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sábado, 4 de março de 2017

Declarações ignóbeis

Já há algum tempo que temos ouvido António Costa e outros responsáveis do PS declarar que a oposição anda irritada com os bons resultados obtidos pelo seu Governo. Esta afirmação tem sido repetida tantas vezes que é evidente que se pretende que, de tanto ouvir, muita gente venha a acreditar nesta efabulação. Mas, pensando certamente que a repetição não é suficiente, ouvimos hoje o PM declarar, muito sério, o seguinte:

"Nós temos de ter nervos de aço e sangue frio. Já percebemos todos que a oposição anda muito irritada e também já percebemos bem o que é que a irrita. Cada sucesso do País é um insucesso da oposição. E a culpa não é do País, a culpa é mesmo da oposição, que adoptou esta estratégia absurda de “tudo o que for bom para o País é mau para nós, tudo o que for mau para o País é bom para nós”. Bom, quem se coloca assim, a apostar nos interesses contrários ao interesse do País, está condenado a fracassar na sua estratégia, porque se há coisa que nenhuma portuguesa e nenhum português deseja é mal ao seu País e portanto ninguém deseja o bem da nossa oposição."

Estas afirmações ultrapassam o que é normal em críticas entre partidos em democracia. Nunca ouvimos qualquer dirigente do PSD ou do CDS afirmar ou sequer insinuar que alguém no PS desejasse o mal do País, quer agora, que estão no poder, quer quando estavam na oposição. António Costa deveria citar em que declarações ou actos se baseia para concluir que a oposição defende o mal de Portugal.
 Por outro lado, os sucessos da governação que irritariam a oposição não são visíveis. Será que o PM se refere ao baixo défice conseguido com medidas não repetíveis e cortes insustentáveis, ao crescimento anémico, à redução do desemprego que apenas continua a tendência que já vinha do anterior Governo, ao corte do investimento? Escolas com salas de aula fechadas por chover lá dentro, faculdades cujo orçamento não chega para pagar ao pessoal, prisões onde se verificam fugas de prisioneiros alegadamente pele escassez de pessoal, serão estes os grandes êxitos deste Governo?

sábado, 29 de outubro de 2016

Reacções exageradas

O Ministro das Finanças alemão disse, segundo noticiam amplamente, «que Portugal estava a ser "muito bem sucedido até ao novo Governo"» liderado por António Costa» ter entrado em funções. É certo que há muita gente que concorda com esta afirmação, pelo menos 32% dos portugueses, como se pode concluir da votação maioritária que a coligação PàF obteve nas legislativas. Mas, mesmo assim, é manifestamente uma ingerência em assuntos de outro estado e, portanto, Schäuble deveria ter-se abstido de declarações deste tipo. Mas as reacções que se seguiram por cá são, no mínimo, desadequadas, para não dizer histéricas (excepto a de Silva Pereira que considerou que «É melhor não dar muita atenção”). António Costa foi o mais brando, mas um pouco despropositado, afirmando que "o preconceito é muito pouco inspirador para se falar com tino" e que dava "sobretudo atenção aos alemães que conhecem Portugal e, por isso, sabem do que falam". Ora parece-me que não foi o preconceito que motivou Schäuble, nem deverá desconhecer o que se passa em Portugal. É mesmo provável que esteja muito bem informado. Já Manuela Ferreira Leite acha que as «Palavras de Schäuble são "achincalhamento para qualquer governo». Não vejo como uma simples declaração sobre o governo mais bem ou mais mal sucedido pode achincalhar alguém. Não será uma frase agradável, mas não chega a ser um achincalhamento. Também Carlos César quis dar a sua opinião, declarando que Schäuble é um incendiário a vender a imagem de bombeiro” o que não me parece que venha a propósito; para incendiário, Schäuble foi muito brando. Quanto ao Bloco de Esquerda, considerou as declarações de Schäuble como "ofensivas" e apresentou no Parlamento um voto de repúdio. Afinal o Ministro alemão não achincalhou nem ofendeu ninguém, apenas considerou boa a política do Governo anterior sem adiantar grande coisa sobre se o actual era pior. Enfim, muito barulho para nada.