrates e do Governo, mas não consegui pensar qual seria a reacção de Santos Ferreira. Julguei que o mais provável era este, perante a gravidade do escândalo e a verosimilhança das fontes, ter de pedir a demissão do cargo no banco que dirige. Previ um grande reboliço de comentários, pedidos de explicações, desmentidos, desculpas mal forjadas e um rolar de algumas cabeças. Afinal, no país dos brandos costumes, pouco aconteceu do que eu previra. Os lacónicos desmentidos do Governo foram os normais, e o facto de os contactos com membros do Governo ser referido no telegrama confidencial divulgado como uma afirmação de Santos Ferreira pode levar a duvidar da sua veracidade, pelo que os desmentidos podem ser sinceros. Já a posição de Santos Ferreira parece-me insustentável e as suas explicações na entrevista que deu na TV deixam muitas dúvidas. Quem pode, daqui em diante, confiar na confidencialidade das suas contas e operações efectuadas no Millennium BCP? Como encararão os governos dos países em que o BCP tem filiais ou qualquer actividade o facto de alegadamente o banco ter encarado a possibilidade de quebrar o dever de confidencialidade? A confiança no BCP só pode ser reposta se Santos Ferreira sair.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Investimento em Ciência e Tecnologia

Nos últimos dias temos ouvido e lido notícias que referem o aumento de investimento em ciência e tecnologia. No entanto, excepto uma notícia desenvolvida no Público, não tenho encontrado muitos pormenores que permitam avaliar até que ponto este aumento é notável. Uma referência no blog De Rerum Natura do Professor Carlos Fiolhais, "Investimento em Ciência e Tecnologia: o Público e o Privado", veio esclarecer-me melhor. Vale a pena ler.

Fiquei a saber que esta subida foi principalmente devida ao sector privado e que as empresas que mais contribuíram para este investimento em 2009 foram a Portugal Telecom, o BCP e o BPI. Talvez por deformação profissional, já que sempre trabalhei no sector químico e designadamente mais no farmacêutico, não tenho ideias precisas sobre que tipo de desenvolvimento científico façam os bancos e interrogo-me se esse desenvolvimento é exportável ou mesmo comerciável. Pode ser ignorância minha.

Mas o ponto fulcral está na interrogação de Carlos Fiolhais: «Agora bastará ver nas bases de dados internacionais (publicações e patentes; no caso das patentes não passamos da últimas posições!) para ver qual tem sido o volume de resultados da investigação científica e desenvolvimento dos cientistas e engenheiros que aí trabalham.» O meu interesse sobre as patentes, como expressão do resultado prático da investigação científica aplicada, leva-me a ter enorme interesse na resposta a esta questão. Os resultados mais recentes que consultei, é certo que já antigos, de 2007, põem Portugal, em número de patentes por milhão de habitantes, em 43.º lugar, depois da Malásia e da Turquia. Espero bem que o esforço referido em investimento em ciência e tecnologia se possa ter convertido em melhores resultados neste aspecto.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Língua portuguesa secundarizada

Já se temia, mas agora aconteceu mesmo: O Conselho de Ministros aprovou um decreto que aprova a adesão de Portugal ao Acordo de Londres sobre patentes, dispensando deste modo a tradução do texto de patentes de invenção para a língua portuguesa quando os inventores pretendam estender a Portugal a validade da patente, se esta estiver em língua inglesa. Continua a ser obrigatória apenas a tradução das reivindicações (além da tradução do texto completo - incluindo a descrição e o resumo - das poucas patentes cujo texto esteja em francês ou em alemão, as outras línguas oficiais do Instituto Europeu de Patentes (IEP).

Ironicamente, o Governo, no seu comunicado, afirma que um dos objectivos desta medida é "a preservação da utilização da língua portuguesa enquanto língua de acesso à informação sobre as patentes europeias que sejam validadas em Portugal, garantindo que as mesmas ficam integralmente disponíveis para consulta em Português". Preserva-se a língua portuguesa deixando de a usar! É certo que outros países já tinham tomado idêntica medida, com o fim principal de evitar as despesas em traduções, mas, além dos países cujas línguas são oficiais no IEP, Reino Unido, França e Alemanha, todos os restantes aderentes têm línguas muito minoritárias, longe da importância internacional da língua portuguesa. Portugal fazia parte dos países que resistiam ao Acordo de Londres, a par da Espanha, da Itália e de outros, por considerarem que, sendo as patentes documentos com força legal, teriam de estar disponíveis integralmente na língua nacional, a fim de permitir aos cidadãos avaliar se eventuais actividades industriais ou comerciais estavam ou não cobertas pelas patentes e eram, em consequência, ilegítimos ou legais. Pelos vistos, agora este argumento perdeu a validade para o nosso governo. O Instituto Nacional da Propriedade Industrial é da mesma opinião. A língua portuguesa é assim secundarizada pelos nossos governantes.

Já me tinha referido, sob o título "Em perigo a diversidade linguística da Europa" à possibilidade, então não concretizada, da adesão de Portugal no meu blog O Sexo dos Anjos. Agora, infelizmente, concretizou-se.

Cumpre-me declarar que, como tradutor de patentes, embora retirado, a minha opinião é suspeita. Considero-a, no entanto, bem fundamentada.


quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Aprovação do OE e subida das taxas

Há quem se admire de que as taxas da dívida soberana portuguesa continuem a crescer depois da aprovação do OE no parlamento, em consequência do acordo entre o Governo e o PSD. O que admira é que haja quem se admire. Em primeiro lugar, não se sabe se as taxas subiriam muito mais se o OE não tem sido aprovado. Não é portanto impossível que o acordo tenha tido um resultado positivo. Em segundo lugar, e na minha opinião é o ponto mais importante, os eventuais compradores da nossa dívida, especialmente da dívida a 10 anos, não podem basear o seu critério sobre a segurança dos seus investimentos num documento que apenas se refere ao ano de 2011 e que, dada a ausência de medidas de fundo, por muita austeridade que imponha a curto prazo, pouca relevância tem no prazo de 10 anos. Se o Governo apresentasse um conjunto de medidas a médio/longo prazo e se essas medidas fossem credíveis e pudessem ajudar a consolidar a situação financeira, o que não acontece com as actuais medidas de austeridade, talvez os mercados reagissem mais positivamente. Nas actuais condições não admira que continuem a desconfiar.